Valpo, um paraíso (urbano)

Ela é popularmente chamada de Valpo. Um nome carinhoso para uma cidade charmosa. Banhada pelo mar e cheia de energia, Valparaíso – a capital legislativa do Chile – tem uma mistura de cores fascinante. E uma mistura de características urbanas que provocam uma rápida identificação por parte dos brasileiros. Pois é, inevitável não enxergar um pouco das favelas cariocas no amontoado de casas nos morros.
Ao contrário dos exemplares brasileiros, porém, as casas de Valpo viraram atração cultural. São patrimônio da humanidade. Pela arquitetura diferenciada, pela solução urbana em que se configuraram numa cidade de geografia difícil, pelo charme que atribuíram à paisagem local, pela combinação perfeita com os ascensores (os funiculares) puxados morro acima por longos cabos de aço – estes também um patrimônio (cuja manutenção é alvo de debate entre o governo local, estadual e federal).
Mas é mesmo o colorido das casas que confere todo o charme a Valparaíso. A arquitetura colonial, muitas vezes marcada pelo tempo, ganha vida com o vermelho, azul, amarelo, verde das fachadas, janelas e portas, em tons alternados. No Brasil, talvez chamassem isso de “brega”. Em Valpo, é motivo de orgulho – não é à toa que o logotipo da cidade traz as cores fortes dos imóveis dos cerros (ou morros); não é à toa que as casas locais estão por toda parte, nas lojas de souvenires e em obras de arte como um dos símbolos do país. A escadaria do bar no Parque Arauco, em Santiago, por exemplo, reproduz – com criatividade e genialidade – as coloridas casinhas.







A cidade poderia valer só por isso, mas ela tem mais. O porto, o mais movimentado do país, também confere à paisagem um ritmo e um colorido que combinam perfeitamente com as casinhas nos morros. O colorido vem dos navios e, principalmente, dos contêineres que levam e trazem produtos do Chile para o mundo e do mundo para o Chile. Do alto, parecem caixinhas de brinquedo sendo carregadas de um lado para o outro. De perto, são gigantescos, bem como os guindastes que os transportam. Movem-se em ritmo lento, cuidadoso, e movem-se sem parar, um caminhão atrás do outro. A economia não pode parar, o mundo não pode parar – navegar é preciso, já dizia o poeta; e hoje, na era da globalização, navegar produtos é preciso. E Valpo cumpre seu papel - são milhões de toneladas em carga (foram 10,8 milhões em 2008).



Uma cidade vibrante e colorida assim não podia deixar de ter arte na rua. Em Valparaíso, como provavelmente em nenhuma outra cidade do Chile, o grafite redesenha a paisagem urbana. Num país acostumado às pichações em sinal de protesto (assunto tratado no blog Bate-Bola), a grafitagem ganha um significado especial. É arte de rua, rebelde e revolucionária, mas ao mesmo tempo integrada (o que, para muitos artistas, tira dela seu verdadeiro valor, o de provocar e ser marginal).
Seja como for (e polêmica à parte), os grafites estão espalhados por todo lado, nas fachadas das casas, nos pilares e muretas dos viadutos, em áreas públicas e privadas. Coloridos sempre, para manter a tradição local.
Tudo somado, Valpo é um quadro a céu aberto. Um quadro de casinhas, caixotes e murais. Uma obra inacabada, ou melhor, em eterna transformação. Um cenário vibrante, com gente que vem e vai, que sobe e desce, que pinta e rabisca e cria e transforma. Valpo é única no Chile, única no mundo. Lá, o mar – quase sempre protagonista nas cidades do litoral (vide a vizinha Viña del Mar, que o carrega até no nome...) – assume humildemente um papel figurativo.
Em Valparaíso, o charme, a cor, o brilho e o tom vêm mesmo das ruas. É da arquitetura urbana construída pelas mãos do homem que emana a energia do lugar. Uma energia em vermelho, amarelo, azul... Uma energia capaz de levar, ainda que por um instante, qualquer alma transcendente ao paraíso. Um paraíso chamado carinhosamente de Valpo.






