NY na visão de um repórter

O Twitter tem, sim, algumas utilidades. Uma delas, por exemplo, é estimular as pessoas a dividir seus momentos com as outras. Como jornalista, por exemplo, sigo muitos jornalistas “twiteiros”. Um deles costuma postar fotos da cidade onde trabalha. São flagrantes do dia-a-dia de Nova York sob a visão do repórter Rodrigo Bocardi, um dos repórteres da TV Globo nos Estados Unidos.
Muitas das imagens são belas, outras são interessantes, outras mostram um lado de NY desconhecido por muitos. Eu decidi reuni-las e, sob o ritmo de “Empire State of Mind”, você poderá vê-las a seguir. Garanto que vale a pena.

Um templo da cerveja

Em alguns lugares, mais do que em outros, algumas tradições têm mais valor. É o caso da cerveja na Alemanha. Embora essa bebida seja famosa em muitos outros lugares, é na Alemanha que se tem a sensação de fazer parte da sua história. Mais precisamente em Munique, cidade que sedia a Oktoberfest – a original.
Estive em Munique (ou München, para os mais íntimos) em outubro de 2005. Outubro, oktober... Sim, estive em Munique em plena Oktoberfest. Vi a festa apenas pela TV. Na ocasião, eu e o casal de amigos que me acompanhava (ou melhor, a quem eu acompanhava) não quisemos ir até a “muvuca”.
Obviamente que me arrependo disso.

Ainda assim, não posso dizer que estive longe da verdadeira tradição da Baviera – a cerveja. E estive num lugar tão tradicional quanto a Oktoberfest. E sem saber da grandiosidade dele.
Devo antes de mais nada agradecer à Jussara e ao Iannis, nossos anfitriões na cidade, por nos apresentar ao Kloster Andechs. Estivemos lá numa tarde de sol, porém fria, do sábado dia 8. Foi logo depois de uma visita ao Lago Ammersee (localizado a sudoeste de Munique, entre as cidades de Herrsching e Diessen, é o sexto maior da Alemanha, com superfície de 47 quilômetros quadrados).

Do Iannis, um grego casado com a limeirense Jussara, recebemos a informação de que o Kloster era um antigo mosteiro que fabricava uma cerveja típica. Interessante. Devia ser por volta de 16h e o local estava lotado. Àquela hora e os alemães faziam fila para comprar einsbein (o famoso joelho de porco). Fila! E cerveja, claro! Como bebiam. A opção mais modesta era o copo-jarra de meio litro... Foi a nossa escolha – pedi uma cerveja clara, tradicional. O Iannis, uma escura.
Não quisemos o einsbein. Ficamos mesmo no pretzel (uma espécie de pão-salgadinho com a consistência daqueles palitinhos com sal vendidos no Brasil, em tamanho maior e formato semelhante ao de um nó; são bem tradicionais na Alemanha). Pedi também uma espécie de sorvete de creme com pimenta em pó – que, por sinal, foi um bom acompanhamento para a cerveja.

Como disse, fazia um pouco de frio – algo como 10 ou 12 graus. Descobri que a cerveja não é servida quente na Alemanha, como muitos dizem erroneamente. Ela apenas não é “estupidamente gelada”, como aqui nos trópicos. Aliás, não precisa. Basta estar mais ou menos na temperatura ambiente (deles!).
O Kloster (claustro, em alemão) era até certo ponto modesto, embora tivesse uma igreja ricamente ornamentada. Ele fica em cima de um morro, o que garante aos visitantes uma vista magnífica da região.

Naquela tarde fria do sábado dia 8, confesso que me ative mais à vista que o lugar proporcionava e à observação da cultura alemã do que à cerveja em si. Aliás, a cerveja foi mesmo um detalhe naquela tarde – para não dizer que tinha ido a Munique e não tinha experimentado a sua mais tradicional bebida.
Só agora, quatro anos depois, descobri que estava num verdadeiro templo sagrado - e não só para os cristãos. Num templo sagrado da cerveja! A descoberta se deu ao ler o “Guia Ilustrado Zahar Cerveja”, editado por Michael Jackson (não o cantor, obviamente).
Logo no início da obra, ao fazer um histórico da bebida, o editor cita a tradição das cervejas nas ordens sagradas (página 17). “Dizem que havia mais de 500 mosteiros com cervejarias em toda a Europa”, escreve. “A Alemanha tem muitas antigas abadias cervejeiras, cujos nomes em geral começam com a palavra kloster”. A seguir, o guia menciona dois mosteiros que possuem cervejarias ativas próximos a Munique – ambos beneditinos. Um deles se chama... Andechs.
Foi a deixa que me levou de volta ao álbum de fotos daquela viagem. Cismei que tinha estado num lugar famoso e sagrado e não sabia. Ao encontrar a imagem, vi a legenda que eu mesmo havia escrito anos antes: Kloster Andechs. Eureka!

Eu estive lá. E se soubesse do seu devido valor, não teria sido só uma cerveja...

* A foto da Oktoberfest foi retirada do site oficial do evento. As demais são minhas.

As curvas de NY

O Museu Guggenhein está completando 50 anos. E para marcar a data, uma exposição com trabalhos de Kandinsky foi montada. A escolha não foi aleatória. O artista russo estava lá, ou melhor, representado por suas obras, na abertura do museu.
Para uma cidade como Nova York, que abriga o MoMA, o Guggenhein poderia ficar em segundo plano. Poderia. Não há, porém, como não se inquietar (no bom sentido) diante dele. E decididamente o que contribui para essa sensação tem a assinatura de Frank Lloyd Right. A arquitetura do museu é indiscutivelmente atraente e provocativa. O arquiteto conseguiu, à la Niemeyer, fixar um monte de curvas numa cidade reta – vertical e horizontalmente. E isto não é pouco.

Confesso que na primeira visita a Nova York, cansado de tantos museus, decidimos (eu e mais dois amigos) não entrar no Guggenhein. Chegamos até ele, sentamos em sua mureta e ali ficamos. Tive, então, que colocar em prática minha tese: sempre deixar algo numa cidade para voltar e ver.
Dito e feito. Na segunda ida a Nova York, o Guggenhein virou prioridade. Como da primeira vez, estive lá debaixo de chuva. Foi lá que o vento quebrou meu guarda-chuva de US$ 5... (mas essa é outra história).
Na ocasião (setembro de 2009), a direção do museu preparava os andares (existem andares naquela rampa circular?) para receber as obras de Kandinsky. Elas já estavam ali, dispostas naquelas gôndolas típicas para carregar obras de arte. Uma e outra aguardavam - encostadas nas paredes - sua vez de serem penduradas. Ângulos, iluminação, tudo tinha que ser checado detalhadamente.
Ainda assim, em “reforma”, o Guggenhein mostrou o seu valor. E este valor passa necessariamente por sua arquitetura. Se suas curvas já são interessantes por fora, por dentro elas são estonteantes. É curioso olhar para todos os lados e não ver um “ponto de referência” – um canto, uma quina, uma parede que possa indicar uma direção. O que se vê é um caracol que, não fosse aquele um prédio mundano, pareceria infinito.
Não é à toa que o trabalho de Frank Lloyd Right ganha tanto destaque na história e na loja do museu quanto as obras do acervo em si.

Portanto, ainda que você tenha se cansado de ver obras de arte numa cidade como Nova York, vá até o Guggenhein porque definitivamente ele vale uma visita. Ainda que seja somente para apreciar sua arquitetura. Esta, pelo menos, será um refresco na paisagem quadrada de Nova York.

PS: não fossem as curvas desenhadas por Frank Lloyd Right, talvez eu não tivesse encontrado o Guggenhein depois de mais de duas horas caminhando pelo Central Park em busca de uma saída... Pensando bem, as voltas ao redor do mesmo ponto no Central Park eram um prenúncio das curvas do Guggenhein.

Em tempo: o "Manhattan Conection" (GNT) de 12/12 trouxe uma matéria sobre o assunto:




Hollywood na Broadway - quase lá!

Numa recente visita a Nova York, quase cometi a insanidade de não ir à Broadway (confesso que só considerar a possibilidade de não ir já é por si só uma insanidade). A questão é que tinha montado um roteiro alternativo pela cidade, no qual a Broadway era uma possibilidade conforme o tempo disponível. Isso mesmo, se desse tempo...!
Era sexta-feira, 11 de setembro, por volta de 17h. Eu procurava o último item do roteiro daquele dia. Tratava-se do Discovery Times Square Exposition, um recém-inaugurado espaço que trazia duas interessantíssimas exposições: Titanic e o Legado de Lucy. Fica na Rua 44, a duas quadras da 42 St., região de Times Square e da... Broadway.
Andava pela rua procurando o Discovery quando, de repente, olhei à esquerda e vi o Teatro Majestic, onde “O Fantasma da Ópera” estava em cartaz. Fiquei exultante - sempre quis ver essa peça e ela estava ali, perto de mim. Alguns passos à frente me deparei com o museu. “Bom”, pensei, “são cerca de 17h30. Se tudo der certo, saio a tempo de ver a peça. Se não der, tudo bem”. A prioridade era o museu.
Não que as duas exposições não tenham valido a pena - valeram demais! Deparar-me com Lucy, o ancestral humano mais antigo já conhecido, com 3,18 milhões de anos, foi emocionante (mas isso conto em outra oportunidade).



