Um encontro emocionante

Foi um encontro custoso. Teve que ser marcado com dois meses de antecedência. Foram necessários seis telefonemas até a confirmação do dia (19 de outubro) e horário (10h30). Sabia de antemão que teria apenas 15 minutos para estar lá, frente a frente com ela. Éramos apenas 26 naquela sala, todos ansiosos pela abertura da porta eletrônica – que, logo descobriríamos, antecedia outra e outra e outra. A próxima só abria quando a anterior estivesse devidamente fechada.
E assim, de porta em porta, câmara após câmara, avançamos. Até que a última porta se abriu para um amplo salão, antigo refeitório dos monges dominicanos. Um local espantosamente simples para o tesouro que guarda. Ali, à direita, praticamente à meia luz, exposta há mais de 500 anos, “Il Cenacolo Vinciano”, “The Last Supper”, “A Última Ceia”, obra-prima do mestre renascentista Leonardo Da Vinci.
Pintada diretamente na parede para ornamentar o refeitório do convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão, “A Última Ceia” é uma sobrevivente. Manteve-se apesar da agressão dos monges que, em 1652, decidiram alargar a porta que levava à cozinha, danificando uma parte da pintura. Resistiu à ocupação pelas forças de Napoleão em 1799 e – quase milagrosamente – aos ataques aliados na noite de 15 de agosto de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial. Suportou – bravamente - a ação do tempo, que vem apagando os traços originais (os primeiros registros de que a pintura começava a se deteriorar datam de 1517 e são atribuídos a Antonio de Beatis; em 1566, Giorgio Vasari escreveu que “do original de Leonardo ... agora só se pode ver uma mancha”).


E cinco séculos depois ela estava ali, inacreditavelmente linda, exibida, toda só para mim (sim, havia mais pessoas no salão, mas eu me sentia o único). Poucas vezes o verbo contemplar serviu tão bem a uma ação quanto naquele momento. E assim fiquei os meus 15 minutos, apenas contemplando.
A olho nu, a pintura parece ter sido molhada – é a umidade da parede que a danifica. Assim são as já apagadas cores, que alternam pontos fortes e fracos. O fundo brilha, iluminado pela paisagem que se vê pelas janelas. Há uma luz incidente na lateral direita. O efeito luminoso se soma à profundidade (marca genial dos renascentistas) de modo tão bem acabado e harmonioso que tem-se a nítida impressão de que somos parte daquele cenário, que estamos ali fechando o ambiente.
Ao centro, já sem os pés - amputados pela porta alargada pelos monges -, Jesus aparece absorto em meio à discussão dos discípulos após a revelação da traição que estaria por vir. Em grupos de três, eles conversam. “Serei eu, Senhor?”, ouve-se diante do movimento criado pelas mãos habilidosas de Da Vinci. De perto, observam-se detalhes que escapam a uma visão desatenta. A toalha da mesa, por exemplo, não é puramente branca. Possui delicadas rendas azuis.

É inevitável não pensar nas teorias levadas a amplo conhecimento público pelo escritor Dan Brown em seu livro “O Código Da Vinci”. E como quem teve o privilégio de olhar a cena tão de perto, sou forçado a admitir: a teoria pode não ter o menor fundamento, mas que a imagem que representa o apóstolo João é de uma mulher, isto é. Não seria absurdo compará-la à Gioconda. Os traços são absolutamente femininos – e duvido que isso seja fruto do acaso (só nunca saberemos qual foi o objetivo do mestre renascentista nunca se saberá).
Outros aspectos reforçam essa tese – e as consequentes teorias. É o caso das cores das roupas de Jesus e João, semelhantes, porém inversas. O apóstolo veste azul com um manto vermelho; Jesus o oposto, um traje vermelho sob um manto azul. Seria mais um sinal, segundo a teoria, do feminino e do masculino. Também chama a atenção a letra “V” formada pelo braço direito de Jesus e pelo esquerdo de João, algo que não se vê em nenhum outro ponto da pintura. Seria a representação do ventre, conforme Dan Brown.
A figura de João seria mesmo Maria Madalena...?
Não importa. O que valeu foi viver a experiência de um encontro tão raro, profundo e emocionante. E do qual aproveitei todos os instantes. Sob o olhar atento da senhora de cabelos brancos, face fechada, óculos na ponta do nariz, que vigiava ininterruptamente os curiosos naquele salão, ainda parei na saída para dar mais uma – a última olhada. Na “Última Ceia”.

PS: a igreja de Santa Maria delle Grazie fica numa região mais afastada em Milão, uma área residencial e bastante tranquila. Não chega a ser longe, apenas está fora do centro turístico. Por esta razão – e pela dificuldade de conseguir reservar o ingresso para ver a obra de Da Vinci -, muitas pessoas abrem mão de visitar o lugar. É um pecado!
Embora a igreja tenha um interior relativamente simples se comparado ao de outras, num estilo que lembra o mourisco e aparentes mosaicos em pedra, nada – absolutamente nada – substitui a emoção de ver “A Última Ceia”.

Em tempo: a pintura com a imagem que dá nome ao lugar está exposta numa pequena e modesta capela lateral, à esquerda.






* As imagens da pintura e do interior do salão foram retiradas da Internet, respectivamente do Wikipedia e do site "O Pitoresco". Não são permitidas fotos no local.

