A dois passos do paraíso

Se o paraíso existe na Terra, estive a dois passos dele. E posso garantir: é espetacular! Fica a apenas duas horas de trem de Florença, rumo ao oeste, mais precisamente na direção do mar da Ligúria. E que belas águas tem aquele mar...
O paraíso terrestre consiste, na verdade, num conjunto de cinco vilas esquecidas no tempo, algumas à beira-mar, outras no topo da montanha, todas inacessíveis por carro. Lá só se chega de trem (ufa!) ou... isto mesmo, caminhando. O melhor é misturar os dois. Para quem parte de Florença, o caminho começa em La Spezia, a última cidade antes do Parco Nazionale delle Cinque Terre. Para quem parte de Gênova, o caminho é no sentido contrário.
Cinque Terre é o nome que ganharam as tais cinco vilas – Riomaggiore, Manarola, Corniglia, Vernazza e Monterosso al Mare. Junto ao silêncio das ondas do mar da Ligúria e ao azul (ou seria verde?) brilhante e forte de suas águas, elas formam um conjunto harmonioso e romântico ao oferecer pequenas casinhas coloridas e o verde da mata, pontuado vez ou outra por parreiras que parecem desafiar a gravidade.
Da estação de trem de Riomaggiore, a primeira visão já faz brotar um “uau!!!”. A ligação entre criação e criador é imediata. E nós, criaturas, ali fascinados, contemplando a visão do paraíso.


O trajeto até Manarola é suave e merece ser feito a pé. Não se preocupe com esforço físico, ele não será necessário. A trilha é pavimentada, horizontal e repleta de amor. Via dell´Amore, é este o nome. Por todo o trecho, que não exige mais do que 15 minutos de caminhada, cadeados colocados pelos turistas em qualquer grade que se apresenta dão o tom de amores passados unidos por todo o sempre.
É, porém, a visão à beira-mar que encanta e apaixona. As curvas do penhasco têm a incrível capacidade de sublimar qualquer medo, provocar um transe inesquecível, fazer o horizonte parecer infinito, como infinito é o amor.
Aproveite cada instante, observe as ondas batendo nas pedras dezenas de metros abaixo, sinta o cheiro do mar, aprecie o brilho do sol nas águas escuras da Ligúria, veja as plantas que ajudam a dar um pouco de vida àquelas pedras brutas do penhasco.

Quando menos se espera, surge Manarola. Até Corniglia, fui obrigado a ir de trem, já que o trecho para caminhada estava temporariamente fechado. Na verdade, o trem me deixou perto de Corniglia. Para atingir a cidade de fato, é preciso enfrentar uma árdua escadaria em “S”. São 382 degraus montanha acima até avistar um “Complimenti. Sei a Corniglia, al centro delle Cinque Terre. Benvenuto”. É o que anuncia a placa aos sobreviventes. Impossível não pensar como os poucos corniglianos conseguem subir e descer até a estação de trem diariamente...
O ar puro, a proximidade das parreiras com as uvas já secas anunciando o fim do outono, a vida tranquila de quem por força do destino ou por sua própria escolha foi viver num pedaço do paraíso recompensam o esforço. Ajudam o corpo a descansar e a alma a se reabastecer para o que virá.
O trecho até Vernazza promete. Antes de entrar no caminho das pedras, literalmente, a placa alerta: uma hora e meia de caminhada. É o momento de escolher, o trem está apitando... Para quem está a dois passos do paraíso, caminhar é preciso. Parto para uma das maiores aventuras da minha vida. Uma longa caminhada, difícil, suada, montanha acima e abaixo (sim, há um sobe-e-desce constante durante o trajeto), passando por trechos de pedra, lama, escadas quase penduradas num penhasco, ao lado de parreiras bem vestidas (uma tela as protege).
Pelo caminho, a solidão é quebrada ora por pequenos lagartos, ora por colegas de aventura que deixam escapar um reconfortante “buongiorno” – ou “bon jour”. Ali, no paraíso, sem outra opção que não a de seguir adiante, a visão privilegiada e única serve de combustível para as pernas, já cansadas.

Para quem, como eu, não tem preparo físico (sim, aqui ele é imprescindível), cuidado: a tentação pode surgir no meio do caminho impondo pensamentos descabidos: “o que estou fazendo aqui?”, “onde estava com a cabeça quando deixei o trem partir?”.
Basta, porém, lembrar que se está no paraíso, e que lá tudo é possível e que as forças da natureza e da vida vão nos guiar para que logo os maus pensamentos desapareçam e o verdadeiro sentido daquilo tudo se restabeleça: a superação, a força que se busca dentro de si, a certeza de viver um momento único da forma mais profunda.
Até que se descem os últimos 200 metros de altitude (não de percurso, que é muito mais longo) numa escada improvisada de pedra, com os pés quase calejados. E Vernazza está ali, com a imagem de uma santa a abençoá-la, a abençoar-nos, os viajantes. Ruas formadas por escadarias unindo casinhas vermelhas, alaranjadas, amarelas, roupas penduradas pela janela, alguns degraus mais até a “rua” principal, onde um bando de turistas aprecia um gelato e descansa, todos igualmente cansados e inebriados.


Vernazza é, talvez, a mais gostosa das Cinque Terre, embora não tenha a praia de Monterosso, contagiante, para fechar a viagem paradisíaca numa tarde de outono que começa a cair. E ver, à beira-mar, o sol se pondo, deitado naquela praia pedregosa, sem nenhum pensamento, livre de qualquer tormento, enquanto uma mãe brinca com seus dois filhos e um casal vive a paixão ali, estendido, dá a certeza de se estar mesmo a dois passos do paraíso.



PS: uma dica aos futuros viajantes é comprar o cartão Cinque Terre Treno antes de iniciar o passeio. Ele literalmente abre o caminho. É vendido na estação de La Spezia, no setor de informações turísticas, facilmente visto logo no desembarque, identificado com a marca do parque. Com o cartão, você pode usar os trens a partir de La Spezia quantas vezes quiser durante o dia e também pode acessar a trilha, entre outras vantagens.

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