Uma jornada pela Costa Leste

Foram dez estados, mais o distrito federal (lá chamado Distrito de Colúmbia). Praticamente um dia de viagem, em três etapas. Uma jornada por 2.481 quilômetros pela Costa Leste norte-americana. De ônibus. Pela Greyhound, a famosa companhia de transporte intermunicipal dos Estados Unidos, que conheci em 1990 na primeira viagem ao país. Por algum motivo, o nome daquela empresa e seu logotipo - o tradicional puma - ficaram gravados na minha memória de adolescente. O fato é que, quase duas décadas depois, quando decidi percorrer por terra a Costa Leste, movido por um sentimento de aventura e pelo desejo de ver as paisagens, a Greyhound me veio à mente.
A definição do roteiro foi ao acaso. De certo, apenas o local de partida – Nova York - e o destino final – Miami. Entre um ponto e outro, quase três mil quilômetros e centenas de cidades. Após uma pesquisa, o trajeto foi escolhido: primeira parada, Filadélfia. Segunda, Atlanta. Dois alvos certeiros para quem desejava conhecer um pouco mais da alma norte-americana (se é que isto é possível...).

A viagem de Nova York a Filadélfia é um tanto contraditória. Ao mesmo tempo em que logo se nota o abandono da grande cidade, tem-se a impressão de que ainda não se saiu da megalópole. Só neste curto trajeto, de cerca de uma hora, são três estados – Nova York, Nova Jersey e Pensilvânia. É mais do que devia, é menos do que parece. Aquela região dos EUA abriga um amontoado de pequenos estados.
Mal Nova York fica para trás, a paisagem muda. Os arranha-céus desaparecem de vista. Dão lugar a estruturas industriais e alguns conjuntos residenciais sem nenhuma personalidade. É Nova Jersey. Já perto da Filadélfia, uma breve parada em Cherry Hill, onde só avisto um daqueles outlets que atraem os turistas ávidos por consumo. Quando a primeira capital dos EUA chega, um novo conjunto de megaconstruções surge, guardando (ou escondendo) uma das mais antigas áreas urbanas do país (é lá que está a Elfreth´s Alley, mas isto é assunto para outra postagem...).

As famosas ruas da Filadélfia foram deixadas para trás num ensolarado e agradável início de tarde de domingo. Rapidamente o Greyhound, mais velho do que eu esperava, cruzou as fronteiras estaduais, entrando nas estradas de Delaware. A paisagem industrial foi virando passado. A parada em Wilmington revelou uma cidade pacata como as do interior do Brasil num dia preguiçoso. Isto apesar do movimento portuário no rio, margeado por uma ferrovia (transporte integrado em país desenvolvido...).
A primeira de muitas daquelas pontes arqueadas que se vê nos filmes apresentou-se, imponente, romântica, dando um toque de beleza àquela paisagem naturalmente bela, às vezes deturpada pelas mãos do homem e seus prédios, ferros e chaminés.
Calmamente, o rio Christina invade a cidade (ou a cidade invade o rio?) – Wilmington é circundada também por outro rio, o Brandywine. Na estação, no cruzamento da French com a Front St., um único passageiro, um jovem, com destino à cidade grande, talvez movido por sonhos ou decepções. Na passagem da Market St. sobre o Christina, o Harry´s Seafood Grill convida inutilmente para o almoço. Não há tempo...


No caminho até Baltimore pela I-95 (ali chamada John F. Kennedy Memorial Highway), já no estado de Maryland, a exuberância do rio Susquehanna mostrou-se enfática, emprestando sua opulência às velhas pontes ferroviárias. Um pouco adiante a natureza foi perdendo a luta para o “progresso”, e plantas industriais ressurgiram, até dominarem o cenário completamente nas proximidades da cidade, outrora um marco do desenvolvimento norte-americano, hoje um dos símbolos da crise.
Em meio a aço e concreto, um rosto familiar no alto de um prédio dá as boas-vindas aos visitantes. É o Mr. Pringles, aquele rosto gorducho que estampa as latas das conhecidas batatinhas. Baltimore é uma terra industrial. Cidade relativamente grande. E feia – ao menos para quem a observa assim, de fora. Quase não se vê gente, quase não se vê vida. Até surgir o M&T Bank Stadium, nas margens da baía de Curtis, lotado para mais um desafio da liga nacional de futebol, a NFL.



Silver Spring é a outra face de Maryland. Nada de indústrias, nada do desumano concreto cinza. Ruas tranquilas, gente alegre, caminhando, pais e filhos, famílias felizes numa bela tarde de domingo. Um verdadeiro festival ainda que sem música. Na Fenton St., carros de um lado, pessoas de outro. Fechada ao trânsito, a via transforma-se num imenso calçadão, numa região de compras numa cidade que, se não exibe uma personalidade forte, ao menos mostra-se viva.

