Simplesmente azul

É incrível como depois de uma viagem excitante pela Costa Leste dos Estados Unidos, foi do ar – ou melhor, do mar – que veio a mais bela imagem que eu já vi. A dez mil metros de altura, a bordo de um Airbus, cruzando os hemisférios, um detalhe começou a chamar minha atenção lá embaixo. O azul do mar começava a mudar.
Justo eu, que costumo não olhar pela janela do avião (confesso que tenho um certo medo de voar), não conseguia mais desgrudar os olhos daquele pequeno espaço visual. Cheguei a me contorcer para ampliar o campo de visão, extasiado pelo que via. E não via nada, nada além do azul do mar. O mar do Caribe.
Já tinha cruzado aquela rota algumas vezes, mas raramente de dia e nunca com um céu tão claro como naquele domingo de setembro. O céu extremamente azul se confrontava com o mar inebriantemente azul. Um azul que passava de escuro a claro, que se misturava, que produzia novos tons. Azul-piscina, azul-turqueza, azul claro, azul escuro, azul. Simplesmente azul.
E de repente um azul invadia o espaço do outro, numa mistura alegre que lembrava os desenhos de Monet com as cores vibrantes de Miró – embora quadro nenhum tenha conseguido até hoje representar o que eu via. Sequer as fotos conseguiram captar aquela beleza. É que mais do que ver, o mar do Caribe me fez sentir. Olhos grudados na janela e uma sensação divina invadindo a alma. A profusão de tons e cores, a beleza daquele mar só podia ser criação divina – ainda que à divindade dê-se o nome de natureza.
Eis que ao azul misturaram-se tons amarelados, brancos. Seriam bancos de areia? Recifes?
Eu simplesmente não acreditava no que via. Depois de tanta imagem e tanta informação, depois das luzes de Times Square e do verde mar de Key West, depois do vermelho da Filadélfia e do verde de Atlanta, era o azul daquele mar que me cegava.

E assim passaram-se os minutos, naquele mar, naquele ar. Aquela imagem me fez descobrir que o paraíso existe. E a sua cor é azul. Simplesmente azul.

Os jardins suspensos de NY

Sou fã de intervenções urbanas (talvez fruto da convivência na república com dois estudantes de arquitetura durante os anos de faculdade em Bauru). Na minha mais recente ida a Nova York, em setembro de 2009, coloquei no roteiro como primeira atração uma visita ao recém-aberto High Line. Trata-se de um parque urbano suspenso, nos trilhos de uma antiga linha de trem desativada em 1980.
Tinha visto uma reportagem na TV sobre o novo parque de NY e, desde então, passei a pesquisar sobre o assunto. Soube que, na época da minha viagem, apenas o primeiro trecho do jardim suspenso da Babilônia moderna que é Nova York estaria pronto. Cerca de dez quarteirões, das ruas 20 até a 11 (ou mais precisamente da 20th St. à 11th St.). O acesso é pela 10ª Avenida (ou pela 10th Ave.) – para quem conhece NY, isso significa deslocar-se até uma das laterais da ilha de Manhattan, o West Side, já que o “coração” do que os turistas costumam visitar fica entre a 5 ª e a 7 ª avenidas. Em outras palavras, significa cruzar uma região menos turística, uma área que anos antes era marcada pela violência. O nome: Meatpacking District. A origem: antigos frigoríficos que funcionavam no bairro, agora desativados (o que dá ao local um certo ar de abandono).
Encarei o desafio de chegar até lá a pé (quem for a Nova York e trocar a caminhada pelos táxis merece uma passagem de volta ao Brasil). Fui em disparada (tinha acabado de chegar e, por não poder fazer o check-in no hotel devido ao horário, estava com todo o dinheiro da viagem no bolso). A caminhada foi um pouco tensa, mas ainda assim prazerosa. E numa esquina existente em qualquer grande cidade, com pichações, cartazes e protestos, restaurantes decadentes e prédios com ares de abandono, vi o acesso ao High Line. Na 20th St.