Um encontro com a história

Às vezes, a história cruza nosso caminho das formas mais surpreendentes. Quando estive em Munique com dois amigos pesquisadores, em outubro de 2005, tinha na agenda um almoço com uma psiquiatra cuja bisavó vivera na Fazenda Ibicaba no século 19 – na época, a propriedade ficava no território de Limeira (hoje localiza-se em Cordeirópolis). Esta era a nossa “pauta” naquele encontro. Contudo, a nossa anfitriã - não bastasse a saga da bisavó que emigrara para o Brasil ainda bebê, perdera a mãe e fora adotada por um dos filhos do senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, dono de Ibicaba - guardava outra história para contar. Uma história que, passados mais de 60 anos, continua vida em toda a Europa – e, de resto, em todo o mundo.O almoço corria tranquilamente. Nós, interessados na história da família; ela, aproveitando a visita de estrangeiros curiosos para refrescar as lembranças. E em meio ao peixe ensopado (era este o cardápio) foi surgindo um relato com contornos dramáticos de uma família que se viu dividida em razão de um homem cuja loucura o mundo conheceu: Adolf Hitler.O avô da nossa anfitriã era nazista. Aderira ao partido (e às ideias) do Führer desde o princípio. Guardava na memória o tempo em que fora prisioneiro na França durante a Primeira Guerra Mundial. Vira no nazismo a oportunidade de resgatar sua autoestima, a autoestima de seu país, de mostrar a “superioridade” da raça ariana. A avó, porém, resistia. Era contrária a Hitler. O conflito familiar se estabeleceu. O homem era rude, bravo. À mulher, restava a resiliência. E assim foi.Especialista em química, o avô trabalhava numa grande empresa farmacêutica alemã. Como membro do alto escalão de Hitler, usou seus conhecimentos em favor das atrocidades nazistas. Ajudou a desenvolver (conceber ou executar, não sei exatamente) a câmara de gás, responsável pelo assassinato em massa de milhares de judeus durante a Segunda Guerra. Na França, como prisioneiro de guerra anos antes, tinha sido vítima de experimentos com vacinas ou algo do gênero.O relato foi feito com uma dor contida e um senso de desaprovação. Nossa anfitriã, embora não manifestasse claramente, com todas as palavras, indicava seu descontentamento com o passado nazista de parte importante da família – o avô, o homem, a referência da casa. Foram para ela anos de “isolamento, negação e medo”.O fim da vida do avô não foi citado. Tampouco perguntamos. Ao ouvir um relato pessoal e dramático dessa natureza, mantivemos o silêncio, tomados pela surpresa e emoção. Em respeito à memória da família e à nossa anfitriã. Aquela senhora – na altura dos seus 80 anos – abria seu coração ao contar uma parte polêmica (reprovável até) da história de sua família, de sua vida.E como o destino e a história caminham juntos, com a derrota do nazismo em 1945, coube a ela compor o grupo de cientistas que o governo alemão enviou posteriormente aos Estados Unidos em missão especial a fim de trocar experiências e levar à Alemanha novos conceitos.Àquela altura do almoço, tive a certeza de que vivia um momento único, privilegiado. Imaginei quantas outras pessoas teriam histórias semelhantes, de divisões e máculas, fatos a contar e a esconder. Descobri como a Segunda Guerra ainda é presente naquele solo, onde milhões de pessoas pereceram. Pensei quantas dessas vidas perdidas acabaram por mudar o rumo de famílias, de países, da história. Ali, naquele raro e excepcional momento, à mesa do almoço num apartamento de classe média em Munique, vi uma parte importante e terrível da história da humanidade passar à minha frente. Vi a história em carne e osso, aquela história que vai além dos livros. Uma história que se misturou para sempre àquela inesquecível viagem.

A Toscana existe

Todos os adjetivos possíveis já devem ter sido utilizados para descrever a beleza da Toscana na literatura, turisticamente ou não. Ainda assim, a região não para de seduzir quem a visita pela primeira ou enésima vez.”
Pedro Carrilho (Itália, “Folha de S. Paulo”, Viagem, 16/6/2011)

As cores, o clima, os sabores. Só quem tem contato com a Toscana entende o que fez a escritora Frances Mayes largar tudo para viver sob aquele sol. Encravada na região centro-norte da Itália, a Toscana é o berço da arte, do Renascimento. É a terra da uva e do vinho. É onde uma parte importante da história italiana, da nossa história, desenrolou-se. De Firenze a Siena, de San Gimignano a Lucca.
Este texto poderia terminar aqui e você já teria motivos suficientes para conhecer essa região. No entanto, é preciso dizer mais. A Toscana merece mais. Aquelas montanhas amarelo-esverdeadas, com as cores e o aroma das uvas e das olivas, emanam uma magia encantadora. Sob a luz do sol, aquelas cores adotam um brilho indescritível. Reluzente tal qual ouro.
Olhados ao longe, das curvas tortuosas das estradas toscanas, os vinhedos formam caminhos que parecem levar ao olimpo. São como ondas no mar. Geram espumas de um sabor ímpar, apreciadas em todo o mundo. Os vinhos da Toscana formam com o queijo pecorino e o salame um conjunto harmonioso, especial. Saúde e sorte combinadas de modo perfeito nas refeições.
Depois, que tal um sorvete? Que seja o da Gelatería Pluripremiata, eleito por duas vezes o melhor do mundo, na pequena e reservada San Gimignano, terra das 14 torres no topo da colina Val´Elsa. Torres vistas ao longe, sombreadas, como um brinquedo de tijolinhos que fez a infância de muitos. Ah, San Gimignano, suas ruas de pedras vermelhas, suas paredes de pedras bruscas, sua muralha secular são um mergulho no tempo, num tempo que parou séculos atrás, quando eram muito mais numerosas as torres.
As pedrinhas vermelhas também colorem o centro histórico de Siena, cidade milenar que mantém a tradição secular do Palio e que se gaba de ter o primeiro banco do mundo ainda em atividade e de ecoar ares de democracia quando isto estava distante das cidades-estado italianas. Cidade que almejou a riqueza ao se ver encravada na rota Roma-Firenze e que disputou fama com os florentinos.
Ah, os florentinos. Que sorte a deles! Viram florescer em suas terras o que de mais iluminado a arte produziu, o Renascimento. Firenze (ou Florença, como queiram) é o berço de um tal Leonardo e um certo Miguel, o Buonarroti. De Donatello e Rafael e tantos outros. Berço natalício de alguns, berço artístico de todos.
Andar pelas ruas de Firenze é encontrar com essas figuras em corpo (como nas esculturas de David, a original e suas cópias) e em alma (como ao ver o menino francês no alto da Piazza Michelangelo apreciando o Duomo e rabiscando numa folha branca traços quase divinos). E, tenha certeza, estes encontros são inevitáveis e imprescindíveis – não creia que os clichês (turísticos, no caso) sempre serão ruins, há muito de original ao se deparar com as marcas deixadas ali por homens que ajudaram a mudar a nossa visão de mundo, a transformar a visão do mundo. A originalidade consiste em buscar, dentro de si, os motivos que o tocam – e cada um terá os seus.
E por mais que Firenze seja inevitavelmente o lugar da arte de Michelangelo e Da Vinci, ela é também a cidade às margens do rio Arno, cujas águas estampam uma beleza singular, colorida à luz do dia, brilhante à luz da lua. Ela é, de alguma forma, a essência da Toscana, uma terra que guarda segredos e revela tesouros, que cresce e se preserva como uma donzela, uma “bella dona”.
Firenze é o centro urbano de uma região marcadamente rural. A Toscana, um lugar onde o sol brilha mais forte só para realçar a beleza das flores, onde a chuva cai mais límpida só para fazer brotar as formas mais belas de vida. Um lugar para chamar de seu, ainda que à sua volta existam milhares de turistas. A Toscana convida à intimidade e ninguém terá vivido verdadeiramente a essência deste pedaço de chão – seria profano chamá-lo de sagrado? - sem estabelecer ali uma relação umbilical.
Sim, a Toscana existe. Que sorte a nossa!

PS: texto originalmente escrito para a revista “Máxima News”, da jornalista Rosiane Tank.

As Cinque Terre na TV

O Parco Nazionale delle Cinque Terre, ou das Cinco Terras, foi um dos destaques do último "Globo Repórter". A reportagem é da jornalista ararense Ilze Scamparini.