A cidade dos amores e amantes

Norte-americano de Indiana, Cole Albert Porter acertou quando disse ao mundo que amava Paris. Em todas as estações. “I love Paris in the spring time, I love Paris in the fall, I love Paris in the summer when it sizzles, I love Paris in the winter when it drizzles.” Em todas as ocasiões. “I love Paris every moment, every moment of the year”.
Cole Porter acertou quando disse ao mundo que Paris ama os amantes. “Paris loves lovers, for lovers it's heaven above; Paris tells lovers, love is supreme, wake up your dream and make love; only in Paris one discovers the urge to merge with the splurge of the spring; Paris loves lovers for lovers know that love is everything”. Sim, o amor é tudo, sábio Porter. E se o amor é tudo, Paris é tudo!
Cenário de filmes, enredo de clássicos da literatura, abrigo de pensadores, poetas, pintores e gênios, Paris é mesmo a cidade dos amantes e dos amores. Amores passados, amores perdidos, amores platônicos. “I love Paris, why oh why do I love Paris, because my love is here.” Como Porter, de alguma forma e em algum sentido seu amor está em Paris. Amor pelas artes, pela cidade, pela língua, por alguém, por ninguém. “Every time I look down on this timeless town, whether blue or gray be her skies. Whether loud be her cheers or soft be her tears, more and more do I realize: I love Paris”.
E como ele, outros milhões. Não sem razão: Paris brilha – e democraticamente (Igualdade, Liberdade e Fraternidade, pois) espalha seu brilho entre todos e para todos. Gaze on the glistening lights below and above; Oh, what a night of nights for people in love. No city but this my friend, no city I know gives romance such a chance to grow and grow.”
Nenhuma cidade mesmo! Terra de invasões, derrotas e glórias. Terra do passado, do presente e do futuro. Terra de quem chega, usa, abusa e vai; terra de quem chega, flana, encanta e fica. Terra de revolucionários e do Maio de 68, da direita extremista e de Le Pen. Terra de reis, rainhas, imperadores e presidentes. De gente. De Napoleão, De Gaulle, Mitterrand e Sarkozy. De François e Jean-Marie. Only in Paris one discovers the urge to merge with the splurge of the spring (Militaristic, you're optimistic, du jour propaganda). Paris loves lovers for lovers know that love is everything (Unrealistic, is individualistic and not at all collectivistic but a low Totalitarianistic thing).”
Sim, o amor é tudo, sábio Porter. Sendo assim, é impossível não amar Paris. Talvez nenhum outro lugar seja tão apaixonadamente apaixonante como a Cidade-Luz. Talvez nenhum outro lugar combine tão bem com os apaixonados. Ainda que você esteja sozinho, Paris é inescapável aos corações, inesgotável em paixões, transborda oportunidades e sensualidade. Das vedetes do Moulin Rouge e outros cabarés à doce, fascinante, bela, misteriosa e poderosa primeira-dama, modemoiselle Carla Bruni. Paris loves lovers, for lovers it's heaven above (Capitalistic, characteristic, sensualistic, they should be atheistic). Paris tells lovers, love is supreme, wake up your dream and make love (Imperialistic, I'm pessimistic, that's anti communistic).”
“Make love!” Nada é mais revolucionário, mais contracultura, mais estudantil, mais passado e futuro do que “make love” – “faça amor”. Espalhe amor. E se esta é a ordem, melhor lugar para cumpri-la não há do que Paris (por mais que a cidade venha se transformando ao longo dos últimos anos na meca dos turistas de ocasião). A sempre admirada Paris, a cidade que Cole Porter amava. A cidade que ama os amantes.

B - I - C - I - C - L - E - T - A

Na onda mundial do ecologicamente correto, as ciclovias ganham cada vez mais notoriedade como alternativa para o caos do trânsito nas médias e grandes cidades. Além de serem uma solução limpa, as protagonistas desta história, as bicicletas, acrescentam uma funcionalidade interessante à paisagem urbana. Isto pode ser visto em Amsterdã, a capital da Holanda, onde elas – por incrível que seja para nós, brasileiros – têm a preferência moral nas ruas, contando com o respeito dos motoristas.
As bicicletas também merecem destaque no dia-a-dia em Munique, na Alemanha, onde há uma rede de ciclovias perfeitamente integrada ao sistema de transporte (as ciclovias compartilham espaço com os pedestres nas calçadas, livrando as ruas). Em muitas outras cidades, os ciclistas são importantes não só como alternativa ao tradicional sistema de transporte, mas também como símbolos do conceito de uma vida saudável e de uma localidade sustentável.
No entanto, em nenhum outro lugar esse “veículo de duas rodas presas a um quadro, movido pelo esforço do próprio usuário” (segundo definição do Wikipedia), confere um charme especial à paisagem urbana como na Itália. Nas pequenas ou grandes cidades, individualmente ou em projetos coletivos (como o das bicicletas que podem ser alugadas pela comunidade nas ruas de Milão), este aparentemente rudimentar meio de locomoção se integra à perfeição ao estilo de vida. Por estilo de vida entenda-se a arquitetura das cidades, a vestimenta das pessoas, o cotidiano.
Nas ruas, vê-se facilmente gente nova e velha em bicicletas modernosas e arcaicas, não importa. Senhoras elegantes com suas sacolas de compras, senhores elegantes carregando os jornais do dia, homens e mulheres entrando e saindo do banco, pegando ou largando suas bicicletas, como na Piazza San Michele, em Lucca. Foi nesta cidade que vi um homem parcialmente calvo, óculos escuros, calça jeans e jaqueta marrom claro de camurça, pedalando tranquilamente sua já um tanto surrada e enferrujada bicicleta.





