Itália, um reencontro

Sempre soube que minha sonhada viagem para a Itália seria, na verdade, um reencontro. Com a minha história e com a minha fé. Foi com esse espírito que embarquei, foi com esse espírito que cruzei o Atlântico, foi com esse espírito que tive, naquela manhã de 18 de outubro, a primeira visão da terra nostra, “la terra mia”. Eram nada mais do que aqueles amplos quadrados em que se transformam bairros, matas e plantações a alguns milhares de metros de altura. Uma visão quase turva, porém suficiente para colocar meus pés no chão, trazer-me à realidade, provocar um frisson silencioso e um tanto contido. Ensaiei um sorriso solitário. Na mente, um pensamento dominante: “finalmente estou na Itália”.
Viajar por si só é uma experiência fascinante. Quando a ela se misturam os sonhos, o fascínio ganha uma aura mágica e única, indescritível.
Durante os dias em que pisei naquele solo – às vezes sacro, às vezes profano, muitas vezes familiar, outras tantas estranho -, senti todos os sentimentos que Frances Mayes atribuiu a um viajante. “O viajante tem uma inquietação”, disse ela. Talvez seja isso que tenha me levado ao mesmo lugar de onde, há 122 anos, partiu uma senhora chamada Marina Vialle, mãe de Natale Degáspari, pai de Regina Helena, minha mãe.
“Viajar é um assunto peculiar. As pessoas procuram coisas diferentes quando viajam.” Talvez seja isso que tenha me levado às alturas de San Gimignano, no topo de uma montanha amarelada da Toscana, e à beira do mar, na praia pedregosa e tranquila de Monterosso. “Para qualquer um, no entanto, conhecer as pessoas locais, e sair do seu esquema para interagir com elas, vai adicionar enormemente à experiência de viagem. Além disso, aprender um pouco sobre a língua local. A textura do lugar é sentida imediatamente através da linguagem”, ensinou a escritora, autora do best-seller “Sob o Sol da Toscana”. Talvez seja isso que tenha me levado ao Bar Brera naquela tarde, ao lado daquele senhor enfurecido por um capuccino que não viera a seu gosto.
“O senso de busca, o desejo da descoberta e um conhecimento que transcende o foco em atrações, museus e lojas. Quando vejo alguém sentado sozinho num café, completamente envolvido em pensamentos, meditações e questionamentos, sei que aquela pessoa está tendo uma experiência mais profunda do lugar e que aquela viagem vai ser memorável.” Talvez seja isso que tenha me levado àquela banca para comprar a edição do “la Repubblica”, pedido um croissant e um chocolate quente naquele mesmo bar e ficado ali, quase inerte, reflexivo, observador, contemplativo, transcendente, vivendo um momento inesquecível e desejando descobrir o que nem eu sabia.
“A Itália me mudou bastante.” Frances Mayes e eu. Cada um a seu modo, sob o sol da Toscana ou a chuva de Milão, nos penhascos de Cinque Terre ou nas vielas de Siena, nos canais de Veneza ou na arena de Verona. A Itália fez-me mais otimista, mais confiante, mais agradecido acima de tudo. Tudo agora torna-se bônus. Tudo agora ganha um novo sentido. Tudo agora é diferente depois de reencontrar minha história e minha fé.
E pensar que ainda deixei muito por fazer. “A Itália é eternamente nova para mim. Cada temporada que passo por aqui me revela prazeres inesperados”. Eis a confissão de Frances Mayes. Eis a minha profissão de fé. Naquele solo, fui um viajante definitivo. Definitivamente a Itália entrou em minha vida.

PS: quem quiser conferir a íntegra da entrevista da escritora Frances Mayes, cujos trechos (entre aspas) foram reproduzidos nesta postagem, basta clicar aqui.

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