Eu também estive frente a frente com as uvas das Cinco Terras:


Na mesa de um bar

Via Brera, Bar Brera, terça-feira, dezenove de outubro, dezessete horas. Fim de tarde em Milão com o sol começando a se deitar. Um senhor gordo, vestindo uma boina e elegantemente escorado numa bengala, chega com dificuldade. “Scusi”, pede. E fala comigo, forçando-me a quebrar o silêncio e a buscar um improviso: “Io non parlo italiano...”. Ah, e interrompendo minha leitura do “la Repubblica” ao sabor de um chocolate quente e de um brioche.
Aquele senhor gordo parece socialista ou de direita. Fascista? Contraditório, mas é minha impressão. Aparentemente contrariado com não se sabe o quê (seria com a minha recusa ao diálogo?), ele chama a atendente do bar e pede um capuccino. Enquanto espera, resmunga de vez em quando (com mais frequência do que devia, penso).
O capuccino chega. Ele reclama e mexe na bebida. Ou mexe na bebida e reclama. Ou as duas coisas ao mesmo tempo. O fato é que algo o desagradou naquele capuccino. Algo que a atendente não compreende, embora tente ser simpática.
Volta e meia ele inicia uma lição de moral, ainda que solitariamente. “Para ter uma pessoa justa, antes é preciso parir uma pessoa justa”, diz, italianamente. Justo. Enquanto filosofa, continua mexendo no capuccino e reclamando. A atendente volta e retruca, já um tanto sem paciência, embora ainda tente parecer simpática. O senhor gordo, porém, é impassível no veredicto: “Pedi um capuccino e devia pagar metade”.
Pelo que entendi, ele achou exagerada a cremosidade da bebida. O “colarinho”, fosse aquilo um chope.
O senhor gordo se vira, estica o braço em direção aos guardanapos na minha mesa e pergunta: “Posso?”. Respondo positivamente com um rápido sinal com a cabeça.
Ali, no Bar Brera, naquela tarde, Milão volta no tempo. A 1968. Um homem passa levando uma obra de arte embaixo do braço (bem, não exatamente embaixo, mas da forma como ele consegue carregar aquele grande quadro). Duas mulheres passam fumando e conversando elegantemente vestidas no outono italiano. Dois jovens com cara de revolucionários surgem e saem apressados, um deles com cigarro em uma das mãos, pose de intelectual, jaqueta de couro e barba por fazer. Um casal apaixonado apresenta-se, trocando afagos e sussurros e beijos na mesa em frente (mais afagos que sussurros e beijos, é verdade).
Um outro homem, também velho, mais moderno (ao menos nas vestimentas, uma jaqueta vermelha chamativa), entra no bar. Logo que chega, é saudado pelo colega gordo que não gostou do capuccino. Parecem amigos de longa data, talvez tenham dividido as aventuras e desventuras de 1968. Agora, porém, são apenas dois senhores gordos, o da jaqueta vermelha que não bebe nada e o do casaco elegante que reclama do capuccino.
Conversam longamente, relembram fatos, analisam a história, de anônimos e famosos. Compreendo (eu acho...) meras palavras esparsas. Frases deslocadas, isoladas. “Um grande artista, um grande artista!”, fala o senhor gordo de bengala. Certamente estão comentando sobre algum nome da música ou do cinema ou da televisão.
Resolvo deixá-los. Para tristeza do Bar Brera, o consumo dos dois senhores gordos não passará daquele capuccino. Para tristeza das pessoas nas mesas ao lado, a conversa não passará de lamentações saudosistas. Contra a arte, a política, o esporte, contra a vida do mundo moderno. Nada ali passará naquela tarde, só o tempo. Para minha tristeza.

Dobro o “la Repubblica”, coloco embaixo do braço e parto, passos firmes em direção ao desconhecido. Deixo ali naquela esquina, naquela mesa de bar, um pouco de mim. Levo comigo as lembranças e a saudade. Uma história que nem o tempo será capaz de fazer passar.

A dois passos do paraíso

Se o paraíso existe na Terra, estive a dois passos dele. E posso garantir: é espetacular! Fica a apenas duas horas de trem de Florença, rumo ao oeste, mais precisamente na direção do mar da Ligúria. E que belas águas tem aquele mar...
O paraíso terrestre consiste, na verdade, num conjunto de cinco vilas esquecidas no tempo, algumas à beira-mar, outras no topo da montanha, todas inacessíveis por carro. Lá só se chega de trem (ufa!) ou... isto mesmo, caminhando. O melhor é misturar os dois. Para quem parte de Florença, o caminho começa em La Spezia, a última cidade antes do Parco Nazionale delle Cinque Terre. Para quem parte de Gênova, o caminho é no sentido contrário.
Cinque Terre é o nome que ganharam as tais cinco vilas – Riomaggiore, Manarola, Corniglia, Vernazza e Monterosso al Mare. Junto ao silêncio das ondas do mar da Ligúria e ao azul (ou seria verde?) brilhante e forte de suas águas, elas formam um conjunto harmonioso e romântico ao oferecer pequenas casinhas coloridas e o verde da mata, pontuado vez ou outra por parreiras que parecem desafiar a gravidade.
Da estação de trem de Riomaggiore, a primeira visão já faz brotar um “uau!!!”. A ligação entre criação e criador é imediata. E nós, criaturas, ali fascinados, contemplando a visão do paraíso.


O trajeto até Manarola é suave e merece ser feito a pé. Não se preocupe com esforço físico, ele não será necessário. A trilha é pavimentada, horizontal e repleta de amor. Via dell´Amore, é este o nome. Por todo o trecho, que não exige mais do que 15 minutos de caminhada, cadeados colocados pelos turistas em qualquer grade que se apresenta dão o tom de amores passados unidos por todo o sempre.
É, porém, a visão à beira-mar que encanta e apaixona. As curvas do penhasco têm a incrível capacidade de sublimar qualquer medo, provocar um transe inesquecível, fazer o horizonte parecer infinito, como infinito é o amor.
Aproveite cada instante, observe as ondas batendo nas pedras dezenas de metros abaixo, sinta o cheiro do mar, aprecie o brilho do sol nas águas escuras da Ligúria, veja as plantas que ajudam a dar um pouco de vida àquelas pedras brutas do penhasco.

