A primeira noite em Amsterdã

Era noite. Fora um tranquilo voo desde Londres. No aeroporto de Schiphol, a demora do taxiamento do avião provocou-me uma certa irritação. Na alfândega, o policial quis saber para onde eu iria em seguida: “Bruxelas”, respondi. Ele pareceu não compreender. Eu, tampouco. Rindo, um amigo, na fila, decifrou: “ele quer saber o hotel. Mostra o endereço do hotel”.
Amsterdã àquela hora era como uma grande boate. Jovens lotavam o que parecia ser o centro da cidade. Ao menos era o local de efervescência – e como ferve a capital da Holanda, a capital da liberalidade, das moças nas vitrinas e da maconha. Pudera, era noite de sábado – e todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite. No meu caso, o jantar.
O taxista, pele morena e traços árabes, marroquino talvez, nariz egípcio, pontiagudo, pilotava um carro daqueles modernosos e falava ao celular com fone de ouvido. Era um aparelho última geração, daqueles que ainda não tinham chegado ao Brasil. Jovem, contou ter nascido na Holanda, filho de imigrantes (de cuja nacionalidade não me recordo). Ele passava com seu carrão por ruas movimentadas, gente apressada, gente embalada. A cidade estava um pouco escura – ou escuro era o vidro do táxi, tanto faz. Amsterdã combina com escuridão. A falta de luz realça a luz. A pouca luz que brilha nas águas calmas dos canais. A luz vermelha do Red Light District, que indica a mercadoria que ali se oferta. A falta de luz que ajuda a esconder o que Amsterdã faz questão de mostrar.
De repente, o taxista virou à esquerda, entrou numa rua que podia ser chamada de “beco do breu”. Não era exatamente um beco, mas era mais escura do que a habitual escuridão de Amsterdã. O movimento foi cessando. Até que o carro parou diante de uma daquelas inúmeras casinhas estreitas, de três andares, típicas da capital da Holanda. O hotel parecia isso, uma casa. E num certo aspecto era.
Uma rápida subida até o quarto para deixar as malas e dar um tapa na aparência e já estava de novo na rua, agora a pé. Destino: um bar. Objetivos: beber, comer e se divertir (não necessariamente nesta ordem). Afinal, era sábado à noite em Amsterdã, a capital da liberalidade, das moças nas vitrinas e da maconha. Andei um quarteirão e nem sinal do agito. Mais um quarteirão e cheguei no que parecia ser uma avenida. Havia trilhos do bonde. Um quarteirão além e um bar, espécie de pub, surgiu na esquina. Estava lotado e parecia animado, embora não fosse exatamente o que procurava. Uma gente estranha, forte, nórdica, bebia e ria muito.
Caminhei mais um pouco e definitivamente parecia estar muito, muito longe da badalação que tinha visto no caminho até o hotel. A fome apertava, o cansaço batia, era meio tarde, umas dez horas talvez, decidi voltar para a única opção que se apresentou. “Bem-vindo, sou o seu bar”, era o que aquele local de aparência antiga, com vidros que o separavam da rua, parecia dizer. Entrei. Não havia mesas disponíveis. Fui então direto ao balcão - de uma madeira grossa e com algumas poucas ranhuras. Era um bar tipicamente holandês, com um sotaque estranho, incompreensível, meia luz, fumaça de cigarro. Atrás do balcão, um homem louro, alto, 35 anos mais ou menos, e uma loira corpulenta – dois típicos exemplares de Amsterdã.

Na tentativa de parecer simpático, pedi uma cerveja. “Amstel, please”. Para mim, era óbvio: como nada lá lembrava o verde da Heineken, só restava a Amstel. O lemão, eis o que o balconista-proprietário era, um lemão, olhou feio. E respondeu, seco: “Não temos Amstel. Aqui só tomamos esta”. E apresentou-me a Grolsch. “Muito prazer”, pensei. Bela cerveja! Suave sem ser fraca, amarga na medida.
Decidido a tentar romper a péssima impressão deixada por um pedido errado, uma gafe, reparei em dois quadros à minha esquerda. Eram fotos emolduradas. De times de futebol. Camisa vermelha, talvez laranja (a imagem era um tanto antiga), naquela pose típica, seis em pé, cinco agachados. “Ájax”, pensei. Se tem algo em que os holandeses se parecem com os brasileiros é na paixão pelo futebol. Entre as sisudas seleções europeias, eles sempre foram exceção. Possuem um pouco da nossa ginga. Produzem craques. Certamente era o tema ideal para tentar um novo contato. Ainda hesitei, para evitar nova gafe, tentando buscar na memória o nome de algum outro time local. Não, o PSV era de Eindhoven. Convencido, virei-me para o lemão, estufei o peito (para reforçar o ar de conhecedor do assunto) e falei: “É o Ajax?”. Mais um olhar torto. “Não, é o time do bar”. Ah...
Sem mais contatos. Era melhor pensar em algo para comer porque a fome a esta altura emitia sinais cada vez mais fortes. E foi aí que o pesadelo da minha primeira noite em Amsterdã se completou. O tal bar não tinha nada comestível no cardápio além de amendoim e um salgado semelhante a Doritos. Não acreditava que teria que dormir com fome. Não há nada mais irritante do que a fome!
Como me recusei a comer amendoim, sobrou o Doritos. A jovem loira, balconista-esposa do proprietário, abriu uma portinhola, acionou o que pareceu ser um daqueles elevadores de carregar comida e algum tempo depois lá estava a apetitosa porção de... Doritos. Acompanhada de molho de tomate! Acho que nunca comi um salgadinho com tanta volúpia como naquela noite. Confesso que gostei mais do pomarola, que durou pouco. Fui embora com fome.
E assim foi a minha primeira noite em Amsterdã. É, todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite. Eu, ao menos, conheci a Grolsch. E ganhei uma história para contar.

PS: Amsterdã definitivamente não foi dos melhores lugares para comer que visitei. Quem ainda não leu, recomendo o relato sobre os ratos no restaurante. Clique aqui.

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