De frente com os mestres

O primeiro encontro que tive com um grande quadro, daqueles que entraram para a história da humanidade, foi no Museu Reina Sofia, em Madrid. De antemão, eu sabia o que iria encontrar. O museu abriga o maior acervo da pintura espanhola moderna e contemporânea. No prédio do século 18 - que sediou o antigo hospital San Carlos e ganhou uma cara de modernoso após uma adaptação - estão obras de Salvador Dali, Joan Miró e Pablo Picasso, entre outros nomes de relevância.
Às vezes, nos grandes museus, o melhor a fazer é chegar cedo e correr para as obras de destaque. No Reina Sofia, porém, o movimento mais tranquilo permitia seguir a ordem da exposição. Uma ascensão andar a andar. No último piso, ao centro, um quadro gigantesco, três metros e meio de altura por quase oito metros de comprimento, era visto por dezenas de pessoas. Um quadro cinzento, tal qual o episódio que retrata. Um quadro grandioso, sob vários aspectos. Um quadro impactante, sem dúvida. Foi o que senti quando o vi. Um forte impacto fruto das distintas sensações que a obra desperta, somadas à emoção de ver, frente a frente, uma imagem que antes só conhecia nos livros.

“Guernica” é considerada por muitos a grande obra de arte espanhola dos últimos dois séculos, com as figuras pontiagudas e tresloucadas feitas por Picasso simbolizando o horror da Guerra Civil que arrasou a Espanha em meados do último século. Mais precisamente o ataque à vila de Guernica (ou Gernika em basco) em 26 de abril de 1937 por aviões alemães e italianos.
Como uma obra de arte e de denúncia, “Guernica”, o quadro, consegue encantar e chocar. Por seu tamanho, faz quem o vê se sentir engajado naquele momento terrível, como se voltasse no tempo 70 anos e assistisse àquele dilacerar de corpos e gente e casas e tudo que a guerra é capaz de produzir.
Quem vai ao Reina Sofia tem a oportunidade rara de ver também o processo de criação de “Guernica” por Picasso, apropriadamente registrado em fotos por Dora Maar, amante do pintor espanhol. Pode-se ver ainda fotos da Guerra Civil espanhola, completando o quadro.
O mesmo museu abriga também “O Grande Masturbador”, obra-prima de Dalí, retrato do seu mais puro devaneio criativo. Uma pintura um tanto mórbida, extremamente delirante, erótica, surreal enfim. Bela, ainda que seja uma beleza diferente e em certo grau incompreensível (e quem disse que a arte deve ser compreendida?).

Perto do Reina Sofia, cruzando o “paseo”, fica o clássico Museu do Prado. Guardião espanhol da arte mundial, abriga obras de grandes nomes da pintura e escultura, como Da Vinci e Goya. O grande destaque, porém, no centro de uma sala do último piso, é “As Meninas”, de Diego Velázquez. A obra, de 1656, retrata a família de Felipe 4º. Está no Prado desde 1819 após ser salva de um incêndio que atingiu o Palácio Real de Madrid em 1750.
O quadro prima pelos detalhes e tem a incrível capacidade de transportar o espectador para dentro daquela sala, um quarto qualquer do palácio na corte espanhola. Não bastassem os detalhes, chama a atenção o ângulo de visão dos personagens, todos olhando como se observassem o espectador (ou se exibissem para ele) e ao mesmo tempo fossem observados. Pelo casal real, Felipe e Mariana da Áustria, revelados num espelho ao fundo, posando para Velázquez – autorretratado no canto à esquerda, com a cruz da Ordem de Santiago estampada no peito. Um efeito indiscutivelmente espetacular.

O Rijksmuseum, em Amsterdã, é a casa de “A Ronda Noturna”, de Rembrandt. Nesta obra, o pintor holandês mostrou todo o seu conhecimento sobre os efeitos da luz. Pintado entre 1640 e 1642, o quadro retrata a milícia de Frans Banning Cocq e aparentemente não faz jus ao seu título, herdado de críticos, pois a luz incidente indica tratar-se de uma cena diurna.Genialidades à parte (e a obra de Rembrandt é farta nisso), o curioso da “ronda” não está só nos traços do pintor holandês, mas também em mãos alheias. Estas ousaram, numa mudança de prédio em 1715, cortar as laterais (principalmente a esquerda) e a parte superior do quadro, quase tão grande (e notadamente tão grandioso) quanto “Guernica”, a fim de fazê-lo caber no novo espaço. Na inacreditável tesourada, figuras se perderam no tempo.
Tempo que ajudou a eternizar todas essas obras, dando às pinceladas de grandes mestres a marca que só ele é capaz de conferir: a da resistência. Pois só resiste ao tempo quem – e o que – tem algo mais a oferecer. Algo que escapa às mãos e às mentes dos simples mortais.

* As imagens foram retiradas da Internet já que os museus não permitem fotos.

** Como os sites dos museus permitem interessantes passeios virtuais, recomendo um acesso. Para isso, basta clicar nos links desta postagem.

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