Vi as duas exposições com toda a tranquilidade, a ponto de ficar muitos minutos olhando para aquele esqueleto de milhões de anos. Quando saí do museu, vi as filas nas portas dos teatros. Esbocei um sorriso - se tivesse sorte, daria tempo de ver a peça. Foi quando olhei para frente e vi um letreiro enorme anunciando “Hamlet”! Havia lido a obra tempos antes e vê-la na Broadway me atiçou. Ainda no letreiro, vi: “With Jude Law”. Nossa, estava à minha frente a oportunidade de ver uma peça na Broadway com um astro de Hollywood. O letreiro ainda informava que o ator ficaria lá em curta temporada, até 8 de dezembro. Sem dúvida, seria um privilégio.
Não tive dúvida: cruzei a rua e fui direto à bilheteria. Não tive tempo nem de estranhar a ausência de filas (na verdade, havia tantas filas na rua que sequer reparei que naquele teatro elas não existiam). Achei que todos já tivessem entrado e fiz a pergunta a partir dessa lógica: “Ainda há ingressos?”. A resposta foi um balde de água fria. “A estreia será amanhã apenas”. Foi aí que me dei conta de tudo. Ainda olhei para um cartaz à minha direita anunciando a estreia grandiosa no sábado.
Não tive como não lamentar, afinal deixaria a cidade na manhã seguinte. Ao mesmo tempo, quase não tive tempo de lamentar. Eram 19h50 e mal teria tempo de tentar um ingresso de “O Fantasma da Ópera”. No Majestic, as filas entrando, a bilheteria ainda aberta. Repeti a pergunta: “Ainda há ingressos?”. A resposta, sorridente, veio seguida de uma oferta: “Sim, temos um lugar ótimo”. Quinta fila, em frente à orquestra. Preço: US$ 120.
Em dez minutos, começava a assistir mais um espetáculo inesquecível... na Broadway!



PS: o “Jornal da Globo” apresentou quinta-feira (26/11/09) uma interessante reportagem sobre a invasão hollywoodiana à Broadway. Estão lá em cartaz Hugh Jackman, Daniel Craig e Sienna Miller, além de Jude Law. Veja a reportagem abaixo.





A foto da peça foi capturada no site oficial. Para acessar, clique aqui.

Vidas além do muro

A Alemanha é fascinante – já escrevi a respeito neste blog. Do ponto de vista econômico, chega a ser uma fênix. Afinal, em pouco mais de 40 anos, ressurgiu duas vezes. Em 1945, com a derrota na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha era terra arrasada - literalmente. As cidades estavam destroçadas e a economia em frangalhos. Era preciso recomeçar.
Foi um duro recomeço, confidenciou um amigo de Odenthal, cidadezinha aconchegante entre as montanhas, perto de Colônia. O pão era a base – muitas vezes solitária – da alimentação. O governo decidira criar uma nova moeda. Surgia o marco alemão. Cada cidadão recebeu 40 marcos, disse meu amigo. “Desde então, nunca ganhei em um ano menos do que ganhara no ano anterior”, falou. Em tempo: ele é engenheiro agrônomo aposentado.
Não é tarefa para qualquer um renascer desta forma e ingressar num trilho de desenvolvimento a ponto de se colocar em poucos anos como a maior economia do continente – e estamos falando da Europa!
Mas a Segunda Guerra deixou também sequelas profundas, que literalmente dividiram o país. A parte oriental ficou sob domínio soviético, formando uma nova nação. Na então capital, um muro escancarou essa fratura. Durante quatro décadas, o Muro de Berlim foi o símbolo de um mundo dividido entre capitalistas e socialistas; foi o símbolo de uma sociedade ferida, marcada pela intolerância e – por que não dizer? – pela ignorância. Foi o símbolo de uma época de medo.
Há exatos 20 anos, porém, o Muro de Berlim caiu. Derrubado pelo povo. A Alemanha voltava a ser uma só nação. Mais uma vez, o país se viu diante da necessidade de recomeçar. Mais uma vez, a economia era ponto chave. Durante os tempos de Guerra Fria, a porção ocidental desenvolveu-se a ponto da Alemanha tornar-se uma das maiores economias do mundo. Não se pode dizer o mesmo da porção oriental. A reunificação representou aos alemães um enorme desafio.
Desde que o muro caiu, o governo decidiu subsidiar – por meio de pesados investimentos – o desenvolvimento da parte oriental do país. Era preciso, entre outras tarefas, promover a equiparação salarial e a recuperação da infraestrutura. Afinal, os 40 anos de divisão criaram um enorme abismo. Basta dizer que os carrões alemães, tão comuns de um lado da nação, eram raros do outro. Ainda hoje, vários estados da porção ocidental bancam o desenvolvimento da parte oriental.
Tão importante quanto recuperar a economia, porém, era mudar a cultura, já que toda uma geração havia sido criada sob preceitos socialistas. Numa visita à porção oriental do país em 2005, vi situações e ouvi relatos que mostram como esse momento crucial da história do século 20 se refletiu na vida dos cidadãos. Em Rudolstadt, o acaso me colocou de frente com uma jovem senhora. Chamada Helen (à direita na foto), ela disse ser escritora. Estava no alto de um penhasco, no jardim de um antigo castelo. Falava inglês e ofereceu ajuda; em troca, ganhou uma carona.

Durante o percurso do penhasco até o hotel que indicara, Helen falou com um ar saudosista dos tempos de Alemanha Oriental. “Antes havia empregos, hoje a indústria está quebrada”, disse. A cidade fora um importante centro têxtil, que não resistiu às recém-surgidas práticas capitalistas. Todo o setor faliu – e era possível ver as velhas indústrias abandonadas.
Para Helen, a vida era melhor antes. Ela não só falava de empregos, mas do modo de vida, do modo de pensar daquela sociedade que se viu “invadida” por um novo modelo, individualista e competitivo.
Confesso que as manifestações da escritora me surpreenderam. Imaginava que me depararia com um confronto simples entre o “atrasado” mundo socialista e o “desenvolvido” mundo capitalista. Aprendi, porém, que a história não é tão simples assim. Aprendi que quem faz a história somos nós.
Se Helen tinha razão, não sei. Ela tinha as razões dela indiscutivelmente. Com sua meia idade, era o exemplo acabado da geração que nascera e crescera naquele mundo dividido. Imaginar a Alemanha como um só país era para ela e para muitos uma novidade. Era lidar com o desconhecido.O fato é que o Muro de Berlim tornara-se inadequado para aquele novo mundo que nascia ao final do século 20. Infelizmente, o século 21 chegou e muitos outros muros seguem erguidos mundo afora. Muros reais – como os que dividem EUA e México, judeus e palestinos - e muros invisíveis, como o da intolerância. Sim, há muitos muros a derrubar. Hoje, porém, é dia de brindar. No dia 9 de novembro de 1989, um muro caiu. Em Berlim.

Aniversariantes especiais

Dois patrimônios mundiais completaram aniversários importantes este ano. A Torre Eiffel, em Paris, comemorou 120 anos. Em Londres, o Big Ben celebrou 150 anos de história. Este carrega desde sempre o valor do tradicionalismo inglês. Já a Torre Eiffel tem uma história um tanto curiosa. Construída para o centenário da Revolução Francesa, foi alvo de críticas de moradores, que a consideraram um “monstrengo” que desfigurava a bela paisagem parisiense.
O tempo se encarregou de dar à torre – que leva o nome do seu projetista – o valor que ela merece. O tempo também fez dela e do colega britânico símbolos maiores não só de suas cidades-sede, mas de seus países. Assim, a Torre Eiffel está para a França como o Big Ben está para a Inglaterra.
Apesar disso, sempre vi com certa reticência os dois monumentos. Não que duvidasse de seus valores como patrimônio ou discutisse suas belezas; apenas os considerava “turísticos” demais, se é que existe algum mal em ser turístico. À distância, ambos me soavam como “Disneylândia”, substantivo que assume ares de adjetivo para qualificar algo como “fake” (não um falso no sentido literal e simo como algo feito só para agradar o visitante).
Tremendo engano. Subestimei o relógio e a torre – ditos assim, informalmente, para que se estabeleça uma contradição clara entre a palavra escrita e o significado embutido nela (ou, para quem gosta de semiótica ou linguística, entre significante e significado). Ambos são muito mais belos do que se imagina. Do eu que imaginava. Claro, algo não poderia à toa se tornar símbolo de países tão ricos culturalmente como França e Inglaterra.