Ah, este veículo cujo nome deriva do latim “bi” (dois) e “kyklos” (rodas), “bicycle”, “bicyclette” ou simplesmente “bike” foi cantado em verso por Toquinho: “sou eu que te levo pelos parques a correr, te ajudo a crescer e em duas rodas deslizar, em cima de mim o mundo fica à sua mercê, você roda em mim e o mundo embaixo de você. Corpo ao vento, pensamento solto pelo ar, pra isso acontecer basta você me pedalar. Sou eu que te faço companhia por aí, entre ruas, avenidas, na beira do mar, eu vou com você comprar e te ajudo a curtir picolés, chicletes, figurinhas e gibis. Rodo a roda e o tempo roda e é hora de voltar, pra isso acontecer basta você me pedalar”.
Na Itália pedalar é um estilo de vida. E as bicicletas são parte do jeito italiano de ser e viver. Com lanterninhas ou cestinhas, brancas, amarelas ou vermelhas. Se alguém duvida, basta olhar para aquele conhecido objeto de duas rodas deixado na esquina em frente à Piazza della Repubblica, em Florença, ou em frente à Salumeria G. Albertini em meio a peças de carne suína, alho, azeite e vinho, numa rua quase deserta perto do Duomo, em Verona. Quem há de negar, ao olhar estes flagrantes nas imagens que ilustram esta postagem, que a bicicleta não faz parte do cenário? Quem há de negar que ela não combina com a paisagem? Quem há de negar que lugares assim ganham vida com a presença deste “objeto-veículo-de-duas-rodas”?
E para quem acha exagero tudo isto, vá dizer que as bicicletas não possuem personalidade e não transferem isso para a paisagem urbana? Têm personalidade porque são únicas e carregam em suas entranhas – bancos, aros, guidões, selins – as marcas de seus donos (ou seriam companheiros de vida?). Até quando despojadas de marcas pessoais e ainda que uniformemente perfiladas, elas possuem uma aura inexplicável. Ainda que às vezes aparentem estar abandonadas à própria sorte, recostadas em antigos muros de pintura descascada, tijolos aparentes à vista... Basta que se misturem à urbanidade ao redor e pronto, estará feita a mágica. A mágica transformação de um simples objeto de duas rodas - cujos traços remontam ao final do século 15, desenhados por um tal Leonardo Da Vinci - em um ser capaz de fazer ir e vir... Ir e vir a vida!




PS: detalhes sobre o projeto Bike Mi, desenvolvido em Milão, podem ser obtidos aqui.

