Uma cidade "tão vasta quanto o mar"

“Quando a vi pela primeira vez, senti-me acima de toda a miséria abjeta que não podemos eliminar (...). Essa impressão permaneceu comigo – embora mais tarde eu tenha percebido que Paris é também um celeiro de ideias e que ali as pessoas tentam tirar da vida tudo que podem. [...] As outras cidades se tornam insignificantes perto de Paris, que parece tão vasta quanto o mar. Ali, sempre deixamos para trás boa parte de nossa vida.”
Vincent van Gogh*

Um gênio das telas, um gênio das letras. Ou alguém há de questionar a descrição sensacional (em todos os sentidos) que Vicent van Gogh fez de Paris numa carta à irmã Wil em 22 de junho de 1888*? Honestamente, a manifestação do pintor holandês é suficiente, encerra por si só a interpretação do pulso parisiense, torna qualquer outro comentário inútil, menor.
Paris é indescritível e surpreendente. Em certo aspecto, assemelha-se ao comercial de um canal de TV a cabo – “se você é romântico, Paris é para você; mas se você é rebelde, underground, punk, hippie, Paris também é para você”. E é nisto que se encontra o seu fascínio.
Confesso que fui a Paris esperando encontrar uma cidade “perfeita”, arrumadinha, repleta de cartões postais feitos para turistas, quase um cenário hollywoodiano. Ela é, sim, um cenário cinematográfico, mas é também um roteiro. E dos bons. Tem personagens, conflitos, diferenças, energia, vida. Que outra cidade abrigaria a perfeição dos seus prédios históricos e as pichações sem fim nos túneis do metrô? Que outra cidade dividiria seus espaços entre madames e cavalheiros em seus passos elegantes com gangues vindas da periferia do mundo? A resposta é a romântica e surpreendente Paris.
Meus primeiros passos na capital francesa foram marcados por sensações ruins (eu sei, isto soa como blasfêmia...). Primeiro, uma exaustiva caminhada da estação de trem até o hotel, puxando uma pesada mala pelas calçadas disformes de Montmartre. Pelo caminho, um protesto estudantil. Depois, já no hotel, a impossibilidade de ir ao quarto, tomar um banho, revigorar-se. De volta à rua, a incompreensão da atendente do metrô, que não falava inglês e exigia uma foto 3x4 para vender um bilhete daqueles que valem para toda a semana.
Naquele momento, aquilo me parecia inacreditável. Mais que isso, inaceitável. Como uma das mais visitadas cidades do mundo não tinha no metrô alguém que entendesse inglês e pudesse vender um bilhete turístico sem burocracias? Fiquei um tanto furioso. Até que um amigo bradou: “Rodrigo, calma, você está em Paris!”.
O sentido daquela frase era mais amplo do que eu pude entender naquele momento. Tinha o sentido tão bem traduzido um século antes por Van Gogh – e que eu só pude compreender com o passar das horas, dos dias. Paris foi me envolvendo (aliás, a cidade é expert na arte da conquista). Até que eu efetivamente me dei conta que estava em Paris. Àquela altura, eu já sentia a cidade, havia estabelecido com ela uma relação íntima e mágica.
E eu estava em Montmartre! O bairro boêmio, por onde andaram nomes como Van Gogh, Renoir, Toulouse-Lautrec, Monet.... Um bairro que abriga uma colina com uma igreja. Imponente, como quem observa aquele ir e vir da cidade. Sacre-Couer, bela arquitetura, uma mistura do branco do mármore de suas paredes com o verde de seus ornamentos desgastados pela ação do tempo.
E pensar que a Sacre-Couer é apenas mais uma, e nem a mais bela, igreja em Paris. E pensar que tem a Notre Dame e a sua grandiosidade, a Saint Sulpice e seus mistérios, a Saint Chapelle e seus vitrais. E olha que nem citei o Louvre, o D´Orsay, a Torre Eiffel, a Champs-Élysées, os Jardins de Luxemburgo, o Arco do Triunfo...
Não citei porque é desnecessário – todo mundo conhece a Paris dos pontos turísticos. O que quero dizer vai além disso. Falo de uma cidade que é única não só pelos seus monumentos, também por causa deles, mas por muito mais além deles. E este muito mais é o que se sente, o que se cheira, o que se saboreia.
Uma cidade que “emana ideias”, como definiu Van Gogh. Uma cidade que só se descobre andando por suas ruas e calçadas, pelos seus subterrâneos, pelos seus becos, cafés e bares, por suas lojas, bistrôs e antiquários. Por sua gente – branca, negra, multicolorida. Pobre e rica. Uma cidade “tão vasta quanto o mar”. Uma cidade que faz as outras se tornarem “insignificantes”. Uma cidade onde inevitavelmente “deixamos para trás boa parte de nossa vida”.
Afinal, ninguém volta de Paris da mesma forma como foi.


* Frase retirada do livro “As mulheres de Van Gogh – seus amores e sua loucura”, de Derek Fell, Verus Editora, Campinas, 2007, p. 110.

Um comentário:

Jota Clowndestino disse...

poxa vida, Rodrigo! que narrativa contagiante! Quero andar esses becos! haha E isso me deu uma idéia que acho que vc vai gostar!
abraço, parabens pelo blog! bacanaaa!