Quando menos se espera, surge Manarola. Até Corniglia, fui obrigado a ir de trem, já que o trecho para caminhada estava temporariamente fechado. Na verdade, o trem me deixou perto de Corniglia. Para atingir a cidade de fato, é preciso enfrentar uma árdua escadaria em “S”. São 382 degraus montanha acima até avistar um “Complimenti. Sei a Corniglia, al centro delle Cinque Terre. Benvenuto”. É o que anuncia a placa aos sobreviventes. Impossível não pensar como os poucos corniglianos conseguem subir e descer até a estação de trem diariamente...
O ar puro, a proximidade das parreiras com as uvas já secas anunciando o fim do outono, a vida tranquila de quem por força do destino ou por sua própria escolha foi viver num pedaço do paraíso recompensam o esforço. Ajudam o corpo a descansar e a alma a se reabastecer para o que virá.
O trecho até Vernazza promete. Antes de entrar no caminho das pedras, literalmente, a placa alerta: uma hora e meia de caminhada. É o momento de escolher, o trem está apitando... Para quem está a dois passos do paraíso, caminhar é preciso. Parto para uma das maiores aventuras da minha vida. Uma longa caminhada, difícil, suada, montanha acima e abaixo (sim, há um sobe-e-desce constante durante o trajeto), passando por trechos de pedra, lama, escadas quase penduradas num penhasco, ao lado de parreiras bem vestidas (uma tela as protege).
Pelo caminho, a solidão é quebrada ora por pequenos lagartos, ora por colegas de aventura que deixam escapar um reconfortante “buongiorno” – ou “bon jour”. Ali, no paraíso, sem outra opção que não a de seguir adiante, a visão privilegiada e única serve de combustível para as pernas, já cansadas.

Para quem, como eu, não tem preparo físico (sim, aqui ele é imprescindível), cuidado: a tentação pode surgir no meio do caminho impondo pensamentos descabidos: “o que estou fazendo aqui?”, “onde estava com a cabeça quando deixei o trem partir?”.
Basta, porém, lembrar que se está no paraíso, e que lá tudo é possível e que as forças da natureza e da vida vão nos guiar para que logo os maus pensamentos desapareçam e o verdadeiro sentido daquilo tudo se restabeleça: a superação, a força que se busca dentro de si, a certeza de viver um momento único da forma mais profunda.
Até que se descem os últimos 200 metros de altitude (não de percurso, que é muito mais longo) numa escada improvisada de pedra, com os pés quase calejados. E Vernazza está ali, com a imagem de uma santa a abençoá-la, a abençoar-nos, os viajantes. Ruas formadas por escadarias unindo casinhas vermelhas, alaranjadas, amarelas, roupas penduradas pela janela, alguns degraus mais até a “rua” principal, onde um bando de turistas aprecia um gelato e descansa, todos igualmente cansados e inebriados.


Vernazza é, talvez, a mais gostosa das Cinque Terre, embora não tenha a praia de Monterosso, contagiante, para fechar a viagem paradisíaca numa tarde de outono que começa a cair. E ver, à beira-mar, o sol se pondo, deitado naquela praia pedregosa, sem nenhum pensamento, livre de qualquer tormento, enquanto uma mãe brinca com seus dois filhos e um casal vive a paixão ali, estendido, dá a certeza de se estar mesmo a dois passos do paraíso.



PS: uma dica aos futuros viajantes é comprar o cartão Cinque Terre Treno antes de iniciar o passeio. Ele literalmente abre o caminho. É vendido na estação de La Spezia, no setor de informações turísticas, facilmente visto logo no desembarque, identificado com a marca do parque. Com o cartão, você pode usar os trens a partir de La Spezia quantas vezes quiser durante o dia e também pode acessar a trilha, entre outras vantagens.

Itália, um reencontro

Sempre soube que minha sonhada viagem para a Itália seria, na verdade, um reencontro. Com a minha história e com a minha fé. Foi com esse espírito que embarquei, foi com esse espírito que cruzei o Atlântico, foi com esse espírito que tive, naquela manhã de 18 de outubro, a primeira visão da terra nostra, “la terra mia”. Eram nada mais do que aqueles amplos quadrados em que se transformam bairros, matas e plantações a alguns milhares de metros de altura. Uma visão quase turva, porém suficiente para colocar meus pés no chão, trazer-me à realidade, provocar um frisson silencioso e um tanto contido. Ensaiei um sorriso solitário. Na mente, um pensamento dominante: “finalmente estou na Itália”.
Viajar por si só é uma experiência fascinante. Quando a ela se misturam os sonhos, o fascínio ganha uma aura mágica e única, indescritível.
Durante os dias em que pisei naquele solo – às vezes sacro, às vezes profano, muitas vezes familiar, outras tantas estranho -, senti todos os sentimentos que Frances Mayes atribuiu a um viajante. “O viajante tem uma inquietação”, disse ela. Talvez seja isso que tenha me levado ao mesmo lugar de onde, há 122 anos, partiu uma senhora chamada Marina Vialle, mãe de Natale Degáspari, pai de Regina Helena, minha mãe.
“Viajar é um assunto peculiar. As pessoas procuram coisas diferentes quando viajam.” Talvez seja isso que tenha me levado às alturas de San Gimignano, no topo de uma montanha amarelada da Toscana, e à beira do mar, na praia pedregosa e tranquila de Monterosso. “Para qualquer um, no entanto, conhecer as pessoas locais, e sair do seu esquema para interagir com elas, vai adicionar enormemente à experiência de viagem. Além disso, aprender um pouco sobre a língua local. A textura do lugar é sentida imediatamente através da linguagem”, ensinou a escritora, autora do best-seller “Sob o Sol da Toscana”. Talvez seja isso que tenha me levado ao Bar Brera naquela tarde, ao lado daquele senhor enfurecido por um capuccino que não viera a seu gosto.
“O senso de busca, o desejo da descoberta e um conhecimento que transcende o foco em atrações, museus e lojas. Quando vejo alguém sentado sozinho num café, completamente envolvido em pensamentos, meditações e questionamentos, sei que aquela pessoa está tendo uma experiência mais profunda do lugar e que aquela viagem vai ser memorável.” Talvez seja isso que tenha me levado àquela banca para comprar a edição do “la Repubblica”, pedido um croissant e um chocolate quente naquele mesmo bar e ficado ali, quase inerte, reflexivo, observador, contemplativo, transcendente, vivendo um momento inesquecível e desejando descobrir o que nem eu sabia.
“A Itália me mudou bastante.” Frances Mayes e eu. Cada um a seu modo, sob o sol da Toscana ou a chuva de Milão, nos penhascos de Cinque Terre ou nas vielas de Siena, nos canais de Veneza ou na arena de Verona. A Itália fez-me mais otimista, mais confiante, mais agradecido acima de tudo. Tudo agora torna-se bônus. Tudo agora ganha um novo sentido. Tudo agora é diferente depois de reencontrar minha história e minha fé.
E pensar que ainda deixei muito por fazer. “A Itália é eternamente nova para mim. Cada temporada que passo por aqui me revela prazeres inesperados”. Eis a confissão de Frances Mayes. Eis a minha profissão de fé. Naquele solo, fui um viajante definitivo. Definitivamente a Itália entrou em minha vida.

PS: quem quiser conferir a íntegra da entrevista da escritora Frances Mayes, cujos trechos (entre aspas) foram reproduzidos nesta postagem, basta clicar aqui.