A sensação de ver a Torre Eiffel pela primeira vez, ao longe, foi suficiente para mover minhas entranhas e, de cara, derrubar tal como um terremoto todas as minhas suposições. Quanto mais perto dela eu chegava, mais me encantava. Ela é como uma bela dona, que monopoliza as atenções no centro de uma festa, que despeja seu charme, sua beleza, sua magnitude e seu poder sem que alguém possa ousar contestá-la. Não há espaço e tempo para isso. Ambos, espaço e tempo, param diante dela.
A Torre Eiffel é monumental vista de longe, de perto, de cima, de baixo. Claro que a paisagem parisiense que a cerca contribui para acentuar tudo o que ela representa, mas isto de forma alguma reduz o seu valor. Pelo contrário, o cenário acrescenta. Parece miragem, mas não é – eis o segredo da torre.

Com uma funcionalidade maior do que a da torre, porém sem a possibilidade da vista às alturas, o Big Ben chama atenção por sua nobreza. Tal como em Paris, o cenário ao redor – com o Parlamento, a Abadia de Westminster e o Rio Tâmisa - acentua o brilho deste monumento, que como uma metonímia leva a parte pelo todo (o nome Big Ben na verdade é do sino e não da estrutura em si).
Belo e imponente, o Big Ben é a referência temporal e espacial dos londrinos. Se em Paris a Torre Eiffel tem a capacidade de parar o tempo e o espaço, em Londres o famoso relógio dita o tempo e o espaço.
A Torre Eiffel e Big Ben foram feitos para serem admirados, contemplados. E a contemplação exige mais do que a disposição em ver; é preciso também estar disposto a sentir.


* A Torre Eiffel recebe cerca de seis milhões de turistas por ano. Atualmente, em média, ela é palco de quatro suicídios por ano - o número já foi maior, mas medidas de segurança foram tomadas. Para saber mais sobre a torre, clique aqui.


* Três pessoas cuidam da exatidão do Big Ben. Eles dão corda no relógio três dias por semana - segunda, quarta e sexta-feira.


PS: para ver mais fotos, clique aqui.

Girassóis pelo mundo

Viajar nos permite realizar sonhos, ampliar sonhos, ver com os próprios olhos aquilo que costumamos ver em livros e na TV. Neste sentido, viajar é sempre uma dupla jornada, física e espiritual (talvez não seja à toa que “viajar” ganhou um sentido denotativo de ir além da realidade). É difícil ficar indiferente à sensação indescritível que assola quando se tem a noção de estar num local histórico ou diante de uma obra de arte famosa.
Momentos assim trazem à tona uma série de sentimentos, pensamentos e sensações. Aciona-se a imaginação – “Como tudo ocorreu naquele lugar? Em que circunstâncias o quadro foi pintado?”. Recorre-se aos referenciais geográficos, sociais, históricos, temporais – “Isto aconteceu há 500 anos”, “Isto foi pintado há 800 anos”. É definitivamente um sentimento diferente.
É certo que nem todas as pessoas têm essa explosão de sensações; é preciso estar disposto a isso. Quem as sente, porém, sabe o valor exato de cada um desses momentos.
Quando me deparei com o quadro “Guernica” (Museu Reina Sofia, Madri), pintado por Pablo Picasso como crítica à Guerra Civil Espanhola, senti um assombro pela magnitude do trabalho. Quando estive frente a frente com a “Monalisa” (Museu do Louvre, Paris), o mais famoso (embora talvez não o mais belo) quadro de Leonardo da Vinci, fui surpreendido. Embora pequeno, o quadro é maior e mais bonito do que eu imaginava. Infeliz de quem um dia o descreveu como “um quadrinho”.
Quando vi “Os Girassóis”, de Van Gogh, na National Gallery, em Londres, parecia que estava num ambiente iluminado. É impossível descrever a cor que o quadro emana (sim, porque a cor salta aos olhos). Mal eu sabia (confesso) que havia outros “Girassóis” mundo afora. Só fui descobrir isso quando, após rir diante do uso de uma imagem do quadro no tíquete do Museu Van Gogh, em Amsterdã, achando que se tratava de propaganda enganosa, deparei-me com a obra lá dentro. Como? Dois “Girassóis”? Ou eu teria visto uma réplica em Londres? Ou a réplica estaria ali?
Somente aí descobri que Van Gogh pintou entre 1888 e 89 vários quadros semelhantes, com girassóis, para decorar o quarto do amigo Paul Gauguin, a quem convidara para estar com ele em sua casa-ateliê em Arles, no sul da França. A história a partir daí é um tanto longa (brigaram, Gauguin foi embora, etc...). O fato é que Van Gogh deixou ao mundo sete “Girassóis” – três deles com 15 flores, outros dois com 12, um com cinco e outro com três.
Hoje, cinco deles estão em museus e um numa coleção particular nos EUA (um outro foi destruído pelo fogo durante a Segunda Guerra Mundial).




Já tive a oportunidade de ver três “Girassóis” (os que estão em Londres, Amsterdã e no Museu de Arte da Filadélfia). Todos despertaram a mesma sensação de surpresa ante a beleza da obra. Uma beleza única e que paradoxalmente varia conforme a cor do quadro. Agora, resta-me correr atrás dos outros dois - eles estão em Tóquio (Japão) e Munique (Alemanha). E pensar que estive tão perto de ambos...


Yes, I did! - Uma experiência no Turner Field

Para mim, viajar é mais que conhecer novos lugares. É experimentar sensações. Por isso, sempre que viajo procuro testar experiências que possam me aproximar do lugar onde estou, seja frequentando restaurantes, bares e cafés que os moradores locais frequentam, caminhando por onde eles caminham, fazendo compras em supermercados, farmácias e bancas, indo a jogos, etc.
Jogos. Eis a união de duas paixões, turismo e esporte. Dependendo do destino, sempre checo o calendário esportivo para ver se algum evento irá ocorrer. Foi assim que fui parar numa tarde fria de domingo no Coliseum Alfonso Peres, em Getafe, para assistir a Getafe x Barcelona pela Liga Espanhola. Assistir in loco a uma partida de uma das principais ligas de futebol do mundo foi uma emoção indescritível, que valeu cada um dos 50 euros pagos pelo ingresso. Ver de perto o Barcelona (embora eu tenha torcido pelo Getafe) foi igualmente emocionante. O jogo terminou 1 a 1.
Recentemente, deparei-me com a possibilidade de assistir a uma partida de beisebol pela liga profissional norte-americana. Fiquei entusiasmado. O jogo seria em 15 de setembro, terça-feira, às 19h10. Atlanta Braves x New York Mets. O site do Braves oferecia toda a facilidade (como é praxe nos grandes eventos) para a compra do ingresso. Bastava escolher a área do estádio em que pretendia ficar (ou seja, quanto estava disposto a pagar), solicitar uma cadeira e informar o cartão de crédito. Optei por um lugar de frente para o telão. Paguei pouco mais de 30 dólares e recebi por e-mail um código.
No dia, confesso que estava em dúvida sobre como ir ao estádio e voltar. Andando por Atlanta, descobri que o sistema de transporte público – MARTA – disponibilizava um ônibus Shuttle para os jogos do Braves. Fui eu me informar e descobri que estava a poucos passos do ponto de partida. Melhor: a passagem custaria apenas 2,25 dólares.
Cheguei ao Turner Field por volta de 17h e já havia vários torcedores lá. Na bilheteria, um guichê específico do “Will Call” (para compras pela Internet). Uma atenciosa atendente procurou o envelope com meu nome (isto mesmo, com meu nome) e lá estava meu ingresso. Na entrada, cada torcedor ganhava uma revista do jogo (isto mesmo, do jogo). Um monitor em cada portão (isto mesmo, um em cada portão) levava os torcedores a seus lugares.
A partir daí foi só curtir. Muito. Um telão fenomenal; um sistema de som empolgante, que funciona durante todo o jogo; cerveja, refrigerante e pizza por todo canto; promoções durante a partida, com prêmios para os torcedores... Em campo, um verdadeiro banho do time da casa – 6 a 0 (confesso que achei o jogo um pouco parado na comparação com o futebol, mas ainda assim curti). Adam LaRoche foi o nome da noite com dois “home runs” (quando o jogador dá uma rebatida perfeita e roda todas as bases).

