Os azulejos de Setembro

Não é raro manifestações tipicamente populares serem mais autênticas do que aquelas encomendadas por governos de plantão. Nem sempre (ou quase nunca), porém, as manifestações do povo aparecem nos roteiros de viagens, que costumam privilegiar os pontos turísticos tradicionais.
Desde que o mês de setembro passou a merecer letra inicial maiúscula quando acompanhado do dia 11, surgiram em Nova York as mais diversas manifestações. No chamado Ground Zero, ou Ponto Zero, onde ficavam as torres gêmeas do World Trade Center, ergue-se há anos um novo arranha-céu. O local dos atentados terroristas transformou-se num estranho – e um tanto frio e bizarro – ponto turístico. Confesso que tive uma sensação estranha ao visitar aquela região.
No Battery Park, um globo dourado - uma das principais esculturas do WTC, danificada pela queda das torres naquela manhã de setembro - ajuda a compor uma homenagem a todos os bombeiros que perderam suas vidas tentando salvar vidas. Lá estão dezenas de bandeiras norte-americanas com os nomes de todos os soldados que o terror transformou em herois nacionais.
Foi, porém, numa caminhada pela região de Greenwich, em Manhattan, que me deparei com a mais simples, autêntica e original lembrança do 11 de Setembro. Foi por acaso – e, portanto, surpreendente. Ia atravessar a rua quando reparei numa cerca repleta do que pareciam ser azulejos decorados. Todos pendurados, um a um.

Admirador de “street art”, uma especialidade de Nova York, não resisti e fui verificar o que era aquilo. Eu havia acabado de descobrir o “Tiles for America”, um painel montado por cidadãos anônimos com referências aos atentados e a todos que se foram naquele dia.
Aquele mural – que não estava em nenhum guia de Nova York, não aparecia em nenhum roteiro de viagem - foi uma das minhas maiores emoções naquela viagem. Uma autêntica expressão artística e histórica, a antropologia construída pelas mãos e pelos corações humanos. Um grito de paz, liberdade e esperança. Era o que pediam alguns dos azulejos. Outro perguntava o que fazíamos naquele trágico 11 de Setembro de 2001. Um outro lembrava algum ente ou amigo que morrera na ocasião. Cada um com sua mensagem, todos com o mesmo sentido. Sob olhares atentos de um outdoor numa parede ao fundo, que magnificamente completava a paisagem.

Estava ali uma combinação que não podia ter sido encomendada por nenhum decorador ou arquiteto a construtor algum. Porque projeto algum poderia garantir tamanha espontaneidade e singularidade.
Não tivesse optado por andar descompromissadamente pelas ruas de Nova York e jamais teria encontrado aquele painel. Decididamente, ele não é a mais imponente das homenagens pós-11 de Setembro. É na simplicidade, porém, que reside a força da sua mensagem. Uma mensagem que vem das ruas, que fica nas ruas, para quem quiser ver. Basta caminhar. Estará logo ali, numa esquina qualquer.



As ruas de Lisboa

Seria possível o melhor de um lugar estar em suas fachadas supostamente decadentes? Em seus prédios abandonados? Em suas janelas antigas, marcadas pelo tempo? Em seus azulejos artisticamente pintados? Sim, é possível. E o nome desse lugar é Lisboa.
Tal qual um ser vivo, a capital portuguesa respira e inspira. Quem disse que as cidades não têm vida? Respira história e inspira histórias. Lisboa tem muita coisa boa, sua comida, sua dança, sua música, sua arte, seus museus, mas definitivamente não seria a mesma sem seus antigos prédios. Eles remontam a uma época que, paradoxalmente, já se foi e nunca deixou de ser. Isto é possível? Em Lisboa é. Como assim? Eis um tipo de resposta difícil de apresentar, fácil de provar. Faça o seguinte: caminhe pelas calçadas, ruelas e vielas, suba os elevadores e desça as ladeiras de Lisboa. Você facilmente – e rapidamente – descobrirá a resposta. Encontrará a resposta.
Descoberta e encontro são palavras apropriadas para quem está (em) Lisboa. Para quem vive (em) Lisboa. Os parênteses não são acaso. Nestas horas, a língua inglesa talvez se saísse melhor com o seu “to be”. Ah, quanta ousadia, blasfêmia! Na cristã Lisboa, naquele solo onde repousam os restos de Camões, naquela terra onde brotaram Pessoa e Saramago, qual o sentido de Shakespeare? Qual o sentido se as calçadas lisboetas emanam poesia?
Lisboa canta. Em ritmo de fado. Lisboa encanta. Enfado? Nunca!

