A cidade onde os carros param

Nós, brasileiros, por mais educados que sejamos, não estamos acostumados à civilidade. É como se este vírus não fizesse parte de nossa sociedade, como se não estivesse em nosso DNA (se é que existe um DNA nacional). O fato é que a limpeza de alguns locais e o respeito presente em outros nos... assustam.
Foi isso o que senti, um misto de susto e surpresa, ao caminhar pelas ruas de Zurique, na Suíça. A cidade em si é uma sucessão de surpresas. A mistura da beleza secular com a energia da modernidade. A babel que faz qualquer diálogo soar como uma canção. A diversidade de tipos num país que parece um gigante adormecido. Propositalmente adormecido. Talvez silencioso.
Silencioso. Este é o trânsito de Zurique. Chega a ser incrível como uma cidade de quase um milhão de pessoas possa emanar tamanho silêncio em suas vias. Nada de buzinas acionadas por motoristas apressados, nada de freadas provocadas por condutores enlouquecidos. A paz e o respeito prevalecem. E como estas definitivamente não são características do trânsito no Brasil, qualquer brasileiro terá em Zurique a mesma sensação estranha que eu tive. Uma sensação de inferioridade (ao menos neste aspecto).
Bastaram poucos dias em Zurique para eu enxergar com a clareza da água límpida de um rio a realidade que me cercava: estava diante de um novo paradigma. Lá, os veículos respeitam os pedestres; cá, via de regra, veículos e pedestres não respeitam nada nem ninguém. Os mesmos poucos dias que bastaram para eu constatar esse novo paradigma não foram suficientes para introjetá-lo. A cada esquina, era inevitável parar antes de atravessar a rua – a regra local é que os pedestres sigam, os carros é que param.

A dificuldade de entender essa nova realidade beirou o absurdo de eu provocar uma confusão numa esquina. Sim, consegui tumultuar o tranquilo trânsito de Zurique ao ficar indeciso entre atravessar a rua ou esperar o carro que se aproximava. Eu, obviamente, parei. Ele parou. Eu olhei para o motorista. Ele me olhou. Eu ameacei ir, mas hesitei. Ele ameaçou ir, eu avancei... Só não fui merecidamente ofendido porque estava na Suíça!
E não foi só. A tal dificuldade de entender o novo paradigma causou uma situação inusitada. Foi perto do Museu do Café, o Johann Jacobs Museum. Estava caminhando com um casal de amigos brasileiros e a diretora do museu quando, ao atravessar a rua, o trio brasileiro parou na calçada enquanto a cidadã suíça seguiu despreocupadamente cruzando a rua e mantendo a conversa conosco. Ao se dar conta de que estávamos parados, ela riu. E nós também, com uma certa vergonha.
E teve ainda o dia em que eu caminhava na Limmatquai, uma avenida nas margens do rio Limmat, e avistei uma bicicleta descendo uma ladeira com uma certa velocidade. Aparentemente, o ciclista não estava preocupado em parar no cruzamento com a avenida. Foi quando eu percebi que ele estava certo. Não precisava parar; os carros é que deviam fazer isso. E fizeram.
E não é só o trânsito que oferece um novo paradigma a nós, brasileiros. O “sistema” também. Chamo de “sistema” todo o pensamento local. Que se expressa, por exemplo, no transporte público. Depois de usar um dos bondes pela primeira vez, causou-me estranheza a ausência de uma figura bastante conhecida no Brasil: o cobrador. Na terceira vez, confesso que até brinquei diante da tentação de usar o sistema de transporte sem pagar – havia nos pontos de parada máquinas para comprar o bilhete que ninguém via ficava. Obviamente, comprei o bilhete.
À curiosidade, porém, não resisti. Perguntei ao suíço que nos recepcionou em Zurique (casado com uma brasileira) sobre a ausência do cobrador. Ele me explicou que o funcionário existe, aparece ocasionalmente nos bondes e pede o bilhete. Quem não o possuir paga uma multa pesada, cujo valor não me recordo. O fato de ser uma espécie de funcionário-surpresa é proposital: isso faz com que todos fiquem atentos sempre. Mais que isso, essa figura invisível é o símbolo de um país onde o paradigma é o da confiança – e não o da desconfiança, como no Brasil. “O país confia no cidadão e, enquanto você não der motivo, seguirá confiando; quando você falhar, porém, pagará caro”. Assim falou o suíço.

PS: algumas dessas histórias já tinham sido contadas na postagem anterior sobre Zurique (leia aqui). Com ela tinha outro foco e já é um tanto antiga, decidi escrever especificamente sobre as questões ora abordadas – inspirado pelo livro “Diários de bicicleta”, do músico David Byrne.

Um comentário:

Clarissa disse...

Ótimo relato. Realmente algumas "civilidades" nos assustam. Nos sentimos estranhos ao sermos respeitados, eu também tive esta sensação em alguns locais da Europa que visitei. No metro de Berlim onde não existem catracas, por mais que eu tivesse adquirido o ticket, tinha sempre a sensação de estar fazendo algo errado, por não estar sendo fiscalizada. É triste isso não ser realidade no Brasil, pois afinal é nosso direito sermos respeitados ao atravessar a rua na faixa de pedestres e não ficarmos com medo dos carros...enfim quem sabe um dia tudo muda!
abraço