E eis que vão surgindo casinhas vitorianas, uma ao lado da outra, e cada vez mais, numa mistura curiosa do vermelho de seus tijolos com o verde de seus jardins. Elas anunciam a chegada ao centro do poder político americano, talvez mundial, a cidade sonhada por George Washington, homenageado com um grande obelisco. A capital dos EUA, longe dos círculos do poder, mostra-se muita mais uma cidadezinha do interior do que outros tantos lugares interioranos.
Pela janela, um mar de lápides brancas, perfeitamente ordenadas como ondas, ali à distância desprovidas de humanidade, mistura-se aos riscos bem desenhados em estilo neoclássico do Thomas Jefferson Memorial, na lagoa Tidal Basin. São a periferia e o centro de uma cidade nascida para mandar. Washington D.C.



Despedi-me da capital com uma bela vista do rio Potomac e de um monumento ao nada (assim apelidei aquelas três pontas erguidas, desconhecidas numa cidade com grandes monumentos). Adiante, uma jornada de duas horas. Um trajeto pelo qual apareceram novas pontes e novos rios, ora caudalosos, ora rasos e pedregosos, e até um camping, lotado daqueles motorhome - símbolos da classe média norte-americana.



Já no estado da Virginia, Richmond foi um ponto de parada e transição. Parada para descanso. Transição da luz para a escuridão. Era final de tarde e o sol caía no horizonte. Foi a última cidade daquele trecho vista ainda durante o dia. Em frente ao grande Diamante, o The Diamond, a casa dos Braves, o time de baseball local, na longa North Boulevard, eu parecia ser o único disposto a vagar pela calçada. Vez ou outra um carro desafiava minha solidão, vigiada de longe pelo grande índio espiando sobre o muro do estádio.
Os jardins perfeitamente aparados e ricamente coloridos da estação rodoviária enfeitavam uma plantação de máquinas de jornal. Dei uma folheada no Richmond Free Press. Na manchete, Barack Obama e seu polêmico discurso para os estudantes.

Daí em diante, já noite, os lugares foram simplesmente passando. Na Carolina do Norte, Rocky Mount e Raleigh pareciam cidades-fantasma em meio à escuridão e ao vazio das ruas. Em Charlotte, no mesmo estado, as luzes revelaram um conjunto de prédios, indicando uma cidade grande e aparentemente pujante.

De volta à estrada, pouco vi. A Carolina do Sul passou no breu e rendi-me ao sono. Ao lado de muitos (i)migrantes: era isto que pareciam meus companheiros de jornada. Gente simples, de uma classe média baixa que pouco se vê nos destinos turísticos norte-americanos, muitos “chicanos” e negros, alguns viajando em família, com trouxas de roupa e comida. Gente que carrega no rosto as marcas do trabalho, como constatei numa parada durante a madrugada num posto já no estado da Geórgia.
Atlanta surgiu no horizonte junto com o amanhecer. Mostrou-se, logo cedo, movimentada, com pessoas e veículos indo e vindo. Uma cidade rica, que sediou a Olimpíada de 1996. A partir daí, o último trecho da viagem foi à noite, o que fez Tifton entrar na lista das cidades que simplesmente passaram.
Ultrapassada a fronteira da Flórida, um novo cenário se impôs, quase como mágica: palmeiras agora acompanhavam a viagem, insistentemente. E resquícios de pântano apareciam aqui e ali, no meio da rodovia e debaixo da ponte.

No “sunshine state”, o sol nasceu no caminho até Orlando, onde um esquilo se alimentava com tranquilidade na estação rodoviária. Um pouco adiante, uma placa atiçou o desejo: Disney World à frente. O Greyhound, porém, virou à esquerda, rumo a Kissimmee – cidadezinha daquelas que parecem ter apenas duas avenidas que se cruzam.



Em West Palm Beach, o clima litorâneo predominava. Passaram ainda Ft. Pierce e a vizinha mais famosa Ft. Lauderdale, a “Veneza da América”, onde além de carrões nas vias pavimentadas, lanchas e iates congestionam os canais. Todas com arranha-céus de gosto duvidoso, pretensos símbolos da opulência da região, terra do “jet set” mundial, mas que pouco ou nada combinam com a paisagem ao redor.
E no meio de uma tarde de sol forte e céu azul, o Greyhound fez sua última parada numa área de Miami longe do glamour que fez esta cidade famosa. Numa estação distante do mar – cujas ondas eu experimentaria horas depois.


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