O sonho de Versailles

Sempre gostei de história. Sempre gostei de viajar. Talvez por isso sempre tenha tido uma atração especial pelo Palácio de Versailles, na França. Costumava dizer que, quando fosse a Paris, mais do que a própria cidade e suas belíssimas atrações, era o palácio o meu "sonho de consumo". Versailles me encantava não só pela magnificência de sua arquitetura, mas também - e principalmente - de sua história. Ali, o regime absolutista teve talvez seu apogeu (ao menos no que diz respeito às suas excentricidades). Ali, este mesmo regime ruiu (ao menos no aspecto espetaculoso).
Depois de anos nutrindo este sonho, chegou o dia em que finalmente me encontraria com Versailles. Era abril de 2008. Mais precisamente 17 de abril. Pegamos - um amigo, companheiro de aventuras pelo mundo, e eu - o metrô e depois o trem (o palácio fica bem próximo de Paris). Descemos, caminhamos alguns poucos metros e lá estava ele, imponente. E um tanto estranho. Não parecia exatamente um palácio. Ou "o" palácio. Dois fatores contribuíram para essa primeira estranha impressão: algumas obras de restauro que estavam sendo feitas em sua fachada (oh, como elas são necessárias, mas brochantes para um turista!) e uma certa proximidade da urbe.
Foi assim, nessa viagem e nas conversas que tivemos meu amigo e eu, que evidenciei que tudo na vida é relativo - ou circunstancial, como este amigo prefere dizer. Neste caso (e em vários outros durante a viagem), minha reação estava diretamente ligada à expectativa que eu nutria. Quanto maior esta fosse, maiores as possibilidades de "decepção".

Não, não me decepcionei com Versailles. Tive o êxtase que imaginava ter ao estar no mesmo quarto onde dormia o Rei Sol, ao pisar o mesmo chão que ele pisou, ao saber que ali a monarquia caiu na Revolução Francesa. Olhava para aqueles portões recentemente retocados com um dourado ofuscante e via ali o povo rebelde, gritando e clamando por comida. Olhava da janela e imaginava Maria Antonieta ordenando (numa cena que é mais lendária do que real): "Se o povo está com fome e não tem pão, que coma brioches".
É difícil descrever minhas impressões de Versailles. Como museu, digamos, ele é menos interessante do que outros (o Palácio Real de Madrid, por exemplo, é mais completo). Seria, porém, leviano subestimar o valor de Versailles. Seus imensos jardins estão lá, desenhados com precisão, cuidados com dedicação. Seus canais, lagos e fontes são exemplos da opulência real. Suas centenas de janelas (cheguei a contar mais de 150 apenas em um dos lados) revelam que ali viveu uma das cortes mais populosas da Europa. A famosa sala dos espelhos nos leva ao passado, imaginando um baile real. "Dancem!", dizia Luís 15 - e com um pouco de esforço podemos ouvi-lo!
Sim, Versailles é tudo o que falam dele. Apogeu e queda. Divino e humano. Real e plebeu (acho que Luís 16 nunca imaginou que 200 anos depois seríamos nós, o povo, que ocuparíamos aquele espaço). Até no que diz respeito à sua manutenção Versailles revela um certo paradoxo: é bem cuidado, mas transmite a impressão de que a França abandonou aquilo como quem abandona um passado manchado.
E para quem acha que Versailles acaba ali, engana-se. Quase uma hora de caminhada - lenta e atenta - ou uma carona, paga, numa espécie de ônibus leva ao Chateau de Maria Antonieta, um espaço reservado da rainha que perdeu a cabeça. Lá estão o Petit Trianon e o Grand Trianon, opondo beleza e ruínas, revelando um mundo à parte de uma das principais monarquias da Europa, aquela que um dia dominou o mundo (ao menos aquele conhecido mundo absolutista).