De frente com os mestres

O primeiro encontro que tive com um grande quadro, daqueles que entraram para a história da humanidade, foi no Museu Reina Sofia, em Madrid. De antemão, eu sabia o que iria encontrar. O museu abriga o maior acervo da pintura espanhola moderna e contemporânea. No prédio do século 18 - que sediou o antigo hospital San Carlos e ganhou uma cara de modernoso após uma adaptação - estão obras de Salvador Dali, Joan Miró e Pablo Picasso, entre outros nomes de relevância.
Às vezes, nos grandes museus, o melhor a fazer é chegar cedo e correr para as obras de destaque. No Reina Sofia, porém, o movimento mais tranquilo permitia seguir a ordem da exposição. Uma ascensão andar a andar. No último piso, ao centro, um quadro gigantesco, três metros e meio de altura por quase oito metros de comprimento, era visto por dezenas de pessoas. Um quadro cinzento, tal qual o episódio que retrata. Um quadro grandioso, sob vários aspectos. Um quadro impactante, sem dúvida. Foi o que senti quando o vi. Um forte impacto fruto das distintas sensações que a obra desperta, somadas à emoção de ver, frente a frente, uma imagem que antes só conhecia nos livros.

“Guernica” é considerada por muitos a grande obra de arte espanhola dos últimos dois séculos, com as figuras pontiagudas e tresloucadas feitas por Picasso simbolizando o horror da Guerra Civil que arrasou a Espanha em meados do último século. Mais precisamente o ataque à vila de Guernica (ou Gernika em basco) em 26 de abril de 1937 por aviões alemães e italianos.
Como uma obra de arte e de denúncia, “Guernica”, o quadro, consegue encantar e chocar. Por seu tamanho, faz quem o vê se sentir engajado naquele momento terrível, como se voltasse no tempo 70 anos e assistisse àquele dilacerar de corpos e gente e casas e tudo que a guerra é capaz de produzir.
Quem vai ao Reina Sofia tem a oportunidade rara de ver também o processo de criação de “Guernica” por Picasso, apropriadamente registrado em fotos por Dora Maar, amante do pintor espanhol. Pode-se ver ainda fotos da Guerra Civil espanhola, completando o quadro.
O mesmo museu abriga também “O Grande Masturbador”, obra-prima de Dalí, retrato do seu mais puro devaneio criativo. Uma pintura um tanto mórbida, extremamente delirante, erótica, surreal enfim. Bela, ainda que seja uma beleza diferente e em certo grau incompreensível (e quem disse que a arte deve ser compreendida?).

Perto do Reina Sofia, cruzando o “paseo”, fica o clássico Museu do Prado. Guardião espanhol da arte mundial, abriga obras de grandes nomes da pintura e escultura, como Da Vinci e Goya. O grande destaque, porém, no centro de uma sala do último piso, é “As Meninas”, de Diego Velázquez. A obra, de 1656, retrata a família de Felipe 4º. Está no Prado desde 1819 após ser salva de um incêndio que atingiu o Palácio Real de Madrid em 1750.
O quadro prima pelos detalhes e tem a incrível capacidade de transportar o espectador para dentro daquela sala, um quarto qualquer do palácio na corte espanhola. Não bastassem os detalhes, chama a atenção o ângulo de visão dos personagens, todos olhando como se observassem o espectador (ou se exibissem para ele) e ao mesmo tempo fossem observados. Pelo casal real, Felipe e Mariana da Áustria, revelados num espelho ao fundo, posando para Velázquez – autorretratado no canto à esquerda, com a cruz da Ordem de Santiago estampada no peito. Um efeito indiscutivelmente espetacular.

O Rijksmuseum, em Amsterdã, é a casa de “A Ronda Noturna”, de Rembrandt. Nesta obra, o pintor holandês mostrou todo o seu conhecimento sobre os efeitos da luz. Pintado entre 1640 e 1642, o quadro retrata a milícia de Frans Banning Cocq e aparentemente não faz jus ao seu título, herdado de críticos, pois a luz incidente indica tratar-se de uma cena diurna.Genialidades à parte (e a obra de Rembrandt é farta nisso), o curioso da “ronda” não está só nos traços do pintor holandês, mas também em mãos alheias. Estas ousaram, numa mudança de prédio em 1715, cortar as laterais (principalmente a esquerda) e a parte superior do quadro, quase tão grande (e notadamente tão grandioso) quanto “Guernica”, a fim de fazê-lo caber no novo espaço. Na inacreditável tesourada, figuras se perderam no tempo.
Tempo que ajudou a eternizar todas essas obras, dando às pinceladas de grandes mestres a marca que só ele é capaz de conferir: a da resistência. Pois só resiste ao tempo quem – e o que – tem algo mais a oferecer. Algo que escapa às mãos e às mentes dos simples mortais.

* As imagens foram retiradas da Internet já que os museus não permitem fotos.

** Como os sites dos museus permitem interessantes passeios virtuais, recomendo um acesso. Para isso, basta clicar nos links desta postagem.

Palácios e castelos - parte 2

Depois de trombar (e foi quase isto mesmo) com o Residenz e o Nymphenburg (leia aqui), dois palácios em Munique, o primeiro castelo em que pisei de verdade na Europa foi o Schloss Burg. Localizado em Burg an der Wupper, distrito de Solingen, perto de Colônia, no estado da Renânia do Norte-Vestfália, ele serviu durante séculos como fortificação e morada dos condes e duques de Berg. Suas raízes remontam ao século 12 e à figura do conde Adolfo 2°, tendo protagonizado momentos históricos até o século 17, quando foi atacado durante a Guerra dos Trinta Anos.
Encravado no alto de um penhasco, como um castelo deve ser, com grandes muros de pedra e um interessante sistema de defesa, como uma fortaleza deve ser, o Schloss Burg tem um aspecto marcadamente medieval. Exibe uma harmoniosa mistura de pedra e madeira, completada pelo telhado formado por uma pedra lascada escura bastante característica na Alemanha. Também são características das construções germânicas as “sacadas”, se é que podem ser assim chamadas, que sobressaem das paredes, com as vigas de madeira escura e o branco de fundo.



O castelo está bem preservado, apesar dos ataques e da deterioração que sofreu. Em seu interior, chama a atenção a intrincada rede de corredores e salas, um sobe-e-desce enigmático e em algum momento assustador dada a pouca iluminação das escadarias, como a que leva à cozinha, no pavimento inferior, lugar de servidão, onde nobre não entrava. Lá estão vários utensílios de época, dando ao visitante a exata noção de como eram preparados os alimentos e servidas as refeições na Idade Média.
Num amplo salão, uma espécie de cômodo para festas com aparência de capela, robustos bancos de uma madeira escura colocam as pessoas frente a frente junto às janelas. Explicação medieval: em tempos sem energia elétrica, aquele era um local apropriado para aproveitar os últimos raios do sol para uma conversa.