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O jogo terminou por volta das 21h30. Na saída do estádio, ainda sem saber que rumo tomar, vi uma placa informando sobre o ponto de táxi. Pronto, problema resolvido.
E para quem pensa que a experiência acabara, qual não foi minha surpresa ao abrir minha caixa de e-mail e me deparar com uma mensagem: “Game recap and thank you from the Braves” (isto mesmo, um feedback, um pós-venda). “Hi Rodrigo, we hope you enjoyed your recent visit to Turner Field”. O e-mail seguia com um resumo do jogo (placar, jogadas, etc), vídeos do jogo (o que ilustra esta postagem foi feito por mim), um pedido de comentário e a oferta de um desconto de 50% na compra do próximo tíquete.
Agora, diga aí: eles sabem ou não promover um jogo?

Ah, antes que eu me esqueça, preciso responder ao comentário dos Braves citado anteriormente: “Yes, I did!”

NY400

Nova York, aquela que é considerada a capital do mundo, está comemorando 400 anos! E para celebrar a data, uma série de atividades foi organizada durante todo o ano, culminando com a NY400 Week entre 8 e 13 de setembro, a semana da celebração.
A comemoração tem um toque holandês, já que foram os holandeses que chegaram primeiro à cidade sob comando de Henry Hudson no navio Meia Lua (cuja réplica também faz parte da festa e vai ancorar em NY dia 9). Para as festividades, até uma vila holandesa foi montada perto de Battery Park.
Para quem tiver interesse em saber mais, clique aqui.

Um passeio virtual pela Champs Élysées

Uma das vias mais famosas do mundo, junto da 5ª Avenida, em Nova York (EUA), a Champs Élysées, em Paris (França), acaba de ganhar um portal na Internet só seu. Lá estão detalhes de tudo o que há naquela que é considerada uma das avenidas mais charmosas e caras da Terra, desde os restaurantes até as lojas de grife. O objetivo dos criadores é estimular o turismo na capital francesa (como se isso fosse necessário) – o número de visitantes caiu este ano em razão da crise mundial.
Se talvez a 5ª Avenida seja imbatível no que diz respeito a compras, ninguém vence o charme de uma via que tem em sua paisagem o Arco do Triunfo. Ainda assim, a Champs Élysées é uma tentação para o bolso (seja pela vontade, no caso dos menos abastados, ou pelos gastos mesmo, no caso dos mais abastados). Lá estão algumas das mais famosas grifes do mundo, como Cartier e Louis Vitton. Ainda que você não esteja na categoria dos mais abastados, é possível fazer compras. As lojas da Nike e da Adidas, por exemplo, oferecem bons produtos a preços “normais”. Também estão na via as lojas da Disney e do Paris Saint-Germain, o time local.
Incrivelmente, a Champs Élysées tem um lado “popular”. Basta entrar nas galerias, algumas das quais chegam a ter lojas de bugigangas.
O charme da via, porém, faz dela mais do que um destino para compras; a Champs Élysées é definitivamente uma experiência. Isso significa dizer que o visitante deve subi-la e descê-la, de um lado e de outro, observando as vitrinas calmamente; cruzar a rua em meio ao movimento de Citröens e Mercedes; entrar nas lojas, checar os artigos; experimentar os cheiros e sabores; sentar em algum banco e ficar ali, parado, só observando o movimento (e que movimento!).
É indispensável jantar em algum dos muitos restaurantes existentes no local, com suas mesas na calçada repletas de turistas de todo lugar do mundo. Os preços não chegam a ser abusivos em relação ao custo de vida parisiense (que já é mais caro do que em outras capitais da Europa). Também experimente um sorvete da Häagen-Dazs (abuse das possibilidades de requinte que a loja oferece, afinal você está em Paris, na Champs Élysées).
Caminhar, comprar e comer só ajudam a sentir essa via, sem dúvida um lugar único, que carrega algo transcendental, uma sensação pela qual não se paga um só centavo – ainda que se esteja em um dos metros quadrados mais caros do Planeta Terra.









PS: o site da avenida é http://www.champselysees.org/.


Fotos: Divulgação e Álbum Pessoal

L.A., um sonho californiano

Talvez em nenhum outro lugar do mundo um turista experimente tanto a sensação de estar literalmente num cenário de filme quanto em Los Angeles. Não que a cidade esteja tão na dianteira das locações cinematográficas históricas (Nova York não fica para trás, por exemplo), mas não resta dúvida de que o clima na segunda maior cidade norte-americana, a maior da costa do Pacífico, ajuda a reforçar a tal sensação. E não é à toa. Los Angeles é a capital mundial do cinema, é a sede dos grandes estúdios dos EUA.Uma série de fatores, históricos e geográficos, fez de L.A. uma cidade marcada pela diversidade. Sua própria topografia indica isso, já que é na verdade um conjunto de bairros ou cidades, formando um condado. Lá, latinos, chineses, japoneses, italianos e, claro, norte-americanos se misturam como em poucos lugares (talvez Nova York e São Paulo...).É difícil imaginar alguém que nunca tenha ouvido falar em Hollywood, Beverly Hills (e suas patricinhas), Melrose ou Santa Monica (assim, sem acento). As séries americanas exploraram - e exploram - à exaustão esses cenários.Por ser a meca do cinema (ou seja, a casa de astros e estrelas), L.A. se tornou uma cidade relativamente cara. Por ter uma topografia tão dispersa, a locomoção tende a ser mais difícil (o trânsito é intenso em suas ruas, avenidas e highways). Estes obstáculos, porém, estão longe de ser impeditivos aos turistas. Ao contrário, os atraem. Los Angeles, o luxo e o lixo convivem em certa harmonia.

No Brasil, L.A. – ou mais precisamente a Califórnia – foi muito cantada como a terra do lazer e do prazer. “A place to have fun”. “Garota eu vou pra Califórnia, viver a vida sobre as ondas...”. O sonho californiano, porém, exige esforços (são muitos os brasileiros vivendo na região, trabalhando duro para ganhar os dólares cada vez mais desvalorizados). A cidade está em crise, o Estado está falido (o rombo é tão grande que o governador Arnold Schwarzenegger - sim, o “exterminador do futuro”, aquele mesmo do “Hasta la vista, baby!” - colocou à venda várias prédios públicos, como um estádio e uma cadeia, para tentar minimizar o problema).Problemas financeiros à parte, o certo é que L.A. merece uma visita. Por mais que muitos de seus pontos turísticos mais se pareçam com cenários (a tal Calçada da Fama é coisa para inglês ver), a cidade vai muito além do cinema - embora, não tem jeito, respire cinema. Por isso, uma vez em Los Angeles, vá a todos os lugares que todos os turistas devem ir (a Calçada da Fama, o Teatro Chinês, o Kodak Theatre, a Rodeo Drive, a Hollywood Boulevard, etc). E não se esqueça de que muito além desses lugares, há uma cidade viva (não cenográfica) esperando por você.

PS: para mais informações sobre L.A., clique aqui.

Histórias além dos jardins

Sempre que visito um lugar, gosto de saber algo previamente a respeito dele. Isso me reforça o sentimento de “pertencimento” ao qual me referi no “Bate-Bola”, meu blog de generalidades (leia aqui). Nem sempre, porém, é possível saber tudo sobre os lugares onde estaremos - aliás, a surpresa é um belo ingrediente nas viagens. Foi assim na Abadia de Westminster, em Londres, e no Washington Square Park, em Nova York.
Confesso que só há 15 dias descobri que aquele belo lugar em Greenwich Village, onde estive em setembro de 2007, chamava-se Washington Square Park. Assim que o vi numa reportagem da TV, logo o identifiquei pelo arco, que lembra o do Triunfo, de Paris. E sequer imaginava que aquele lugar marcado pelo verde e pela descontração juvenil (com um certo ar de Woodstock) tinha tanta história para contar.

O tal parque é apenas um dos 1,7 mil parques públicos de NY. Um dos mais conhecidos, é verdade, mas ainda assim um entre centenas. São quase 40 mil metros quadrados de muito verde e muita atividade - em grande medida porque parte da área está ligada à Universidade de Nova York (isso se deu, claro, após muita discussão com a vizinhança, que não admitia perder aquele belo espaço).
O Washington Square Park tem suas origens nos anos 1600. A área pertencia a uma vila próxima, conhecida como Sapokanikan, até que holandeses atacaram o lugar e passaram a usá-lo como terras agrícolas. Em meados do século 17, visando proteger a área de possíveis ataques de nativos americanos, os holandeses deram as terras para os escravos - agora libertos - cuidarem (eles tinham que pagar uma espécie de taxa sobre os lucros à Companhia Holandesa das Índias Orientais). Hoje, essa área - que já foi chamada de “A Terra dos Negros” - é o Washington Square Park.
O local serviu como terras agrícolas até abril de 1797, quando foi incorporado pelo Common Council de NY, passando a funcionar como cemitério público - geralmente para enterrar pessoas desconhecidas ou indigentes. Quando a cidade de NY (que ainda não incluía a área do Washington Square Park) foi atingida por uma epidemia de febre amarela no início dos anos 1800, muitos dos que morreram em razão da doença foram sepultados no local, deixando a zona urbana segura. O cemitério foi fechado em 1825. Os restos mortais de cerca de 20 mil pessoas ainda repousam naquela área.
O grande arco existente no local foi erguido em 1889 provisoriamente e em 1892 de modo permanente como homenagem ao centenário da presidência de George Washington. Durante as escavações para fazer a base leste do arco, restos humanos, um caixão e uma lápide datada de 1803 foram descobertos três metros abaixo do nível do solo. A primeira fonte do parque foi concluída em 1852, sendo substituída em 1872. O monumento a Giuseppe Garibaldi é de 1888.
Já deu para perceber que o chão onde se pisa numa viagem guarda muito mais histórias do que um turista acidental pode imaginar...

