Palácios e castelos - parte 2

Depois de trombar (e foi quase isto mesmo) com o Residenz e o Nymphenburg (leia aqui), dois palácios em Munique, o primeiro castelo em que pisei de verdade na Europa foi o Schloss Burg. Localizado em Burg an der Wupper, distrito de Solingen, perto de Colônia, no estado da Renânia do Norte-Vestfália, ele serviu durante séculos como fortificação e morada dos condes e duques de Berg. Suas raízes remontam ao século 12 e à figura do conde Adolfo 2°, tendo protagonizado momentos históricos até o século 17, quando foi atacado durante a Guerra dos Trinta Anos.
Encravado no alto de um penhasco, como um castelo deve ser, com grandes muros de pedra e um interessante sistema de defesa, como uma fortaleza deve ser, o Schloss Burg tem um aspecto marcadamente medieval. Exibe uma harmoniosa mistura de pedra e madeira, completada pelo telhado formado por uma pedra lascada escura bastante característica na Alemanha. Também são características das construções germânicas as “sacadas”, se é que podem ser assim chamadas, que sobressaem das paredes, com as vigas de madeira escura e o branco de fundo.



O castelo está bem preservado, apesar dos ataques e da deterioração que sofreu. Em seu interior, chama a atenção a intrincada rede de corredores e salas, um sobe-e-desce enigmático e em algum momento assustador dada a pouca iluminação das escadarias, como a que leva à cozinha, no pavimento inferior, lugar de servidão, onde nobre não entrava. Lá estão vários utensílios de época, dando ao visitante a exata noção de como eram preparados os alimentos e servidas as refeições na Idade Média.
Num amplo salão, uma espécie de cômodo para festas com aparência de capela, robustos bancos de uma madeira escura colocam as pessoas frente a frente junto às janelas. Explicação medieval: em tempos sem energia elétrica, aquele era um local apropriado para aproveitar os últimos raios do sol para uma conversa.

Nenhum outro local, porém, consegue ser mais significativo do que era um castelo em plena Idade Média – com todos os conflitos e disputas por terra, riquezas e poder do período – do que os corredores superiores, destinados à guarda. Em espaços diminutos, os defensores da fortaleza (que serviu de palácio de caça, cerimonial e residencial) tinham que se espremer para proteger aquelas muralhas. Era preciso manter as armas a postos em minúsculas frestas, pelas quais pouco se via, apenas o suficiente para avistar a aproximação dos inimigos.
Cada espaço reservado a um soldado é ligado a outro por um longo corredor de madeira, aberto. Chegar até lá exige subir por uma escada de pedra relativamente íngreme e demasiadamente sufocante. Embora os postos de guarda ocupassem posição privilegiada na arquitetura do castelo, no alto de suas muralhas, os guardas não deviam ter privilégio algum na organização social da época. Ao menos é o que indica a estrutura oferecida a eles. Em alguns cantos, uma cavidade com uma pequena abertura funciona como banheiro. Detalhe: a tal abertura que faz as vezes de vaso sanitário dá para o precipício, de modo que a higiene fica restrita a nada.
No pátio interno, algumas armas de épocas distantes chamam a atenção. Dentro, armaduras e desenhos ajudam a contar a história daquele lugar. No pátio externo, imponente e impávida, a figura do arcebispo e conde Engelberto 2° funciona como guardião e anfitrião. Justo ele, assassinado em novembro de 1225 em mais uma das tantas disputas de poder das quais o Schloss Burg foi cenário.



PS: o Schloss Burg foi palco, em 1509, do casamento de João 3° de Cleves, também conhecido como o Pacificador, com Maria de Juliers, filha do duque Guilherme 2° de Berg. Da união nasceu Ana de Cleves, segunda filha do casal e quarta esposa do rei Henrique 8°, da Inglaterra. Foi rainha da Inglaterra apenas entre janeiro e julho de 1540, pois o rei não gostou muito de seus atributos físicos.

* Nas fotos, os amigos Hans e Maria Helena Heflinger. Como fiz foto da foto, algumas imagens exigem o flash.

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