Visão florentina

O cenário é clássico, turístico e um tanto blasé. Ainda assim, irresistível e imperdível. Quem visita Florença não pode deixar de observá-la a partir da Piazzale Michelangelo. Localizada no alto de um morro e do outro lado do rio Arno, ela permite uma visão privilegiada da parte histórica da cidade. De lá, tem-se a tradicional vista da basílica de Santa Maria del Fiore com seu campanário e o batistério, além da ponte Vecchio.
Por si só, a piazzale – idealizada em 1869 - praticamente não possui nenhum atrativo. É verdade que ela abriga uma réplica de bronze do “David”, de Michelangelo (mas também é fato que uma outra réplica pode ser vista na Piazza della Signoria em frente ao Palazzo Vecchio, sem contar o belíssimo e inigualável original na Accademia). De resto, é um grande mirante com espaço para estacionamento e barracas de ambulantes. Ainda assim, milhares de turistas vão até lá todos os dias. Vão justamente para observar Florença. E não podia ter algo melhor a se fazer na piazzale (talvez sua pouca atratividade sirva justamente para não ofuscar o principal, a encantadora vista que se tem de lá).
Chegar até a piazzale exige uma boa caminhada (não recomendada). O acesso é um tanto difícil, distante e íngreme (lembre-se, ela fica num morro). Embora o percurso seja magnificamente belo, principalmente no outono, quando as árvores assumem aquele conhecido tom amarelo-ferrugem, ainda assim prefira pegar um táxi ou um ônibus. Reserve suas energias para o que é essencial. E o essencial é olhar adiante.
Tão logo chegam à praça, os turistas acorrem até o parapeito feito de balaústres. Primeiro, observam a beleza daquele cenário. Depois, buscam o melhor ângulo para suas fotos. Fazem poses diversas e disparam os flashes. Os mais apressados e distraídos sequer notam a presença da trepadeira fortemente vermelha, como a cor da framboesa, e com cachos repletos de bolinhas negras, tal qual uvas, que dá um colorido especial ao muro de sustentação da piazzale, logo abaixo. Tampouco notam a natureza ao redor, no sentido oposto ao da Florença histórica. Ignoram a corredeira do Arno que, pouco adiante, forma pequenas quedas de água.
Incrível mesmo é notar a grandiosidade de Santa Maria del Fiore. Por mais que se suba ao topo do campanário ou da própria catedral ou que se repare em sua suntuosidade a partir do chão, é lá da Piazzale Michelangelo que a igreja se revela por inteiro. Sua cúpula mostra-se portentosa e seu conjunto de cores soa harmônico como as notas de uma composição clássica. É curioso verificar que, ao mesmo tempo em que a igreja se destaca na paisagem como uma exceção, ela se mistura tão perfeitamente aos tons florentinos que poucas construções caberiam tão bem naquele local.


 

E se para tantos olhar o templo e a cidade a partir dali é apenas mais uma experiência turística, tive a sorte de vivenciar um momento diferente. Ao meu lado, tranquila e habilidosamente, um garoto aparentando entre 7 e 9 anos rabiscava em seu caderno de desenhos traços perfeitos da edificação que via à frente. Como os renascentistas séculos antes, copiava cada detalhe, cada tijolo aparente, cada curva de Santa Maria del Fiore. Sob o olhar admirado e quieto de quem supus ser a mãe dele. Aparentemente franceses pelo sotaque.
Enquanto a tarde caía, o garoto alternava olhares rápidos e atentos da igreja para o papel, do papel para a igreja. Desenhava, apagava, corrigia, olhava a certa distância, buscando respeitar perfeitamente as proporções.
Fiquei ali longos minutos olhando, só olhando. Silenciosamente, admirava cada traço que surgia do movimento de sua mão (eu, que nunca tive no desenho uma habilidade...). Aquilo tudo parecia surreal, sublime. Pelo que notei, eu devia ser o único intruso a observar o trabalho quase solitário do garoto. Os demais turistas sequer notaram a tarefa dele ali. Para mim, era uma presença especial.
  


A piazzale ainda reserva mais surpresas. O crepúsculo visto dali assume cores espetaculares. Conforme a tarde cai e a noite chega, os tons vão passando do brilho dourado do sol para um azul acinzentado. As nuvens reforçam a passagem do tempo com sua presença poderosa, dando movimento ao entardecer. Aos poucos, as luzes de Florença vão surgindo, primeiro timidamente, como pequenos brilhantes ao longo do Arno, depois mais marcadamente, nos prédios e postes, até que se tornam dominantes já na noite florentina.
A essa altura, a piazzale é quase um silêncio sombrio. Ela se apaga e se esconde para deixar Florença brilhar logo abaixo. O reflexo das luzes nas águas do rio parece tê-las tingida de ouro. Uma pulseira dourada, é isto que vira o Arno. Santa Maria del Fiore e a igreja de Santa Croce, mais à direita, também aparentam ter sido tocadas por Midas ao anoitecer.
É, a Piazzale Michelangelo é mesmo um tanto clássica, turística e blasé. E quem disse que isto é um problema?