PS: a primeira imagem é a reprodução do quadro "Washington Arch", de Childe Hassam (1893).

Relatos da Noruega

Um dos objetivos do Piscitas é buscar experiências alheias que sirvam como estímulo para viagens. Pensando nisso, este blog já trouxe relatos dos jornalistas Paulo Silas (Canadá) e Kelly Camargo (museus) e do publicitário Cristiano Persona (museus). Agora, sugiro o relato da jornalista, linguista - e amiga – Érika de Moraes. Ela esteve na Noruega por meio de um programa do Rotary e colocou em seu blog uma série de relatos. Eu recomendo!
Os relatos misturam informações com impressões da turista Érika, sem contar as belas fotos.
Ela traz o relato sobre as festividades do Dia Nacional em Bergen (“É difícil descrever, fiquei admirada com o orgulho que o povo tem do país...”), curiosidades sobre a Noruega (“vale a pena experimentar o sorvete de massa de Bergen! Curti o de plomme [uma fruta de sabor fresco que combinaria com o Brasil] e o de valnott [nozes]..."), a aventura de subir no Preikestolen (“são 704m de altura, numa subida de cerca de 2h30 [mais o tempo de descida], com trechos bastante íngremes e rochosos...”), além de uma postagem bem humorada sobre a cabeça do bacalhau (sim, ela existe e Érika mostra!).
Para deixar um gostinho, seguem duas fotos retiradas do blog da Érika.


Marcas da história em Weimar

Embora as grandes capitais do mundo sejam fascinantes, é por meio das pequenas cidades que se conhece um país. Lembrei disto ao ler recentemente a resenha de um livro (“Goethes Reise nach Brasilien - Gedankenreise eines Genies” ou “A Viagem de Goethe ao Brasil - Viagem Intelectual de um Gênio”) que revela a paixão de Goethe, famoso poeta alemão, pelo Brasil e suas maravilhas. O material saiu na “Folha de S. Paulo”.
Johann Wolfgang Goethe (1749-1832) viveu em Weimar (onde morreu em 22 de março), cidade da Turíngia (ver no mapa), na porção centro-oriental da Alemanha. Trabalhava como ministro e poeta da corte, informa a resenha.
Weimar é uma cidade histórica (património da humanidade pela Unesco), marcada por um passado recente e um outro mais distante. Recente devido às marcas do nazismo e distante em razão do período setecentista – época em que foi, segundo a resenha, “ponto de encontro de escritores e intelectuais europeus” (Nietzsche também morou lá). A cidade abriga a Universidade da Bauhaus e está a seis quilômetros do campo de concentração de Buchenwald (por onde passaram 250 mil prisioneiros, 50 mil dos quais morreram).
Junto com Gotha e Rudostadt, Weimar forma uma espécie de triângulo de antigos arquivos alemães que eu visitei em outubro de 2006.

Cada uma a seu estilo, essas cidades revelam muito da Alemanha de ontem e de hoje. Em Rudolstadt, prevalecem as marcas de um passado que nunca se vai. Lá, o tempo parece ter parado. Contribuem muito para isso seu clima um tanto bucólico, o Schloss Heidecksburg (castelo que fica no topo de um morro e foi erguido em 1737) e as lembranças de seus moradores, lembranças de um tempo que ficou perdido.


Em Gotha, embora lá esteja um conjunto arquitetônico belíssimo da antiga nobreza, o ar é mais moderno. Não se pode deixar de enaltecer, porém, a singularidade de seu palácio (o Schloss Friedenstein, em estilo barroco, cuja construção começou – sobre as ruínas do castelo Grimmenstein - em 1643 por ordem do duque Ernst I, indo até 1656).

É em Weimar, porém, que a história se mostra mais viva. Nesta cidade, o nazismo deixou profundas marcas – que eu descobri por acaso. Tudo começou durante a visita ao arquivo local, num prédio que mistura uma fachada um tanto antiga com um interior mais do que moderno. Era exatamente onde funcionava a sede regional da Gestapo, a polícia secreta nazista. Escritórios que “se tornaram testemunhas silenciosas de interrogatórios terríveis e abusos brutais”, cita um folder disponibilizado aos visitantes.

No local, antes da entrada do arquivo propriamente dito, chama a atenção um amontoado de pedras no chão, como se tivesse ocorrido ali uma recente demolição. O que aparenta ser entulho, porém, é um monumento em homenagem aos que ali sofreram as mazelas nazistas. A história dessas pessoas veio à tona em julho de 1945, quando 142 corpos de homens e sete de mulheres foram exumados e transportados a um cemitério municipal. Todos foram mortos na floresta de Webicht, perto da ferrovia que liga Weimar a Jena, com tiros nas costas.
O extermínio em massa se deu provavelmente em 4 de abril, após a ordem de retirada dada pelos nazistas (que já tinham perdido a guerra). Segundo o folder, “há evidencias de que a Gestapo de Weimar cometeu uma série de assassinatos na sua marcha de retirada antes da chegada dos soldados norte-americanos”. Dos corpos encontrados, só 45 puderam ser identificados pelos seus números de prisioneiros; 101 permanecem desconhecidos.
São justamente os nomes dessas pessoas que estão encravados no chão junto das pedras. Tal história foi contada, não sem um certo ar de constrangimento, pelo diretor do arquivo local. Mais detalhes foram obtidos no folder – um claro sinal de que, apesar do constrangimento, os alemães (ou a maioria deles) não querem esconder essa parte triste do passado.
Sim, viajar é viver emoções e trombar com a história em uma esquina qualquer.

PS: no verão de 1938, o estado nazista organizou um boicote a todas as lojas de judeus na Turíngia. Era uma medida para a “arianização” da região. A deportação de famílias judias para os campos de extermínio na Europa oriental começou na Turingia em maio de 1942 e foi dirigida e supervisionada pelo escritório da Gestapo em Weimar. O primeiro grupo saiu dia 10 com 342 judeus – incluindo homens, mulheres e crianças. Outras levas saíram posteriormente, inclusive para Auschwitz (em 1944), o mais famoso campo de extermínio, na Polônia.

"Velhas coisas" surpreendentes

Museus definitivamente não são lugares de coisas velhas. Para quem já teve a oportunidade de ir ao Museu da Língua Portuguesa ou ao Museu do Futebol, ambos em São Paulo (e só para ficar com dois exemplos próximos), sabe do que eu estou falando.
No entanto, não se pode negar que coisa velha também cabe em museu. Coisa assim mesmo, num sentido um tanto genérico, que pode tanto significar uma peça de porcelana como a coroa de um rei. Eu, particularmente, sempre gostei de museus, tenham eles coisas velhas ou não. Sempre me atrai a ideia, a concepção, o que eles comunicam, revelam.
Obviamente, cada museu tem um propósito e um estilo de acordo com seu foco. Assim, museus de arte contemporânea costumam ser mais divertidos do que outros de arte renascentista. Museus interativos são mais modernosos do que aqueles que se propõem a ser um depositário de peças históricas.
Tomando como exemplo o museu em seu sentido mais estrito, tradicional (o de lugar de coisas velhas), temos no mundo verdadeiros tesouros. Assim podem ser entendidos o Metropolitan, de Nova York (ou simplesmente Met para os íntimos), o British Museum, em Londres, e o Louvre, em Paris. Eles guardam peças raríssimas, muitas das quais um ser humano jamais imaginou ver ali, frente a frente. Nestas horas, seja um apaixonado por museus ou um turista mais ligado a outros gostos, é impossível ficar indiferente.
De meu pai, já com seus mais de 60 anos, ouvi uma interessante definição para isto: "Vi coisas que jamais sonhei que fosse ver". Ele se referia a armaduras, jóias, etc. Estamos falando de objetos de 500, 700 anos. Nos museus, porém, o tempo vai além. Tem-se objetos com cinco mil anos! Ainda que este objeto seja um... ser humano. Isto mesmo, um ser humano coisificado, exposto a milhares, milhões de olhares espantados.

