Aventuras no... ar (a primeira arremetida)

Por coincidência, as duas experiências mais diferentes que tive em voos foram num mesmo lugar: Nova York. Na mais recente, em setembro de 2009, tive a primeira arremetida da minha vida! Quer dizer, quem arremeteu foi o avião. Sempre tive um pouco de receio dessa situação porque já tinha ouvido relatos de arremetidas como algo um tanto dramático. Como elas não tinham ocorrido comigo, porém, estava “desencanado”. Até que aconteceu.
Estávamos já bem próximos do Aeroporto John Fitzgerald Kennedy, o famoso JFK, visualizando a pista a “olho nu” (ou seja, pelos monitores das poltronas) – pareceu-me que estávamos a uns 200 metros, mas deve ter sido mais, naturalmente – quando de repente, ao invés de suavizar-se cada vez mais até tocar o chão, o airbus da TAM acelerou. Senti a turbina buscando força. Começamos a subir. A pista passou embaixo de nós. Subimos naturalmente, quase que como numa decolagem, mas com menor potência. Subimos, subimos, subimos.
De imediato, o comandante avisou que a aterrissagem tinha sido “descontinuada” (este é o termo técnico da arremetida) a pedido da torre de controle do aeroporto porque uma outra aeronave estava na pista e tinha problemas. O comandante ainda fez questão de frisar que tratava-se de um procedimento normal e seguro. “Daremos uma volta e deveremos pousar em dez minutos”. E assim foi.
Confesso que achei a arremetida curiosa. Não senti medo, embora tenha levado alguns segundos para compreender o que ocorria. “Nossa, minha primeira arremetida”, pensei.
O outro episódio foi um pouco mais traumático. Decolamos de JFK numa noite de setembro de 2007 quando, depois de subir cerca de 1,5 mil metros, o boeing da Continental interrompeu sua ascensão e começou a planar – esta era a nossa sensação. Não mais se ouvia o barulho das turbinas nem sequer sentia-se a potência dos motores. Era um silêncio perturbador.
Como tenho pavor de decolagens, sempre acompanho nos monitores a elevação da altitude e vi que tínhamos parado de subir. Antes de começar a ficar mais nervoso, lembro-me de um amigo afirmar um tanto espantado: “Estamos planando...”. Olhei para a janela e só vi o mar (ou rio, sei lá). Tentei imaginar como seria pousar na água (pousar por otimismo porque provavelmente iríamos cair na água).
Decidi compartilhar meu temor e falei para meu amigo que algo estranho estava acontecendo. Foi a senha para que uma moça – que viajava sozinha – na fileira da frente se virasse e perguntasse se não estávamos subindo. Respondi com um “parece que não”. Ela começou a ficar um tanto apavorada e decidiu recolocar o par de tênis que havia tirado (até hoje não entendi a razão disso, mas...). Não me lembro bem as palavras dela, mas deve ter questionado se o avião poderia cair, etc. Pedimos que se acalmasse (na verdade acho que foi meu amigo que falou porque eu não estava tão calmo assim para recomendar calma a outros).
Os minutos passavam e lá estávamos planando sobre a água em Nova York. Decidi chamar a aeromoça e perguntar o que estava ocorrendo. A resposta foi animadora: “Então (quando falam “então” é porque tem problema à vista), também estávamos (“estávamos” significa a equipe de comissários de bordo) perguntando isso lá atrás. Vou me informar com o comandante e depois falo”. “Meu Deus”, pensei. “Se ela não sabia o que acontecia...”
Mais alguns minutos (acho que foram uns dez no total) e eis que o boeing acelerou fortemente as turbinas - em pleno ar! - e retomou sua subida. Dois mil, quatro, cinco mil... Estávamos subindo! Da cabine de comando, nenhum aviso. Da aeromoça, a seguinte explicação: “acho que tinha tráfego e tivemos que esperar”.
Tráfego? Bom, isso ocorre, principalmente em lugares como Nova York. Mas esperar no céu (ou melhor, esperar depois de decolar e subir 1,5 mil metros) e não na pista eu achei realmente estranho.
Para mim, a torre de controle autorizou indevidamente a decolagem, sem condições de tráfego, o piloto percebeu que poderia haver algum risco (uma colisão?) e segurou o avião no ar, no “muque”, como disse para o meu amigo.

Em tempo: o voo foi tranquilo e aqui estou escrevendo esta história.

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