Visões do mar

Tudo o que vivemos guarda uma correlação com nossos referenciais - que, por sua vez, estão ligados aos paradigmas da sociedade e da família na qual crescemos. Isto dita o que costumamos chamar de visão de mundo. Mudar isso, ou enxergar as situações sob um outro prisma, exige coragem, desprendimento e estímulo. Encontrei um desses estímulos no mar. Nas águas aparentemente calmas do Atlântico e do Pacífico.
É mesmo curioso – e até um pouco “non sense” – perceber uma mudança de paradigma quando se olha o Atlântico do outro lado. Foi assim que me senti quando estive em Peniche, bela localidade no litoral português a cerca de 100 quilômetros da capital Lisboa. Numa região de encostas, perto do Cabo Carvoeiro, onde ficam o farol de 1790 e a conhecida Varanda de Pilatos, paramos o carro e ficamos observando a beleza do Atlântico, lá um pouco mais azul que cá.
No famoso Miradouro da Nau dos Corvos (cujo nome se deve ao rochedo magnífica e pacientemente esculpido pelo vento e pelo tempo, com forma supostamente semelhante a uma nau, ponto de encontro de gaivotas e corvos), olhei para o mar e pensei. Pensei como olhar o mundo de outro ângulo pode mudar nossa vida; pensei que milhares de quilômetros dali, na margem oposta do Atlântico, um pouco mais ao sul, estava o Brasil; pensei na ousadia portuguesa ao se lançar a mares “nunca dantes navegados”, rumo ao desconhecido, a verdadeira epopeia lusitana. Um devaneio me invadiu a alma.


Sentimento semelhante tive ao tocar o Atlântico norte em Miami, nos Estados Unidos. Era, no fim, o mesmo oceano da minha infância em Santos. Era, enfim, o mesmo mar que desafiou os portugueses e ingleses e franceses. Era, enfim, o Atlântico que eu tanto conhecia, apenas banhando outras terras mais ao norte. Mas era uma cor diferente, um odor diferente, um sabor diferente. No ar e no mar, nada lembrava o passado. As pessoas, os barcos, as folhagens, tudo era novo.
Sutil e poderoso, o Atlântico mostrou-se um deleite numa tarde de sol. Aquela areia grossa e aquele mar esverdeado e claro me botaram mais uma vez para pensar. Pensei em como o mundo é vasto e nós, humanos, minúsculos; pensei em como a natureza é poderosa e nós, humanos, tão frágeis; pensei em quantos galeões passaram por aquelas águas levando ouro e prata para os reis na Europa e quantos naufragaram e sucumbiram ao ataque dos piratas. Um devaneio me invadiu a mente.



Em Viña del Mar, no Chile, encontrei o Pacífico. Renegado (porque frio), frio (porque renegado), este oceano imenso é capaz de congelar os pensamentos. Por um instante. A areia grossa, molhada e gelada, delimita a coragem. Vencida a fronteira, a água álgida chega primeiro de mansinho, acariciando os pés; depois, com uma força capaz de invadir os ossos dolorosamente.
O Pacífico espanta quem nele toca. E encanta quem nele chega. Livre do frio cortante das suas águas, detive-me para observar o mundo. Uma janela se abriu para o infinito. E o infinito trazia todas as possibilidades de um mundo novo. Era apenas água, o mar, mas era tudo diferente. De repente, senti-me em paz. É isso que o tormentoso Pacífico traz, a paz.
Os passos firmes e decididos de uma alma inquieta - e por um átimo pacificada - ficaram gravados na areia por algum tempo até serem levados pelas ondas. Apagados para sempre, gravados na mente por uma eternidade. Pus-me a pensar. Pensei em como mares tão distantes podiam estar assim tão próximos, a menos de meio dia um do outro; pensei em como o mundo era pequeno e como nós, humanos, reduzimos fronteiras com nossas invenções; pensei em como, apesar disso, acessar o Pacífico continua sendo um desafio para o Brasil. Um devaneio me invadiu o corpo.


Nas Cinque Terre italianas, o azul forte e as brumas brancas do mar da Ligúria eram tão maravilhosamente belos que bloquearam qualquer tentativa de pensar. O vazio que se estabeleceu na mente e na alma deu lugar a um espanto contemplativo da região, por muitos anos quase inacessível. O reflexo dos raios do sol brilhando no horizonte no azul escuro das águas criou um cenário paradisíaco, sonorizado pelo barulho sincronizado das ondas quebrando nas rochas do penhasco. Impossível pensar diante de uma paisagem desta! Ali, bastava olhar e sentir.
Na praia pedregosa, porém, eu parei e deitei. Olhei para o céu e o sol, que se punha à direita. Olhei para a mãe que brincava alegremente com seus filhos. Olhei para as montanhas que cobriam rapidamente os raios solares. Olhei para o guia que exibia o nome daquele tão desejado chão - “Itália”. Lembrei de todos os sonhos que nutri até ali. Por breves minutos, deixei o tempo parar. Uma felicidade imensa tomou conta de mim. Corpo, mente e alma finalmente unidos. Ali, não mais devaneei. Apenas vivi - até o próximo apito do trem...