Nenhum outro local, porém, consegue ser mais significativo do que era um castelo em plena Idade Média – com todos os conflitos e disputas por terra, riquezas e poder do período – do que os corredores superiores, destinados à guarda. Em espaços diminutos, os defensores da fortaleza (que serviu de palácio de caça, cerimonial e residencial) tinham que se espremer para proteger aquelas muralhas. Era preciso manter as armas a postos em minúsculas frestas, pelas quais pouco se via, apenas o suficiente para avistar a aproximação dos inimigos.
Cada espaço reservado a um soldado é ligado a outro por um longo corredor de madeira, aberto. Chegar até lá exige subir por uma escada de pedra relativamente íngreme e demasiadamente sufocante. Embora os postos de guarda ocupassem posição privilegiada na arquitetura do castelo, no alto de suas muralhas, os guardas não deviam ter privilégio algum na organização social da época. Ao menos é o que indica a estrutura oferecida a eles. Em alguns cantos, uma cavidade com uma pequena abertura funciona como banheiro. Detalhe: a tal abertura que faz as vezes de vaso sanitário dá para o precipício, de modo que a higiene fica restrita a nada.
No pátio interno, algumas armas de épocas distantes chamam a atenção. Dentro, armaduras e desenhos ajudam a contar a história daquele lugar. No pátio externo, imponente e impávida, a figura do arcebispo e conde Engelberto 2° funciona como guardião e anfitrião. Justo ele, assassinado em novembro de 1225 em mais uma das tantas disputas de poder das quais o Schloss Burg foi cenário.



PS: o Schloss Burg foi palco, em 1509, do casamento de João 3° de Cleves, também conhecido como o Pacificador, com Maria de Juliers, filha do duque Guilherme 2° de Berg. Da união nasceu Ana de Cleves, segunda filha do casal e quarta esposa do rei Henrique 8°, da Inglaterra. Foi rainha da Inglaterra apenas entre janeiro e julho de 1540, pois o rei não gostou muito de seus atributos físicos.

* Nas fotos, os amigos Hans e Maria Helena Heflinger. Como fiz foto da foto, algumas imagens exigem o flash.

Uma "gran vía" centenária (ou a via das putas)

Uma das principais artérias de Madrid completou 100 anos em 2010. A Gran Vía ficou no meu imaginário turístico como a “via das putas”. Assim mesmo, na forma consagrada por Gabriel García Márquez, minha forma preferida desde que li, no original em espanhol, “Memoria de mis putas tristes”, um dos clássicos do escritor colombiano, lançado em 2004.
Não foi o livro, porém, que imortalizou aquela grande avenida. Os escritos de García Márquez, aliás, não chegam nem perto de Madrid. A referência às putas tem mais a ver com a minha primeira impressão do que propriamente com qualquer resquício literário ou histórico.
Cheguei à Gran Via pela primeira vez após subir uma rua larga, espécie de calçadão, que havia sido recomendada por uma conhecida. A dica era: “vá até aquela rua cheia de sex shops por todo lado”. Confesso que não fui parar lá atraído pelo mercado do sexo; sequer sabia onde estava até constatar que, à direita e à esquerda, predominavam vitrinas ousadas, eróticas, convidativas. “É aqui a rua que ela me falou!”, pensei de imediato.
Ao chegar à esquina no cruzamento com a grande avenida madrilenha, a placa sobre a escadaria da estação do metrô – com aquele tradicional losango com borda vermelha e um quadrado azul que indica o eficiente sistema de transporte subterrâneo da capital espanhola - ajudou a me localizar: “Gran Vía”.


Foi uma passagem rápida, tempo suficiente para cruzar aquela rua de acesso apressadamente, sem muita atenção (até demorei para notar os tantos sex shops). Já na grande avenida, cuja construção foi iniciada em 4 de abril de 1910 pelo rei Alfonso 13, nada chamou minha atenção e a deixei rapidamente. Não houve, digamos, atração e menos ainda correspondência. O que, convenhamos, é quase uma blasfêmia considerando se tratar de uma das principais vias madrilenhas, famosa em todo o mundo.
E que charme fica a descrição de sua história em espanhol: “La Gran Vía ha sido y es el escenario de los estrenos de cine, de las fiestas elegantes, de la gente chic y la cara más cosmopolita de la ciudad, por donde se han paseado las estrellas de Hollywood y los toreros: Ava Gardner, Manolete y Orson Welles. El escritor americano Ernest Hemingway dijo que era una mezcla ente Broadway y la Quinta Avenida. Otros han preferido compararla a los bulevares de Haussmann en París. Pero la Gran Vía es única e inconfundible, y su historia narra el encuentro de la sociedad española con la vida moderna: los primeros almacenes comerciales, el primer edificio con aire acondicionado, la primera línea de metro, las primeras cafeterías americanas o los primeros establecimientos de comida rápida”.
Dita assim, como consta no site oficial que comemora o seu centenário, a Gran Vía soa imprescindível e inesquecível. No site, aliás, é possível saber um pouco da história dessa grande avenida, ver a evolução com o passar das décadas de sua arquitetura rebuscada em diversos estilos, conhecer os locais para compras e lazer, fazer um passeio virtual. Lá estão, física e virtualmente, o Palacio de la Prensa, o Casino Militar, as Oficinas de Vicente Patuel, o Edificio Metrópolis, o Hotel Atlântico, entre outros prédios de inestimável valor histórico, artístico e arquitetônico.
E lá estão também as putas. Assim foi numa segunda passada pela mesma rua de acesso à Gran Vía. Acompanhado de um casal de amigos, notei olhares estranhos em nossa direção. Minha amiga seguia dois passos à frente. E surgiram alguns tímidos sinais, nem tão discretos a ponto de não os vermos, nem tão abusados a ponto de alguém mais notar. O fato é que havia belas mulheres espalhadas (eram tantas...) pela rua, em frente a lojas e bares, bem vestidas, provocativas. Logo concluí – o que foi confirmado pelo meu amigo com uma breve mexida na cabeça: sim, eram putas. À luz do dia.
“La Gran Vía es el lugar donde tradición y vanguardia se entrelazan, reflejo de una gran ciudad que sigue sorprendiendo a todos aquellos que la visitan.Convertida en el pulmón por donde respira el centro de la capital, la Gran Vía sigue teniendo el aire cosmopolita que la hizo célebre desde su nacimiento. Espejo de la capital, en ella se percibe el rápido pulso de un Madrid intercultural y en constante crecimiento (...)”.
Ainda fui uma vez mais à Gran Vía, numa outra visita a Madrid. Desta vez, os olhares foram mais atentos, mas as putas de outrora já não estavam lá. Ao menos não tão à vista. Melhor assim. Pude olhar com mais atenção para a arquitetura e sentir mais calmamente a pulsação daquela grande avenida, construída para ligar os bairros de Salamanca e Chamberí.
Uma “gran vía” que, se está longe de ter o valor econômico e o glamour da Champs Élysées de Paris ou da Quinta Avenida de Nova York, assistiu a todas as grandes transformações pelas quais a sociedade espanhola passou nos últimos cem anos. E isto não é pouco para uma avenida.