E não é só. Muitas vezes, o museu desperta uma sensação mágica quando nos coloca de frente com algo que sabíamos estar lá. Foi assim que reagi quando vi uma múmia pela primeira vez - e depois dela foram tantas... Há, porém, uma surpresa ainda mais surpreendente (assim mesmo, redundante) quando o museu nos revela algo que não esperávamos. Foi assim quando me deparei com a famosa Pedra de Roseta no British, logo na entrada. Esta pedra - datada do ano 196 a.C. e que os egípcios querem de volta (leia aqui) -, que eu estudei na escola e só vi em livros, estava ali, nua, à minha frente.

Não há como não se ter uma sensação de êxtase. Não há como não colocar a mente para viajar no tempo. Não há como não se deslumbrar. Infelizmente, tudo tem que ser tão rápido (ao menos para um turista de primeira viagem, como eu). Numa outra visita, prometo que tudo será diferente.

PS: ainda que se trate de um museu mais tradicional, algumas iniciativas ajudam a tornar a visita mais interativa. No British, por exemplo, algumas peças do acervo ficam à disposição do público para que possam ser tocadas, analisadas de perto, sob orientação de monitores voluntários.

Em tempo: eis uma preciosa dica para quem pretende visitar os grandes museus do mundo: chegue cedo, de preferência pouco antes do local abrir. E quando entrar, pegue um mapa e vá direto às peças mais importantes. Você verá que dentro de uma hora haverá milhares além de você querendo olhar o que você já viu.

Um jogo inesquecível

Viajar é muito mais do que conhecer lugares e pessoas. É vivenciar experiências. Sempre que viajo, esta parte tem destaque nos meus roteiros. É isso que revela a vida de uma determinada sociedade, ou ao menos uma pequena parte dessa vida.
Uma das experiências mais incríveis que tive nas últimas viagens que fiz foi assistir a um jogo de futebol num bar. Isto mesmo, simples assim. Estava em Madrid mais ou menos nesta mesma época do ano, quando ocorrem as quartas-de-final da Copa dos Campeões, o mais importante torneio de clubes de futebol da Europa. Trata-se de um evento que movimenta milhões de euros e de corações apaixonados – se você por acaso acha que os brasileiros são fanáticos, ainda não conheceu um típico torcedor europeu.
Esta experiência me veio à mente ontem à noite quando vi pela TV as chamadas para os jogos que seriam transmitidos hoje – Manchester United x Porto e Villareal x Arsenal. Não que eu a tivesse esquecido, foi apenas um “revival” mais intenso.
Era noite do dia 8 de abril em Madrid e um amigo que morou lá um ano e meio lembrou que ocorreriam dois jogos importantes. Como um “local”, ele conhecia os becos e segredos da cidade. Foi assim que fomos parar num bar aparentemente comum, de fachada restrita. Dentro, porém, era grande, aconchegante e um tanto escuro. Um típico bar europeu. Chegamos cedo a ponto de pegar a “hora feliz” (é assim que os espanhóis se referem ao “happy hour”) – ou seja, meia dúzia de cerveja a 12 euros.
Aos poucos, o bar foi enchendo de gente, de todos os cantos, muitos ingleses. Os jogos envolveriam três times da Inglaterra – Chelsea, Liverpool e Arsenal. Na hora da partida, o que era uma mera diversão transformou-se em êxtase. Nunca havia vivenciado nada parecido. Dois telões transmitiam o jogo preferido da noite, entre Liverpool e Arsenal, e uma TV mostrava Chelsea x Fenerbahce. O som da música deu lugar ao da transmissão, em ritmo radiofônico (portanto, emocionante) e em altos decibéis. Ao redor, torcedores fanáticos de um e outro time manifestavam-se com veemência.
Ante todo esse clima, obviamente que o jogo só podia ser fantástico. O Arsenal fez 1 a 0 com Diaby logo aos 12 minutos do primeiro tempo. Hyypiä empatou para o Liverpool aos 30. No segundo tempo, o espanhol Fernando Torres (El Niño, como os espanhóis o chamam) colocou o Liverpool na frente com um gol aos 24 minutos. Quando tudo caminhava para a vitória, eis que Adebayor empatou para o Arsenal aos 38. Foi quando, já no clima do jogo, gritei e pulei como louco – e sequer sabia porque estava torcendo pelo Arsenal (apenas escolhi um dos dois concorrentes para participar de alguma forma daquele momento). Eu parecia um típico torcedor inglês tamanha a emoção.
Dois minutos depois, porém, o Liverpool desempatou com Gerrard cobrando pênalti. Babel ainda teve tempo de fazer mais um aos 47 minutos. Foi um 4 x 2 poucas vezes visto. Foi emocionante. Foi “a noite da viagem”.
E como se não bastassem a cerveja e o jogo emocionante, ainda tivemos a oportunidade de conversar com americanos, australianos, ingleses... tudo num mesmo lugar.
Por isso, quando viajar, mais do que passear simplesmente, experimente! São estas as histórias que você poderá contar e que ficarão guardadas na memória.

Em tempo: devemos a “noite da viagem” ao amigo Danilo. Sem ele, jamais chegaríamos àquele bar em Madrid. Jamais teríamos vivido tal emoção.

O sonho de Versailles

Sempre gostei de história. Sempre gostei de viajar. Talvez por isso sempre tenha tido uma atração especial pelo Palácio de Versailles, na França. Costumava dizer que, quando fosse a Paris, mais do que a própria cidade e suas belíssimas atrações, era o palácio o meu "sonho de consumo". Versailles me encantava não só pela magnificência de sua arquitetura, mas também - e principalmente - de sua história. Ali, o regime absolutista teve talvez seu apogeu (ao menos no que diz respeito às suas excentricidades). Ali, este mesmo regime ruiu (ao menos no aspecto espetaculoso).
Depois de anos nutrindo este sonho, chegou o dia em que finalmente me encontraria com Versailles. Era abril de 2008. Mais precisamente 17 de abril. Pegamos - um amigo, companheiro de aventuras pelo mundo, e eu - o metrô e depois o trem (o palácio fica bem próximo de Paris). Descemos, caminhamos alguns poucos metros e lá estava ele, imponente. E um tanto estranho. Não parecia exatamente um palácio. Ou "o" palácio. Dois fatores contribuíram para essa primeira estranha impressão: algumas obras de restauro que estavam sendo feitas em sua fachada (oh, como elas são necessárias, mas brochantes para um turista!) e uma certa proximidade da urbe.
Foi assim, nessa viagem e nas conversas que tivemos meu amigo e eu, que evidenciei que tudo na vida é relativo - ou circunstancial, como este amigo prefere dizer. Neste caso (e em vários outros durante a viagem), minha reação estava diretamente ligada à expectativa que eu nutria. Quanto maior esta fosse, maiores as possibilidades de "decepção".

Não, não me decepcionei com Versailles. Tive o êxtase que imaginava ter ao estar no mesmo quarto onde dormia o Rei Sol, ao pisar o mesmo chão que ele pisou, ao saber que ali a monarquia caiu na Revolução Francesa. Olhava para aqueles portões recentemente retocados com um dourado ofuscante e via ali o povo rebelde, gritando e clamando por comida. Olhava da janela e imaginava Maria Antonieta ordenando (numa cena que é mais lendária do que real): "Se o povo está com fome e não tem pão, que coma brioches".
É difícil descrever minhas impressões de Versailles. Como museu, digamos, ele é menos interessante do que outros (o Palácio Real de Madrid, por exemplo, é mais completo). Seria, porém, leviano subestimar o valor de Versailles. Seus imensos jardins estão lá, desenhados com precisão, cuidados com dedicação. Seus canais, lagos e fontes são exemplos da opulência real. Suas centenas de janelas (cheguei a contar mais de 150 apenas em um dos lados) revelam que ali viveu uma das cortes mais populosas da Europa. A famosa sala dos espelhos nos leva ao passado, imaginando um baile real. "Dancem!", dizia Luís 15 - e com um pouco de esforço podemos ouvi-lo!
Sim, Versailles é tudo o que falam dele. Apogeu e queda. Divino e humano. Real e plebeu (acho que Luís 16 nunca imaginou que 200 anos depois seríamos nós, o povo, que ocuparíamos aquele espaço). Até no que diz respeito à sua manutenção Versailles revela um certo paradoxo: é bem cuidado, mas transmite a impressão de que a França abandonou aquilo como quem abandona um passado manchado.
E para quem acha que Versailles acaba ali, engana-se. Quase uma hora de caminhada - lenta e atenta - ou uma carona, paga, numa espécie de ônibus leva ao Chateau de Maria Antonieta, um espaço reservado da rainha que perdeu a cabeça. Lá estão o Petit Trianon e o Grand Trianon, opondo beleza e ruínas, revelando um mundo à parte de uma das principais monarquias da Europa, aquela que um dia dominou o mundo (ao menos aquele conhecido mundo absolutista).