Aventuras pelas estradas alemãs

Dirigir em outro país é um desafio e uma aventura. Numa viagem pela Europa em 2005 com um casal de amigos, decidimos alugar um carro, já que cruzaríamos a Alemanha de cima a baixo (ou de baixo para cima, como preferir). De início, definimos as funções de cada um: meu amigo José Eduardo Heflinger Júnior seria o motorista, eu o auxiliaria olhando mapas e o GPS e a esposa dele, Maria Helena, ficaria responsável por observar as placas e checar eventuais traduções no guia turístico.
Também decidimos respeitar todos os limites de velocidade. Afinal, antes da viagem vários colegas nos alertaram para a eficiência e a rigidez da fiscalização de trânsito na Alemanha. “Passei um pouco da velocidade e um policial surgiu do nada. Eles aparecem quando a gente menos espera”, contou um. “Uma vez levei uma multa e quase fiquei sem dinheiro”, falou outro. Policiais de surpresa, multas em euro, outra língua, melhor mesmo respeitar as regras com rigor!
Obviamente, tínhamos ouvido também sobre a fama das estradas alemãs. “Você pode correr quanto quiser, é uma maravilha!”, alardearam alguns. De fato, as chamadas autobahns (as vias expressas) não possuem limite de velocidade em condições normais. Já nas estradas vicinais e vias de menor circulação, as restrições existem da mesma forma que no Brasil.
Nossa aventura automobilística começou em Singen, uma pequena cidade localizada logo após a fronteira com a Suíça. Era manhã de domingo e a locadora de veículos abriu só para nos receber – a reserva havia sido feita no Brasil. Lá estávamos numa cidadezinha do interior, numa loja com três funcionários que pouco entendiam o inglês – e nós nada falávamos de alemão... Era apenas o primeiro obstáculo.
Pegamos o carro tentando decifrar o GPS. Partimos em direção a Munique, um trajeto de pouco mais de 250 quilômetros. Após algum tempo na estrada, nossa amiga “Maria”, a moça do GPS (ou melhor, a voz portuguesa do GPS), indicou a existência de um lago à frente. Alguns quilômetros adiante a estrada acabou e nos vimos à beira do lago Bondensee (o lago de Constança, que faz a divisa – não definida – entre Alemanha, Suíça e Áustria). O primeiro pensamento foi: “E agora, este tal GPS não funciona!”. Logo vimos que havia uma balsa e a travessia do Bondensee era mesmo parte do trajeto.
Mais um obstáculo superado, encontramos finalmente uma autobahn. Cautelosos, optamos pela faixa central. Assim, assistíamos a um desfile de Mercedes, BMW e uns carrões da Volks passarem a quase 200 km/h (ou mais), roncando seus motores. E nós a 100, 120 km/h no máximo – isto quando não apareciam estranhas placas. Sim, placas estranhas surgiram. Traziam caracteres cinza indicando velocidade reduzida (normalmente 60 km/h), cortada por traços paralelos. Nessas horas, nosso motorista não titubeava: tirava o pé do acelerador e seguíamos em ritmo lento enquanto os carrões passavam, agora com a impressão (lógica) de que estavam ainda mais velozes. Trafegávamos quilômetros até que uma nova placa surgisse mudando a velocidade.
