Guerra e paz nos EUA

Uma boa viagem deve sempre incluir o inusitado. No fim, são estes momentos que ficam marcados, eles serão as histórias que contaremos aos amigos, colegas e familiares. E para curtir uma viagem, é preciso estar preparado para o inusitado, por mais paradoxal que isso possa soar. Preparar-se para o inusitado é estar de espírito aberto para as gafes que você cometerá, para as trapalhadas pelas quais passará e até por eventuais apuros (desde que depois sejam solucionados e não deixem sequelas).
Na primeira vez que fui para os Estados Unidos, em 1990, o choque cultural e tecnológico foi enorme. Na época, a economia do Brasil estava começando a se abrir (e quem fez isso foi, acreditem, Fernando Collor de Mello) de modo que tudo no Exterior era novidade. Os carrões, as máquinas, tudo! O guia da viagem, precavido, já tinha dado o recado: “não se preocupem com gafes, vocês estão em outro país e ninguém os conhece”.
Pois lá fui eu na fila do restaurante. Pedi um sorvete, que deveria ser pego numa máquina. Olhei para o lado e vi a dita cuja. Apertei o botão e logo começou a sair um creme branco. Fiquei contente, estava usando uma máquina sozinho e nos EUA! Quando fui experimentar, o sorteve estava quente. Ou melhor, na temperatura ambiente. “Nossa, o sorvete americano é assim?”, pensei. Já que tudo era novidade e tudo era diferente, por que não um sorvete quente?
Comecei a desconfiar de que algo estava errado quando me virei e vi várias pessoas no restaurante rindo (à moda americana, sem estardalhaço, mas rindo). Realmente, algo estava errado. Fui pedir socorro ao guia e dele veio a explicação: eu acionara a máquina de chantilly (um mero complemento do sorvete). Meio sem jeito, deixei aquele copo de lado e fui descobrir que o sorvete americano era, ao menos na temperatura, igual ao nosso – gelado.
Mais recentemente, numa outra aventura pelos EUA, uma outra gafe (que, no fim, só eu e meus companheiros de viagem soubemos). Estávamos em Washington e cresciam em vários pontos do país os protestos pelo fim da guerra no Iraque. Vi num folheto jogado na rua que haveria uma grande marcha pela paz no dia 15 de setembro. Nesse dia, saímos cedo do hotel, fomos ao National Mall (o mesmo local onde houve a posse do presidente Barack Obama recentemente) e nos deparamos com um aglomerado de pessoas. Elas portavam faixas diversas e bandeiras dos EUA. Á frente, num palco, bandas tocavam e ativistas se manifestavam.
Entusiasmados, corremos para a multidão. Sem pensar, começamos a gritar. Fazíamos sinal de paz e falávamos: “peace, peace”. Disparamos os flashes para todo lado. Estávamos vivendo um momento histórico! Até que um dos amigos estranhou os dizeres em uma faixa. Era mais ou menos o seguinte: “Traidores, vão para o inferno”. “Galera, tem algo errado aqui”, disse ele.
E não é que tinha mesmo?! O protesto, na verdade, era a favor da guerra. Uma resposta antecipada à marcha pela paz, que ocorreria à tarde. Eu, idiota, até havia tirado foto com uma bandeira atrás cujos dizeres eram claros: “Nós apoiamos nossas tropas”. E nem me dei conta de que tínhamos entrado na passeata errada...
Em tempo: claro que essa história não podia terminar assim, apoiando as aventuras do Senhor da Guerra (George Walker Bush). À tarde, encontramos dezenas de ativistas pela paz e fiz questão, dentro do metrô lotado, de tirar uma foto para registrar o protesto correto.


PS 1: esta postagem é uma homenagem a todos aqueles que trabalham pela paz.

PS 2: esta postagem é dedicada ao estudante de Jornalismo, Daniel Marcolino, que cobrou a atualização deste blog.