Guerra e paz nos EUA

Uma boa viagem deve sempre incluir o inusitado. No fim, são estes momentos que ficam marcados, eles serão as histórias que contaremos aos amigos, colegas e familiares. E para curtir uma viagem, é preciso estar preparado para o inusitado, por mais paradoxal que isso possa soar. Preparar-se para o inusitado é estar de espírito aberto para as gafes que você cometerá, para as trapalhadas pelas quais passará e até por eventuais apuros (desde que depois sejam solucionados e não deixem sequelas).
Na primeira vez que fui para os Estados Unidos, em 1990, o choque cultural e tecnológico foi enorme. Na época, a economia do Brasil estava começando a se abrir (e quem fez isso foi, acreditem, Fernando Collor de Mello) de modo que tudo no Exterior era novidade. Os carrões, as máquinas, tudo! O guia da viagem, precavido, já tinha dado o recado: “não se preocupem com gafes, vocês estão em outro país e ninguém os conhece”.
Pois lá fui eu na fila do restaurante. Pedi um sorvete, que deveria ser pego numa máquina. Olhei para o lado e vi a dita cuja. Apertei o botão e logo começou a sair um creme branco. Fiquei contente, estava usando uma máquina sozinho e nos EUA! Quando fui experimentar, o sorteve estava quente. Ou melhor, na temperatura ambiente. “Nossa, o sorvete americano é assim?”, pensei. Já que tudo era novidade e tudo era diferente, por que não um sorvete quente?
Comecei a desconfiar de que algo estava errado quando me virei e vi várias pessoas no restaurante rindo (à moda americana, sem estardalhaço, mas rindo). Realmente, algo estava errado. Fui pedir socorro ao guia e dele veio a explicação: eu acionara a máquina de chantilly (um mero complemento do sorvete). Meio sem jeito, deixei aquele copo de lado e fui descobrir que o sorvete americano era, ao menos na temperatura, igual ao nosso – gelado.
Mais recentemente, numa outra aventura pelos EUA, uma outra gafe (que, no fim, só eu e meus companheiros de viagem soubemos). Estávamos em Washington e cresciam em vários pontos do país os protestos pelo fim da guerra no Iraque. Vi num folheto jogado na rua que haveria uma grande marcha pela paz no dia 15 de setembro. Nesse dia, saímos cedo do hotel, fomos ao National Mall (o mesmo local onde houve a posse do presidente Barack Obama recentemente) e nos deparamos com um aglomerado de pessoas. Elas portavam faixas diversas e bandeiras dos EUA. Á frente, num palco, bandas tocavam e ativistas se manifestavam.
Entusiasmados, corremos para a multidão. Sem pensar, começamos a gritar. Fazíamos sinal de paz e falávamos: “peace, peace”. Disparamos os flashes para todo lado. Estávamos vivendo um momento histórico! Até que um dos amigos estranhou os dizeres em uma faixa. Era mais ou menos o seguinte: “Traidores, vão para o inferno”. “Galera, tem algo errado aqui”, disse ele.
E não é que tinha mesmo?! O protesto, na verdade, era a favor da guerra. Uma resposta antecipada à marcha pela paz, que ocorreria à tarde. Eu, idiota, até havia tirado foto com uma bandeira atrás cujos dizeres eram claros: “Nós apoiamos nossas tropas”. E nem me dei conta de que tínhamos entrado na passeata errada...
Em tempo: claro que essa história não podia terminar assim, apoiando as aventuras do Senhor da Guerra (George Walker Bush). À tarde, encontramos dezenas de ativistas pela paz e fiz questão, dentro do metrô lotado, de tirar uma foto para registrar o protesto correto.


PS 1: esta postagem é uma homenagem a todos aqueles que trabalham pela paz.

PS 2: esta postagem é dedicada ao estudante de Jornalismo, Daniel Marcolino, que cobrou a atualização deste blog.

Uma viagem pelas paisagens de Waite

Nem sempre é possível viajar no sentido literal. Nesses casos, um lugar pode ser conhecido por meio de um relato, de um livro ou de uma foto. Cada uma dessas formas de "viagem" contêm suas peculiaridades e seus charmes. Quem nunca se encantou por um lugar ao folhear as páginas de um livro? Quem nunca se viu no Rio de Janeiro do século 19 ao ler Machado de Assis?
No caso das fotos, o componente imaginário perde-se um pouco ante o realismo da imagem. Ainda assim, é possível manter a poesia e o encanto. É mais ou menos isso que faz o fotógrafo inglês Charlie Waite. Nascido em 1949, ele consagrou-se pelas imagens de paisagens, em que mistura luz e sombra, fruto de sua experiência com iluminação teatral e design.
Waite já expôs em Londres, Tóquio, Nova York, Sydney, Melbourne e Brisbane. É autor de 27 livros sobre o Reino Unido, França, Itália, Espanha e Alemanha, todos exclusivamente de fotografia. Ele também especializou-se em ensinar e estimular novos fotógrafos por meio de uma série de projetos.
Para quem deseja mais informações, acesse o site oficial dele clicando aqui. Lá é possível ver uma série de fotos, todas belas. Alguns exemplares ilustram esta postagem.

A Torre de Londres

O que Barack Obama, a série "Os Tudors" e este blog têm em comum? Tudo. Vendo uma reportagem sobre a posse do novo presidente dos EUA, uma pessoa entrevistada assim resumiu o que se passava naquele momento: "history, history, history". O que essa pessoa queria dizer é que a história estava sendo escrita ali, naquela hora. E que ela era participante e testemunha.
Em alguns casos, como na posse de Obama, é possível presenciar a história. Futuramente, as pessoas vão olhar para trás e dizer: "eu estive lá", "eu vi". Elas terão a plena sensação de terem feito parte da história, ainda que como coadjuvantes. Em outras ocasiões, porém, não é mais possível presenciar a história, mas esta sábia senhora deixa suas marcas. E conhecer estas marcas proporciona uma sensação muito parecida com a vivenciada pela pessoa que se sentiu fazendo história na posse do presidente norte-americano.
Para mim, viajar é essencialmente conhecer a história. Lazer e prazer vêm como consequências. Estar num lugar onde a história aconteceu é fascinante. Já vi pessoas reagirem com indiferença a isso. Já vi quem dissesse não ver a menor graça ao se deparar com um prédio histórico. Eu vejo toda a graça. Seria capaz de passar horas observando cada detalhe, pondo-me a pensar em como tudo aquilo era. É uma viagem. Uma outra viagem.
Foi justamente esta sensação que me moveu quando conheci a Torre de Londres. Antigo palácio e prisão, ela hoje virou uma espécie de museu, além de guardar as preciosidades da coroa britânica. Como atração puramente turística, ela deixa a desejar. Chega a ser inocente - parece uma Disneylândia. Você anda por aquele lugar e se depara com atores vestidos de personagens; nas salas, montagens infantis e aparelhos que servem muito mais para diversão do que para qualquer outra coisa. Pode-se, por exemplo, simular que se atira uma flecha (e estimar a força necessária para isso).
Ainda assim, a Torre de Londres é a Torre de Londres. É lá onde tantos personagens da história viveram momentos decisivos. Ela foi a última visão da Terra para muitas pessoas, menciona com certo ar de ironia o site oficial da atração (http://www.toweroflondontour.com/). Foi na torre que a rainha Ana Bolena ficou presa por 18 dias e foi decapitada por ordem do então rei Henrique VIII. Era para lá que ele mandava seus inimigos - como Thomas More (seu antigo aliado), preso em 1534 e executado em julho de 1535. Também foi para lá que a rainha Maria I, filha de Henrique VIII com Catarina de Aragão, enviou presa em 1554 a sua meia-irmã princesa Elizabeth (depois rainha Elizabeth I), filha do rei com Ana Bolena, sob acusação de conspiração. Todos estes são personagens da série e da era Tudor. Outro personagem da época que foi preso na torre (1555) e condenado à morte é o arcebispo Cranmer, celebrante do polêmico casamento de Henrique VIII com Ana Bolena.
As paredes da torre hoje são prova de tantos prisioneiros que para lá foram enviados quando o monarca implantou sua reforma. É possível ver nas antigas celas inscrições que revelam a dor e o sofrimento de muitos que estiveram por ali injustamente. Eles deixaram nas paredes poemas, mensagens, datas. Demonstraram sua fé marcando símbolos católicos. Tudo isso está lá, para ser visto e, em alguns casos, tocado (nas inscrições mais famosas, uma proteção de acrílico impede que se toque).
No local onde Ana Bolena e tantos outros (incluindo as rainhas Catarina Howard, também esposa de Henrique VIII e decapitada sob acusação de infidelidade em 13 de fevereiro de 1542, e Lady Jane Grey) literalmente perderam a cabeça, hoje resta um monumento. De sala em sala, a Torre de Londres - fundada há quase mil anos - vai se revelando. Na Londres moderna, ela pode parecer ingênua. Para quem conhece sua história, porém, ela possui um valor imensurável. sem contar que está na beira do Rio Tâmisa.