Em Lisboa, sinta o cheiro de suas esquinas, de suas meninas. Cuidado com “la blanca”. Ela também está por lá. Cuidado com a gema, ela engorda!
Lá está o Tejo, ah o Tejo. O princípio de “mares nunca dantes navegados”. Mares que a torre guarda. Que a torre guia. A torre santa. Santo Belém. Santos pasteis. Santos bordeis. “Todo poder aos putos!”
As ruas de Lisboa têm histórias para contar. Histórias de tragédias. Histórias de glórias. Ruas pombalinas, ruas joaninas. Ruas de Pedro, ruas de Maria. Nas ruas de Lisboa, a magia une passado e futuro. Um passado empoeirado nas cobiçadas garrafas de vinho. Um futuro desejado que espera eternamente a volta de um tal dom Sebastião.
Ah, Lisboa, seu sotaque português. Sua língua portuguesa. Gajos e camisolas. Pequenos cafés e quartos de banho. Telemóveis e rotundas. E a distância toda de um oceano a nos separar. E a nos unir. Aventurar-se é preciso. Navegar é preciso. Viver é preciso. Então, viva Lisboa!

Um passeio pelo jardim botânico

Viver experiências. Experimentar novidades. Ingredientes imprescindíveis em qualquer bagagem. Ao menos para mim. Foi assim que, com uma tarde de sobra em Atlanta, após conhecer os principais pontos turísticos da cidade, decidi ir a um local diferente. Movido pela curiosidade e pelo interesse na sensação que citei na abertura deste texto.
A viagem havia sido planejada à exaustão, durante meses. Havia checado todos os lugares para visitar, horários, itinerários, etc. Após tanta pesquisa, e com tempo sobrando até o embarque para o próximo destino, fiz a minha escolha: Jardim Botânico. Já visitei muitos parques, mas nunca estive num jardim botânico propriamente dito.
O lugar era longe, mas o trajeto parecia fácil. Metrô até uma determinada estação e depois ônibus. Contei com a ajuda e a simpatia da motorista do ônibus para entender o sistema integrado de transporte e para descer no ponto desejado, no número 1.345 da Piedmont Avenue. Quando cheguei ao Atlanta Botanical Garden, uma boa e uma má notícia. A boa: além das plantas, o local exibia uma exposição de obras de Henry Moore. A má: o tempo havia mudado e começavam a cair alguns pingos. Naquele momento, confesso que tive dúvida se era a decisão certa me afastar da área turística para um passeio em local aberto e de resultado incerto – afinal, aquela experiência poderia se revelar um fiasco.
Mas vivê-la era preciso. E lá fui. Guia em mãos, comecei a percorrer as trilhas por entre árvores e plantas. De todos os tipos, de todas as cores, de todos os lugares. Fui atrás do jardim das rosas, passei pelo jardim dos cactos, conheci o jardim japonês, andei entre flores e insetos, delirei com a explosão colorida das orquídeas (e como quis que minha mãe estivesse lá para ver tanta variedade da flor que ela mais admira), aventurei-me pela floresta tropical e seus sons misteriosos.

Em todo o caminho, encontrei com Moore, de diferentes formas e tamanhos. Àquela altura, o Jardim Botânico de Atlanta já se tornara íntimo. Eu descobrira seus segredos. Da vitória régia ao arbusto; da planta carnívora aos sapos. Foram horas de caminhada descompromissada, ou melhor, com um único compromisso: admirar o encanto da natureza. E como é encantadora a natureza!
O passeio valeu a pena. Além da beleza, o local proporcionou horas de tranquilidade – e sem que eu as visse passar. Um verdadeiro remédio para a alma. Hoje, tenho a certeza de que os jardins botânicos merecem estar nos roteiros de viagem. E para quem acha que verá apenas plantas, permita-se ouvir a voz que elas emitem, silenciosamente. Descobrirá que as plantas também falam. Falam a voz do coração.

Em tempo: ir ao Atlanta Botanical Garden me permitiu outra experiência que aprecio nas minhas viagens, que é vivenciar o cotidiano do lugar. Foi o que fiz nos longos minutos em que esperei o ônibus de volta. Reparei nos carros que passavam por aquela longa avenida de uma região que me pareceu de classe alta. Afinal, ali havia um condomínio com imóveis valendo mais de um milhão de dólares. E dos carros que passavam, o mais barato foi um Honda Civic. E eu ali, parado, esperando o ônibus...