Uma cidade do século 8

Já escrevi neste blog que conhecer um país, uma sociedade, exige ir além – às vezes muito além – das grandes cidades, das capitais. Os Estados Unidos não são Nova York, a França não é Paris, São Paulo não é o Brasil. Neste sentido, posso dizer que conheço bem a Alemanha. Tive a oportunidade de conhecer o país de norte a sul, de leste a oeste. De Singen, na fronteira com a Suíça, a Munique, a capital da Baviera; de Hamburgo, o grande porto no norte, a Bremerhaven, o pequeno porto no norte; de Colônia e Odenthal, na porção ocidental, a Rudolstadt e Gotha, na parte oriental.
Rudolstadt foi parar no roteiro ao acaso. Estava em Munique com um casal de amigos – o pesquisador José Eduardo Heflinger Júnior, o Toco, e a esposa dele, Maria Helena – sem saber exatamente para onde iria. Numa noite, após um dia todo de passeio com a limeirense Jussara e o grego Iannis, que moram em Munique, abrimos um mapa da Alemanha e perguntamos (na verdade o Toco perguntou) onde poderíamos encontrar documentos sobre a emigração local para o Brasil no século 19.
No mapa, Iannis sugeriu a região da Turíngia, que pertencia à antiga Alemanha Oriental. Na manhã seguinte, GPS acionado, partimos rumo ao desconhecido. Encontramos verdadeiras joias. Após passar por Gotha e Weimar (leia aqui), chegamos a Rudolstadt no final da tarde. Sem saber para onde ir na cidade, uma olhada ao alto indicou um castelo. É onde funcionava o arquivo estatal, segundo apuramos.
O local estava aparentemente deserto, o que conferia-lhe uma certa melancolia. Sensação acentuada pelo clima um tanto gélido e sombrio daquele fim de tarde de outubro. O Schloss Heidecksburg é uma espécie de museu a céu aberto. Seu pátio de pedras desiguais parece ter esquecido seu provável passado de glória – realçado pelo amarelo predominante em suas paredes, com toques de branco, e o contraste com o negro do telhado.

Rudolstadt tinha apenas dois hotéis quando lá estivemos, segundo a escritora Helen, que tal como um anjo surgiu no topo do castelo para nos guiar pela recém-descoberta cidade. Optamos pelo segundo, o Adler Hotel, um prédio de 1612 que numa noite – provavelmente em 1781 - já serviu de hospedagem a Goethe (é o que indicava a placa na sua fachada).
O hotel fica na Marktstrasse, a praça central, na direção oposta à prefeitura (a famosa Rathaus) – que exibe uma torre ao lado de uma espécie de varanda bem ao estilo medieval, cestavada e ornamentada. Uma praça que parecia pertencer a uma cidade fantasma (com um certo exagero, afinal havia a nossa presença e a de alguns outros por ali).
Cada detalhe de cada uma daquelas fachadas ao redor da praça exibia e escondia um charme peculiar. Assim, paradoxal. O que as paredes revelavam, séculos de história, elas mesmas pareciam esconder, histórias.

Rudolstadt à noite ficou ainda mais vazia. Andamos a esmo por suas ruas, às vezes um tanto escuras, e becos. À procura de um lugar para jantar, à procura de conhecer o lugar. Andamos de modo errante. Por ruas que pareciam esconder uma névoa. Até que avistamos uma espécie de trailer. Mais um dos inúmeros locais de comida turca espalhados por toda a Alemanha. Döner kebab (o famoso lanche grego, como ficou conhecido no Brasil), este era o pedido favorito. Lá dentro, um ou dois clientes, além dos dois “chefs”.
Após uma refeição rápida e barata, continuamos nossa caminhada. Àquela hora, Rudostadt lembrava a cidade que deve ter sido quando surgiu em meados do século 8. Além das pessoas no trailer-lanchonete e uma ou outra alma que vagava pela rua, só fomos encontrar vestígios de gente numa construção aparentemente isolada, perto de um rio. Um prédio antigo, com um cartaz que parecia o de um filme antigo. Um cinema. Lotado. E nós, intrusos, entrando sem pedir licença. Uma sala escura, obviamente com um telão, numa cena que mais parecia um daqueles filmes italianos. Uma certa emoção tomou conta de mim.
E a noite caiu. Voltamos ao hotel. Na manhã seguinte, logo cedo, pegamos a estrada. Desta vez com destino certo: Hamburgo. Uma longa viagem. Mas esta é uma outra história.

* A imagem do hotel é do site de divulgação.

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