Em outra ocasião, numa espécie de estrada vicinal, apareceu uma placa que quase nos fez parar. Havia duas indicações de velocidade, normalmente 50 e 100 km/h, e algumas faixas abaixo de cada número. Como pretendíamos evitar multas e complicações com a temida “polizei”, optávamos sempre pela menor velocidade. E assim seguíamos por quilômetros.
Tudo transcorreu devagar e na dúvida até encontrarmos uma limeirense casada com um grego. O casal mora há muitos anos na Alemanha e nos ajudou a entender as estranhas placas. Aquela com linhas paralelas na verdade indica o fim da velocidade restrita indicada (ou seja, pista livre). A outra indica a velocidade para tanques de guerra (nós, brasileiros, não temos conflitos armados como herança cultural, daí nem cogitarmos qualquer aspecto ligado a isso, mas na Europa as guerras são algo fresco na memória e presentes em muitas regiões).
Sim, trafegamos lentamente porque fomos turistas de primeira viagem.
No decorrer do caminho, também vimos placas duplas, uma indicando velocidade e a outra com os dizeres “bei Nässe” e o desenho de um carro sobre um piso escorregadio. Neste caso, fomos salvos pelo guia turístico: a velocidade valia em caso de piso molhado (“quando molhado” era a tradução das duas palavras).
As autobahns alemãs têm uma outra característica curiosa: geralmente não possuem alças de acesso às cidades menores. Tem-se apenas uma estradinha que cai direto na rodovia. Isso implica, muitas vezes, em ter que parar o carro no meio da pista para fazer a conversão. Num certo trajeto, deparamo-nos até com um semáforo. Sinal vermelho: paramos! Curiosamente, outros carros passavam. Atrás, alguns buzinavam. Logo começamos a estranhar a demora para a abertura do sinal - fora os veículos que ignoravam o “vermelho”. Temerosos, porém, ficamos parados por longos minutos até que uma alma bondosa, num carro ao lado, baixou o vidro e avisou que não precisávamos respeitar o semáforo. Assim, pudemos seguir viagem.
Claro que, trafegando tanto pelas famosas autobahns, não podíamos deixar de experimentar a tal velocidade livre. No longo caminho que nos levou a Hamburgo, em dado momento nosso motorista acelerou a 160 km/h. Na faixa central, porque ao lado os carrões ainda passavam voando! Ele ainda soltou a mão do volante e o carro seguiu, firme e seguro. Pois outra característica das rodovias alemãs é a precisão dos traçados. Longas retas, poucas subidas e descidas, curvas geometricamente desenhadas de modo que o carro praticamente vai por si só.
Ah, não há pedágios nem buracos, a sinalização é perfeita e vimos obras de melhorias em muitos trechos (bancadas pelo governo).
Foram vinte dias na estrada cruzando a Alemanha de norte a sul. A cautela exacerbada nos livrou das multas, mas nos rendeu buzinadas irritadas (várias) dos motoristas alemães e alguns "micos". Ao menos acumulamos histórias para contar. Rimos de todas elas, é verdade. E aprendemos a falar “Ausfahrt” (“saída”, no caso de rodovias) de tantas placas que vimos com essa indicação. Tratando-se de alemão, aprender uma palavra é algo significativo...!