* As três fotos estilizadas acima foram retiradas do site oficial do centenário da Gran Vía; a outra (em que eu não apareço) é do UOL (autoria de Gustavo Cuevas/EFE)

"Pick-up": uma aventura em Washington

Tínhamos chegado a Washington D.C. há poucas horas e já estávamos no National Mall, a longa via que concentra as estruturas do poder nos Estados Unidos. De um lado o Capitólio, a sede do Congresso; de outro o Lincoln Memorial, uma homenagem ao ex-presidente Abraham Lincoln, republicano que governou entre 1861 e 1865. No meio, a Casa Branca.
Decidimos ir até lá caminhando (estava com dois amigos). Foi uma jornada relativamente longa - não há forma melhor de conhecer um lugar do que caminhar despreocupadamente por suas ruas. Só não havíamos previsto a possibilidade de uma mudança no tempo. E no final da tarde, o céu na capital dos Estados Unidos, no Distrito de Colúmbia, foi ficando escuro e cinzento. Até que pequenas gotas de água começaram a despencar.
Num primeiro momento, optamos por enfrentar o que ainda era um chuvisco. Mas a intensidade das gotas foi aumentando e, numa revisão de cálculos (que considerou a possibilidade de um temporal e a distância que deveríamos percorrer a pé), mudamos os planos. Era hora de pegar um táxi. Paramos num cruzamento numa área verde próxima à Casa Branca e começamos a dar sinal. Passou um, passou outro e ninguém se dispôs a pegar aqueles três turistas.
Até que uma alma bondosa, num carrão verde escuro - tipo Mercedes, Jaguar ou (o que é mais próximo da verdade) um Dodge - parou. Entramos. Como havia se tornado hábito, meu amigo foi no banco da frente e a outra amiga e eu sentamos atrás. O motorista tinha uma feição árabe, como também é praxe por aqueles lados.
Enquanto meu amigo informava o nome do hotel, nosso destino, risos soltos se espalhavam pelo carro, fruto das lembranças das histórias da viagem. Sem pestanejar, começamos a fotografar – tudo era motivo para fotos e aquele carrão verde, com estofado verde e maçanetas cercadas por uma madeira estilosa, não poderia ficar sem registro. Tudo isso enquanto o táxi avançava um quarteirão, até o semáforo.
Quando o sinal ficou verde, o nosso taxista cruzou com um colega, também num carrão, que vinha em sentido oposto. Pararam e trocaram rápidas palavras. Em ÁRABE (e este é um detalhe crucial para esta história).
Dali por diante, o que se viu foi uma daquelas situações inusitadas, essenciais em qualquer viagem. O taxista que nos levava, ou que pelo menos pretendíamos que nos salvasse daquele fim de tarde chuvoso em Washington, virou-se e começou a dizer: “pick-up”, “pick-up”, “pick-up”. Assim mesmo, repetidamente. Trocamos olhares desentendidos. Arriscamos algumas traduções, com as versões mais diversas. Nem a nossa amiga, professora de inglês, captou o significado daquelas simples palavras que o taxista insistia em pronunciar. “Pick-up”, “pick-up”, “pick-up!”
A tentativa até então frustrada de comunicação se resolveu quando meu amigo disparou: “Ele está dizendo para sairmos do carro que o outro taxista, amigo dele, vai nos levar”. Saímos. O táxi-carrão verde então se foi. E o colega dele do outro lado da rua também. Definitivamente, não tínhamos entendido nada. Nem sequer a situação que acabávamos de vivenciar. Afinal, como o meu amigo pôde entender o que o taxista falou com o colega se eles conversaram em... ÁRABE?
Foi justamente o que, num repente de luz, eu perguntei. Só então demos conta da nossa burrice triplamente qualificada.
Sem táxi, na chuva, o jeito era rir e seguir tentando. E eis que uma outra alma bondosa, um taxista com aparência meio árabe, meio marroquina, ofereceu-se para o serviço. Durante o relativamente curto trajeto até o hotel, descobrimos que o motorista era do Egito e que estava há anos em Washington. Soubemos também que, via de regra, os taxistas não apreciam fazer trajetos curtos (leia-se por meros dez dólares) na capital dos Estados Unidos – onde, prevê-se, poderosos gastam dinheiro gordo com táxi.
O taxista egípcio explicou que é comum um motorista, durante uma mesma viagem, pegar mais de um passageiro a fim de aumentar os lucros do trajeto. Foi o que havia acontecido na nossa chegada à cidade, quando um jovem canadense dividiu conosco o táxi no caminho da rodoviária ao hotel.
O simpático - e àquela altura caridoso - egípcio nos deixou no nosso destino e se foi. Escapamos da chuva, que não chegou a apertar. Economizamos um pouco de tempo e gastamos alguns dólares. Descansamos as pernas e alimentamos a alma com as risadas que se sucederam ao episódio. E o mais importante: ganhamos uma história para contar por toda a vida (da qual o único registro é uma foto desfocada dentro daquele táxi-carrão verde).


PS: até hoje não descobri o que aquele “pick-up” (ao menos foi o que entendemos) significou. No dicionário, as opções são “pegar, apanhar, captar, adquirir, selecionar, conseguir, catar, arranjar, separar com os dedos, escolher cuidadosamente...”.

* A amiga na foto é a jornalista Kelly Camargo; o outro amigo da história é o publicitário Cristiano Persona.

Uma ponte rumo ao "sweet" Brooklyn

São 1.834 metros que um dia separaram o céu do inferno. Num único dia em 127 anos de história. No fatídico 11 de Setembro de 2001. Naquela manhã, milhares de pessoas tiveram que cruzar a histórica ponte pênsil que liga a ilha de Manhattan a uma das regiões mais charmosas de Nova York, o Brooklyn. Corriam assustadas fugindo de um dos episódios mais selvagens da história contemporânea.A “New York and Brooklyn Bridge”, ou simplesmente Brooklyn Bridge, começou a ser construída em 1869 e foi aberta 14 anos depois, no dia 24 de maio. Em estilo gótico, era a maior ponte suspensa do mundo – e o ponto mais alto de uma Nova York ainda sem os arranha-céus.Com um currículo desses, a Ponte do Brooklyn só podia ter surgido para fazer história. Ela de imediato se tornou ponto de referência na cidade que “nascera” apenas um ano antes do início de sua construção. Sim, a Nova York que conhecemos hoje é fruto da união de seus cinco “boroughs”, ou bairros, que eram cidades independentes – Manhattan, Brooklyn, Queens, Staten Island e The Bronx.Não demorou muito – e não foi preciso muito esforço – para que a nova ponte virasse também referência para os turistas. Todos os anos, milhões de pessoas cruzam a passagem sobre o rio East, a pé ou de bicicleta (há faixas específicas para pedestres e ciclistas). Os carros passam por uma via num pavimento inferior.Na primeira vez que fui a Nova York, um misto de falta de informação e “cansaço turístico” (sim, isto incrivelmente existe!) me fez ver a ponte do Brooklyn apenas à distância, a partir do Píer 17. Na segunda vez, porém, ela me atraiu como ímã. Mal havia descido do avião e já estava caminhando em direção ao City Hall, a prefeitura da cidade, ponto de partida para quem pretende cruzar a famosa ponte. Foi uma caminhada longa e prazerosa, acentuada pelo sol tímido que aparecia por entre as nuvens.