Mais que o local em si, era a ideia que me atraía. Transformar uma antiga linha de trem - tão comuns nas cidades brasileiras – num parque aberto à comunidade é, sem dúvida, uma iniciativa típica de locais ousados e criativos. Como Nova York.
Quando subi as escadas até o trilho-jardim, a expectativa positiva em relação à ideia se confirmou. E não só a ideia, a realidade também. Já nos primeiros passos, ainda um tanto inebriado (no sentido figurado, registre-se), senti o cheiro do High Line. Pode parecer estranho, mas o fato é que o local cheirava a orvalho. Orvalho misturado a ervas finas, talvez um pouco de boldo, não sei exatamente. O High Line tinha o aroma de um chá. Não, não é exagero. O local desperta sentidos muito mais que meramente visuais.

E visual não falta. Há trechos diversos, feitos por diferentes “designers” (paisagistas, arquitetos, decoradores, tudo isso, sei lá). Do mais rústico ao florido. Os trilhos ainda estão lá em meio à vegetação. Os bancos e espreguiçadeiras são novidade, bem como as árvores, algumas delas emergindo de pequenos vãos no chão. Num dos cantos, alunos de uma escola assistiam a uma aula ao ar livre. Em outro, uma jovem lia um livro calmamente. E eu caminhava. De repente, uma mãe passou empurrando o filho bebê num carrinho. E uma turma de estudantes subia, ruidosamente, as escadarias do acesso oposto ao que eu entrei. Eu já estava na Gansevoort St. A saída (ou talvez a entrada) de um parque que só podia ter surgido mesmo nos trilhos de Nova York. Uma cidade que não cansa de se renovar, de inventar.

Uma gigante de dez anos

A maior roda-gigante do mundo completa dez anos em 2010 – para quem fez as contas, sim, a London Eye marca a chegada do novo milênio. Ela foi um toque moderno no coração mais tradicional de Londres, em frente ao Parlamento, perto do Big Ben e da Abadia de Westminster. Na margem do Tâmisa, não poderia ter abrigo melhor.
A London Eye definitivamente é uma atração que merece ser incluída em qualquer roteiro londrino. Não, ela não tem o valor artístico da Tate Modern e da National Gallery ou o valor histórico do British Museum, mas tem o seu próprio valor. Aliás, talvez seja isso que a torne tão atraente. Ao menos para mim, a London Eye representa um refresco de tudo o que Londres oferece de mais tradicional.
Uma volta na gigantesca roda-gigante dura cerca de meia hora. O movimento é tão suave que basta uma desatenção para que você sequer perceba sua subida e descida. A suavidade ajuda na hora de admirar a paisagem (e haja paisagem!), identificar os pontos turísticos e, claro, tirar fotos. Acredite: dá tempo até para sentar e descansar (para quem não sabe, a cabine é para 30 pessoas, em pé; há um banco central).
Tão importante que tudo isso, porém, é a contemplação. Se Londres é especial no subterrâneo com seu charmoso underground (e o tradicional “Mind the gap”), se é especial nas ruas com sua gente estilosa e modernosa, por que não seria especial do alto? E nada melhor do que a London Eye para ver a capital londrina lá de cima. Duvida? Então experimenta (assim mesmo, para lembrar um antigo comercial de cerveja).
Para quem considera banal uma roda-gigante numa cidade como Londres, encare a London Eye. Tenho certeza que vai rever essa consideração.
E não se assuste com a quantidade de pessoas na fila de compra dos tíquetes ou para entrar na atração. Como as cabines são amplas, muitas pessoas embarcam de uma só vez e a sua hora chegará rapidamente. Talvez você até se depare com um brasileiro como ajudante de embarque (eu me deparei).
Lá no alto, você vai se surpreender com uma rara visão panorâmica, 360 graus, de uma das principais capitais mundiais. Uma visão que torna o “London Eye” um nome mais do que apropriado. Eu, por exemplo, tive a ideia – ao ver as indicações de norte, sul, leste e oeste na cabine - de registrar Londres em seus quatro pontos cardeais. O resultado foi interessante (embora, no lado leste, a imagem tenha sido comprometida pela porta).




Se quiser curtir um pouco mais essa nova atração londrina (sim, nova, numa cidade com mais de mil anos de história, a roda-gigante é apenas uma criança de dez anos), percorra descompromissadamente a região (seria um deck?) onde a London Eye está instalada. Não há nada de especial além de lanchonetes e algumas lojinhas, mas o clima é “cool” (para usar uma expressão que cai bem com Londres). Você provavelmente encontrará muitas famílias com suas crianças correndo para lá e para cá. Se estiver com disposição, vai até achar graça em toda aquela muvuca. Basta lembrar que você está em Londres, na beira do Tâmisa.