PS: quem quiser saber mais sobre a torre e o reinado de Henrique VIII acesse o campo de mensagem desta postagem.

Mais museus, por Cristiano Persona

Seguindo nas consultas a colegas sobre suas impressões a respeito de museus pelo mundo, quem dá as dicas agora é o publicitário Cristiano Persona. Ele diz que as dicas são "honestas e dadas por alguém que não entende muito nem de turismo nem de arte. São apenas impressões". E alerta: "O importante para todos os museus é entrar no clima e buscar o que de mais legal cada um oferece. É certeza de diversão".

* Museu do Louvre (Paris) - Indispensável. Só a fachada e o clima que o envolve já valeriam a pena. Mas ele é muito mais. Traz coleções de quadros, esculturas, cerâmica, Egito, Babilônia, etc, que acredito que não encontramos em nenhum outro lugar do mundo. Minha dica é chegar cedo e ir direto para Monalisa, Vénus de Milo e Vitória de Samotrácia. Imperdíveis! Se puder, visite em dois ou três dias.

* British Museum (Londres) - Estive por lá na mesma viagem em que estive em outros 14 museus! Foram 18 dias de pura cultura na Europa. O British ficou "ensanduichado" entre o Metropolitan (Nova York), visto cerca de cinco meses antes, e o Louvre (Paris), visto cerca de uma semana depois. Os três trazem o mesmo conceito, porém, com estilos diferentes. Apesar de ser impossível de não admitir que, dos três, o British é o menos imponente, não perderia uma visita a ele por nada. Vale muito a pena, pois acho que dos três ele é o que traz o melhor panorama mundial. Você se sente circulando entre todas as regiões do mundo, inclusive América do Sul. Além disso, quem não gostaria de ver a Pedra de Roseta, os frisos do Partenon de Atenas ou os mármores de Elgin? Reserve tempo para ele, é preciso!

- Museu do Prado (Madri) - Fui com aquela "frase" que costumamos ouvir a respeito desse museu: "é cansativo". Posso ser sincero? Não é! Claro que a coleção de quadros chega a cansar. Depois de um tempo é impossível não ter aquela sensação de "mais um quadro de realeza?!" ou ainda "mais um quadro de religião?!". Mas o cansaço acaba diante de uma das mais impressionantes obras que já vi: “As meninas” (nome original: "La Família de Felipe IV"), do pintor espanhol Diego Velasquez. A tela é imensa e tem uma luminosidade que é impossível de descrever. Não vou mais falar dele, visite.

- Rijksmuseum (Amsterdã) - Não me sinto à vontade para escrever. Estive lá com ele em reforma e pude ver apenas algumas poucas alas abertas. Sei que é fantástico, pois traz a "Ronda Noturna", de Rembrandt, que tem uma história muito legal! Além de lindo, o quadro já foi "atacado" duas vezes!

- MoMA (Nova York) - Antes de visitar o MoMA, meu contato com museus era muito pequeno. Ele inaugurou um capítulo à parte na minha vida de "amante de arte". Gosto particularmente dos museus que trazem obras da metade do século 19 para cá. Esse museu é um passeio. Pelo belo, pelo provocador, pelo novo. Impossível não querer tirar uma foto em frente de um Monet ou fazer uma cara de "paisagem" em frente a um pós-modernista. O museu é democrático. O mundo circula por lá. Cada sala reserva uma surpresa. O prédio é surpreendente. Esse museu não é cansativo. É uma espécie de “museu shopping center”! FANTÁSTICO!

- Tate Modern (Londres) - Está na mesma categoria do MoMA, porém, sua coleção é menos impressionante. Não que seja desinteressante, a Tate é linda! O que a diferenciou para mim foi a presença de artistas brasileiros. Uma sala com uma montagem interessante sobre carnaval estava por lá. No saguão, alguns "brinquedos" interativos valem a pena. A arquitetura é uma obra à parte e a ponte construída para ligá-la ao outro lado do Tâmisa é maravilhosa. Depois de alguns dias vendo prédios, museus, monumentos e igrejas antigas, a Tate é um refresco em Londres!

- Museu de Van Gogh (Amsterdã) - Este é coisa de louco! É muito Van Gogh! E Van Gogh é muito lindo! Não existe pintor no mundo, na minha opinião, que consiga o efeito que ele conseguiu em suas telas. Tive uma passagem interessante nesse museu. Dias antes estive em Londres visitando a National Gallery, que traz a “obra da minha vida” até agora - “Os girassóis”, de Van Gogh. Quando cheguei ao museu dele em Amsterdã não esperava encontrar “Os Girassóis” por lá. E não é que ele estava! Na verdade, Van Gogh pintou alguns "Girassóis" para decorar o quarto de Degas no período em que moraram juntos. Quando Degas foi embora, pediu os quadros. Van Gogh os entregou, mas repintou outros, pois havia gostado muito do trabalho. Dessa forma, há alguns "Girassóis" espalhados pelo mundo! Sorte a nossa. Esse museu é um dos Top 5.

- Museu D´Orsay (Paris) – Dá até um pouco de medo de dizer o que vou dizer agora, mas o D´Orsay é mais legal que o Louvre. Esse museu, além de lindo em sua arquitetura, traz uma coleção de quadros dos mais conhecidos do mundo. Todos do final do século 19 ou início do 20. Chegue com tempo e suba direto para o último andar. Aprecie tudo com calma, desça devagar. Deguste as obras. Tome um expresso antes de sair. E tenha a maior vontade de “quero mais” de todos os museus da Europa!

- National Gallery (Londres) – Ir para Londres e não visitar a National Gallery é ir para Roma e não ver o papa. Primeiro porque ela está na Trafalgar Square, uma das praças mais conhecidas e legais da Europa. Segundo porque ela abriga uma coleção de quadros de cair o queixo, fruto de uma monarquia rica e antiga. E terceiro porque é nesse museu que está “Os Girassóis”, de Van Gogh. Pelo menos um deles! O quadro faz você chorar. A cor salta da tela, invade a sala, faz você se sentir como uma formiga diante da beleza da obra. Até o momento, a “coisa” mais linda que eu já vi!

Museus de NY, por Kelly Camargo

Decidi pedir a algumas pessoas impressões sobre alguns museus - que eu determinei. Uma delas, a jornalista Kelly Camargo, disse que se empolgou com a proposta e foi além. "É que curti muito essa viagem", justificou. Não há problema. Aqui vai o relato dela - e a Kelly caprichou!

"Um dia recebi um e-mail me pedindo para elencar cinco lugares onde eu gostaria de estar novamente. Acho que eu elencaria Nova York nas cinco vezes. Para mim, dificilmente haverá outra cidade no mundo que seja mais cinematográfica do que Nova York. Ela abriga a casa de muitos dos meus ´heróis dos quadrinhos´ e é cenário da maioria dos filmes de ação e romance pelos quais sou apaixonada.

Assim, faço um paralelo com alguns destes fatos e alguns dos museus mais legais que existem por lá. O Museu de História Natural, cenário do filme ´Uma Noite no Museu´, é o mais badalado. Difícil passar pelas suas 40 salas – ainda mais na companhia do Ryan, que sempre sabia um detalhe pitoresco para me contar – sem se deliciar com tudo o que até então a gente só vê nos filmes.
Alguém lembra que foi no Museu de Arte Moderna que Will Smith perseguiu um alienígena na abertura de ´Homens de Preto´?. No Planetário de Nova York, Mary Jane quase matou o Homem-Aranha de ciúmes ao anunciar seu casamento com um astronauta, em ´Homem-Aranha 2´.


O Metropolitan Museum possui a melhor coleção de arte egípcia e uma das melhores coleções de arte islâmica do mundo, além de milhares de peças em cristal e prata, armaduras e trabalhos que me encantaram.
Acho que me decepcionei com a ´singela´ homenagem feita ao pai da aviação e patrono da Aeronáutica, Alberto Santos-Dumont, no Smithsonian Air & Space Museum, de Washington. Muito pouco para o maior museu da indústria da aviação mundial."


Em tempo: para ler mais sobre essa viagem para Nova York, acesse http://rodrigopiscitelli.blogspot.com/2008/02/sentir-o-parque-uma-outra-cidade.html

Recado

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