Santos da minha infância

Eu adoro Santos. Tenho com a cidade uma relação quase umbilical e inexplicável. Na verdade, nem tão inexplicável assim. Como toda família de classe média de 30 anos atrás, as férias em Santos eram o sonho de todo início de ano. Chegavam as férias e já sabia: iria para Santos, onde meus pais tinham um apartamento - não me lembro o número, mas sei que era no 7º andar do Edifício Planeta, perto da Avenida Conselheiro Nébias, no Boqueirão. Para mim, era o máximo.
Como toda criança, acordava já ansioso para ir à praia. Lembro-me bem que no Edifício Planeta, a janela social do 10º andar era mais baixa - e só lá eu conseguia enxergar a praia. Então, logo após o café, corria com meu irmão três andares acima para ver se já estava sol. Aquela imagem era mágica: prédios para todos os lados e aquele mar à frente. Não via a hora de descer.
Enquanto aguardava os preparativos familiares, meu irmão, eu, meus primos e amigos que nos acompanhavam gostávamos de brincar pelos corredores, ir ao 10º andar pela escada, subir e descer pelo elevador, usar o elevador da direita (meio capenga que dava medo!), subir e descer a escadaria principal do prédio, em formato de meia-lua, colocar o lixo prédio abaixo (lá ainda havia aquele sistema em que você solta os sacos por um duto e eles despencam até a garagem, fazendo barulho a cada pancada na lataria). Enfim, tudo era diversão.
A única coisa que me irritava era a falta de uma TV decente. Costumávamos levar uma TV preto e branco do meu irmão, pequena e que pegava poucos canais. Para ela funcionar, era preciso usar um transformador pesado, um monstro, que eu só via nas férias em Santos. Adorava o cheiro de apartamento fechado, curtia as idas a um supermercado próximo (cujo nome não me recordo), onde costumávamos almoçar ao menos uma vez (não me lembro bem porque, mas o fato é que o supermercado tinha um restaurante suspenso que eu adorava!).
À tarde, quando meus pais descansavam, nossa diversão era subir até o 10º andar e apertar a campainha de um apartamento cuja porta era diferente, chique. Diziam que era da irmã de um ator, cujo nome também não me recordo. Acho que não era. O fato, porém, de ser a única porta de madeira escura num prédio cheio de portas brancas chamava nossa atenção e representava um desafio. Que tolice, quanta inocência, apertar a campainha e descer correndo pela escada. Era o máximo de nossa molecagem...
Quatro anos mais velho do que eu, meu irmão adorava me pregar sustos. Entrávamos no elevador e logo ele dizia: "vou apertar o botão de parar o elevador". E ria. Eu ficava assustado, com medo. Tonto como qualquer irmão menor, eu sempre pegava o elevador com ele e ele sempre vinha com a mesma história... No fundo, aquilo tudo era uma diversão. Sentíamos uma liberdade diferente.
E era com meu irmão que eu freqüentava uma casa de jogos próxima. Meus pais controlavam nossa ida ao local por dois motivos: 1) consumia dinheiro; 2) não era um local tão apropriado, pensavam. Que nada! Eu adorava passar horas lá sentado naquela máquina que simula um carro. Enquanto meu irmão usava todo o dinheiro (eu jogava uma vez a cada dez jogadas dele...), eu ficava naquela ilusão de que o jogo de carrinho estava funcionando. Virava a direção, pisava no freio e a imagem era sempre a mesma, a de demonstração do jogo. Ainda assim me divertia e torcia para que ninguém chegasse para jogar de verdade (e ninguém chegava porque aquele era um jogo muito infantil...).
Ah, como eram boas as férias em Santos. Desde a chegada ao Edifício Planeta - quando o "seu" Zé, o zelador (que tinha uma bela filha, a Belinha), dizia para meu pai: "e aí, Limeira, como está?" - até o encontro com as pessoas mais velhas no elevador e nas ruas, quando sempre ouvíamos calorosos "bom dia!", tão ausentes na atualidade... Tenho saudade até do tradicional ritual antiqueimadura: após o banho, minha mãe passava algo parecido com álcool no nosso corpo e depois algo parecido com maizena para refrescar. Ficávamos todos por algum tempo sem poder encostar em nada, vermelhos de sol, brancos de maizena.
Sim, é inevitável ter boas recordações de Santos. Uma postagem apenas não seria suficiente para recordar de todas as boas histórias lá vividas. Aos poucos vou contando mais dessas aventuras, que ficaram guardadas na mente e no coração.

PS: Segundo o site oficial de Santos, a Avenida Conselheiro Nébias - uma das principais vias da cidade - é uma homenagem ao santista Joaquim Otávio Nébias, nascido em 1811, que foi juiz municipal (1834), deputado provincial (1835) e conselheiro imperial de dom Pedro 2º.

3 comentários:

cristiano disse...

Crônica gostosa de ler, cheia de imagens e sons. Honra a tradição de Rubem Braga. Também gosto de Santos. Quando morava no Vale do Ribeira, sempre dava um jeito de dar uma circulada por lá. Pra minha simplória felicidade, dias atrás chegou minha carteirinha de sócio-torcedor dos Santos. Agora, é torcer pro Peixe escapar do rebaixamento. Afe!

Rodrigo Piscitelli disse...

Estava relendo esta crônica. Meu Deus, saiu da alma. Do fundo da alma. Somente quatro pessoas a sentimos assim: meus pais, meu irmão e eu.
Ah, lembrei o nome do supermercado: Eldorado. Adorava almoçar no Eldorado. E meu pai confirmou que a comida era mesmo boa.

diniz junior disse...

Bacana, passei inúmeras férias no Planeta. Zé poderia entrar pro guiness, tantos anos comandando o prédios, a filha é Amelinha. Também tinha o costume de subir ao décimo andar, vi uma passagem de ano lá. A seção de vinis do Eldorado era ótima e o frango assado especial.

diniz junior