PS: na foto com a Maria Helena e eu, numa rua de Munique, nosso “companheiro” de viagem. A outra foto foi feita durante uma parada para abastecer num posto alemão.

O celestial Duomo de Milão

O mia bella Madonnina che brilli da lontano
tutta d'oro e piccolina, tu domini Milano
sotto di te si vive la vita, non si sta mai con le mani in mano
tutti cantano "lontano da Napoli si muore"
ma poi vengono qui a Milano
Giovanni D'anzi

Raras vezes uma visão provocou uma sensação imediata de êxtase como a que tive ao subir os degraus da estação de metrô em Milão, na Itália, rumo ao exterior. Impossível conter o “Uau!!!” que, súbito, tomou minha alma e escapou pela boca. Aquela edificação inacreditavelmente bela surgiu suntuosa à minha frente. Estava ali à minha disposição (e à de milhares de outros turistas, é verdade...). A catedral de Milão (ou simplesmente Duomo) é das construções mais fantásticas que já conheci. A brancura aparente de seu mármore, em contraste com o céu azulado, realçou a magnificência daquela visão.
O Duomo é uma obra-prima da arquitetura. Em estilo predominantemente gótico, sua construção foi iniciada no século 14 e só terminou oficialmente mais de 400 anos depois. Logo de cara, chama a atenção a quantidade de agulhas em sua fachada. São centenas delas, tão marcantes que parecem dominar toda a parte frontal do templo (embora estejam apenas no telhado). Sobre as mais altas, figuras sacras parecem se equilibrar delicadamente. Em destaque, num dourado reluzente, a figura da Madonnina do Perego repousa absoluta e imponente desde 1774, como que a observar e abençoar a cidade, seus moradores e visitantes.
As esculturas também se destacam na fachada, incluindo as gárgulas (que, descobri num dia de chuva, servem como pontos de escoamento da água). Há imagens de toda sorte, com faces angelicais, com o terror estampado no rosto, com o olhar voltado para o céu, com os rostos inclinados para baixo... E não são só figuras celestiais e humanas; há flores e frutos, laços, rosáceas, flores-de-lis, tudo de uma riqueza artística inquestionável.
As portas, gigantescas e com rebuscadas esculturas decorativas em relevo, exibem um verde-escuro poderoso. Elas, por si só, já dão o recado que os templos góticos costumam transmitir: o da pequenez humana diante da grandeza de Deus. Nas esculturas, cenas bíblicas, como a do Cristo morto, tal qual na cruz, e imagens da história local. Todas merecem ser olhadas de perto, com calma, uma a uma. O trabalho chama ainda mais atenção pela dureza do material – o bronze.
Logo acima da porta principal, a inscrição “Mariae Nascenti” (em português, a “natividade de Maria”) aparece dominadora, uma clara indicação da reverência da cidade e do templo à mãe de Jesus segundo a tradição cristã.
No conjunto, tem-se um belo exemplar da união entre arquitetura, arte e religião, simbolizando tudo o que se pode ter de mais sublime entre a Terra e o céu, entre o concreto e o sagrado, entre a ciência e a fé. Um exemplar que atrai e ofusca a visão, capaz de deixar qualquer ser humano boquiaberto, espantado, crente na capacidade humana de executar maravilhas e na inspiração divina que leva a tais obras. Prostrar-se impassível, silencioso e contemplativo diante de tamanha engenhosidade é um dever físico e espiritual quando se chega à Piazza del Duomo.
  







Se por fora o Duomo já é espetacular, por dentro não é menos que exuberante. São cinco naves ricamente decoradas, do piso ao teto. Vale a pena reparar no colorido dos vitrais, retratando cenas bíblicas e personagens da Igreja; no conjunto de mais de 50 grandes colunas em mármore; no reluzir das velas que, somado à escuridão tradicional dos templos góticos, confere ao ambiente algo divino; nos desenhos no chão de mármore, em tons de preto, branco e vermelho-alaranjado; nas pinturas e tapeçarias assinadas por grandes nomes da arte.
Sua dimensão – cerca de 150 metros de comprimento e 90 de largura - também ajuda a reforçar sua grandeza (que, como a essa altura já se viu, vai muito além das simples medidas). E precisa algo mais?
  






Que tal, então, olhar o Duomo de cima (ou melhor, observar a cosmopolita Milão do alto)? Pois subir no telhado da catedral, pisar em seu teto reclinado de mármore claro (o mesmo de sua fachada), ver de perto suas centenas de agulhas e arcos é possível. E não é preciso sequer sofrer com infinitos lances de escada; basta pegar o elevador. O passeio pelo telhado do Duomo é uma atração à parte (a única, aliás, pela qual se paga).
De cima, a Piazza del Duomo mostra sua beleza de forma mais harmônica, já que pode-se vê-la em seu conjunto. Lá do alto, tão próximo daquela bela arquitetura, chama a atenção a precisão do conjunto da obra, as combinações e repetições de arcadas, figuras e agulhas. Cada detalhe que porventura possa ter escapado à vista até então ali se revela sem escrúpulos. Como as faces desgastadas pelo toque das mãos (e pela ação do tempo) de figuras um tanto macabras, humanas demais para aquele lugar sacrossanto. Como as marcas da poluição e da chuva que tomam conta das paredes e de seus rebuscados relevos e esculturas.
Assim, tão de perto, é inevitável não notar a sequência perfeita de agulhas, uma após a outra, tal como um exército perfilado à espera de seu comandante. Ao brilho do sol no entardecer, elas viram sombras de si mesmas. Lá, junto das agulhas, as flores-de-lis parecem um jardim. E as gárgulas nem são tão ameaçadoras como se supõe.
O que mais se nota, porém, é o sentir. Um sentir diferente, como se estivéssemos mais perto do céu, mais perto de Deus. Como se a lembrança de que se está no teto de uma das maiores e mais belas catedrais do mundo desse a essa experiência um caráter celestial, único e renovador. Lá no alto, no “chão” liso do teto revestido em mármore, sentei e olhei ao redor. Vi uma cidade, vi uma obra de arte, vi a vida plenamente. Com a companhia de tantos outros turistas e dela, a Madonnina do Perego, agora tão perto, brilhante e bela, a nos abençoar.