No início da jornada na ponte, no trecho ainda pavimentado, vi à esquerda a também bela – embora menos famosa – e azulada Manhattan Bridge demarcando a região de prédios quase monocromáticos em tom laranja, o Dumbo (sigla para Down Under Manhattan Bridge Overpass, justamente Abaixo da Ponte Manhattan).
Olhar em volta, aliás, é a principal atração para quem se dispõe a caminhar pela Ponte do Brooklyn. À direita, no horizonte, já no caminho de madeira cercado de grades ornamentadas em estilo clássico, repare numa pequenina estrutura. Olhe bem nos contornos e verá uma senhora, mão direita ao alto carregando uma tocha.
Impossível não reparar também no cenário que começa a ficar para trás. Ver Manhattan assim, de longe, dá a noção exata da “selva de concreto” cantada por Jay-Z. E é também um belo contraste com o “doce” Brooklyn que vai se aproximando. Calmamente. Porque a ponte merece ser percorrida vagarosamente.
Com olhos de viajante, você corre um grande risco de se encantar com os grossos cabos de aço que partem das grades laterais rumo à estrutura gótica central, que traz marcado no topo um enigmático “1875”, sinal evidente de sua bem vivida velhice. Logo acima, ventila imponente e solitária a flâmula de listras vermelhas e brancas, com suas estrelas no fundo azul, símbolo do poder.
Simétrica e paralelamente, os cabos se estendem numa perfeita harmonia, tal como harpas gigantes, entoando uma música silenciosa, captada apenas por ouvidos atentos (e dispostos).
Caminhando a partir de suas românticas e charmosas luminárias, você se sentirá cada vez mais envolvido por aquela grande teia até que não mais verá o mundo senão através dela. E assim os prédios de Manhattan ficam ainda mais atraentes, como se envolvidos por uma aura metalizada – e às vezes um pouco enferrujada.



Da metade do caminho em diante, a partir da grande estrutura gótica (que vai se distanciando às suas costas), o cenário na ponte se repete como num espelho. Há, porém, uma diferença substancial: a vizinhança que se aproxima agora é o tranquilo Brooklyn. “How sweet it is!”, anuncia a placa, a mesma que deseja boas-vindas.


PS: o caminho de volta foi feito pelos subterrâneos do metrô.

Palácios e castelos - parte 1

Para quem gosta de história, ir à Europa é como um encontro – às vezes um reencontro. Foi movido por este espírito que pisei no Velho Continente pela primeira vez em 2005. Chegava para um compromisso marcado com o passado. Contava os minutos para encontrar um castelo ou palácio. E eles surgiram em Munique. A capital da Baviera (ou Bavária) soube unir como poucas o antigo e o novo. Integrou de forma harmoniosa passado e futuro, conservação e desenvolvimento. É assim que o Residenz, um palácio cujas raízes remontam ao século 14, sobreviveu encravado em pleno centro da cidade.
O Residenz da atualidade é resultado de uma série de acréscimos feitos ao longo dos séculos por duques, príncipes eleitores e reis da Baviera (esta é a minha forma preferida). Sua origem está no Neuveste, castelo erguido em 1385 no que era então o canto nordeste de Munique. Uma história que vai do duque Stephan 3º (1375-92) ao rei Ludwig 3º (1913-18).

O palácio é imponente e belo visto tanto da Odeonsplatz, na fachada que fica para a rua que leva seu nome, a Residenzstrasse, como de seus jardins, o Hofgarten, na fachada lateral. Para a rua, fica a chamada Residência de Maximiliano; para o jardim, a Ala do Salão de Festas. Nos jardins, pela primeira vez eu vi a famosa simetria verde, pontuada por pequenas flores coloridas. Um jardim em perfeita ordem, com uma espécie de coreto ao centro.
Dentro, tesouros dos nobres da Baviera se juntam a pinturas em quadros e paredes, além dos móveis, todos esnobando brilho, riqueza e poder. Um brilho dourado escondido por grossas - e opacas do lado de fora – paredes. Olhando do exterior, aliás, aquele prédio e sua imponência até poderiam passar como sede de um organismo burocrático qualquer.



Na mesma cidade, eu descobri um outro palácio, mais próximo daqueles que frequentavam meus sonhos. Seu nome: Nymphenburg. Seu caminho é marcado por um longo canal, seco naqueles dias (provavelmente para manutenção, segundo contou nossa guia informal Jussara, a limeirense que mora há anos em Munique).
Cheguei a Nymphenburg no final de uma tarde fria e ensolarada. O sol já descia no horizonte, o que acentuou a magia daquela imagem. Após uma longa e tranquila caminhada, o palácio foi ficando cada vez maior. A sua grandiosidade tornou-se evidente na minha tentativa frustrada de tirar uma foto. E nas 209 fileiras de janelas (isto mesmo, fileiras!) só na estrutura principal. Cem à direita da ala central e outras cem à esquerda, simetricamente dispostas.
Nymphenburg exibe o formato típico de grande parte dos palácios, como o Louvre e Versalhes: uma ala central, duas laterais, fora prédios anexos. Uma capela/igreja integrada à estrutura completa o complexo.



Àquela hora, no cair da tarde, seu conjunto de janelas acentuava o brilho da brancura acinzentada de sua fachada. No jardim frontal, uma enorme fonte enfeita o caminho que leva à grande escadaria de duplo acesso. No “quintal”, estátuas me fizeram parar e refletir. Uma reflexão silenciosa e contemplativa, estimulada por aquela paisagem incrivelmente bucólica numa das cidades mais desenvolvidas do mundo.
Com a mesma sensação, subi a escadaria da direta (tendo como referência quem olha o palácio de frente). Observei cada detalhe, a luminária dourada, a transparência quase ofuscante das portas e janelas principais refletindo sonhos tal qual um espelho. Não entrei (fato do qual me arrependo). Permanecer ali, do lado de fora, deu ao Nymphenburg uma frieza que ele certamente não possui. Afinal, foi erguido para celebrar a vida - no século 17, como residência de verão, após o nascimento de Maximiliano 2º Emanuel, filho do príncipe eleitor da Baviera, Fernando Maria e sua esposa Henriqueta Adelaide de Saboia. Uma celebração real.



* Nas fotos, estou acompanhado dos amigos José Eduardo e Maria Helena Heflinger. A imagem aérea foi retirada do Wikipedia.