A Toscana existe

Todos os adjetivos possíveis já devem ter sido utilizados para descrever a beleza da Toscana na literatura, turisticamente ou não. Ainda assim, a região não para de seduzir quem a visita pela primeira ou enésima vez.”
Pedro Carrilho (Itália, “Folha de S. Paulo”, Viagem, 16/6/2011)

As cores, o clima, os sabores. Só quem tem contato com a Toscana entende o que fez a escritora Frances Mayes largar tudo para viver sob aquele sol. Encravada na região centro-norte da Itália, a Toscana é o berço da arte, do Renascimento. É a terra da uva e do vinho. É onde uma parte importante da história italiana, da nossa história, desenrolou-se. De Firenze a Siena, de San Gimignano a Lucca.
Este texto poderia terminar aqui e você já teria motivos suficientes para conhecer essa região. No entanto, é preciso dizer mais. A Toscana merece mais. Aquelas montanhas amarelo-esverdeadas, com as cores e o aroma das uvas e das olivas, emanam uma magia encantadora. Sob a luz do sol, aquelas cores adotam um brilho indescritível. Reluzente tal qual ouro.
Olhados ao longe, das curvas tortuosas das estradas toscanas, os vinhedos formam caminhos que parecem levar ao olimpo. São como ondas no mar. Geram espumas de um sabor ímpar, apreciadas em todo o mundo. Os vinhos da Toscana formam com o queijo pecorino e o salame um conjunto harmonioso, especial. Saúde e sorte combinadas de modo perfeito nas refeições.
Depois, que tal um sorvete? Que seja o da Gelatería Pluripremiata, eleito por duas vezes o melhor do mundo, na pequena e reservada San Gimignano, terra das 14 torres no topo da colina Val´Elsa. Torres vistas ao longe, sombreadas, como um brinquedo de tijolinhos que fez a infância de muitos. Ah, San Gimignano, suas ruas de pedras vermelhas, suas paredes de pedras bruscas, sua muralha secular são um mergulho no tempo, num tempo que parou séculos atrás, quando eram muito mais numerosas as torres.
As pedrinhas vermelhas também colorem o centro histórico de Siena, cidade milenar que mantém a tradição secular do Palio e que se gaba de ter o primeiro banco do mundo ainda em atividade e de ecoar ares de democracia quando isto estava distante das cidades-estado italianas. Cidade que almejou a riqueza ao se ver encravada na rota Roma-Firenze e que disputou fama com os florentinos.
Ah, os florentinos. Que sorte a deles! Viram florescer em suas terras o que de mais iluminado a arte produziu, o Renascimento. Firenze (ou Florença, como queiram) é o berço de um tal Leonardo e um certo Miguel, o Buonarroti. De Donatello e Rafael e tantos outros. Berço natalício de alguns, berço artístico de todos.
Andar pelas ruas de Firenze é encontrar com essas figuras em corpo (como nas esculturas de David, a original e suas cópias) e em alma (como ao ver o menino francês no alto da Piazza Michelangelo apreciando o Duomo e rabiscando numa folha branca traços quase divinos). E, tenha certeza, estes encontros são inevitáveis e imprescindíveis – não creia que os clichês (turísticos, no caso) sempre serão ruins, há muito de original ao se deparar com as marcas deixadas ali por homens que ajudaram a mudar a nossa visão de mundo, a transformar a visão do mundo. A originalidade consiste em buscar, dentro de si, os motivos que o tocam – e cada um terá os seus.
E por mais que Firenze seja inevitavelmente o lugar da arte de Michelangelo e Da Vinci, ela é também a cidade às margens do rio Arno, cujas águas estampam uma beleza singular, colorida à luz do dia, brilhante à luz da lua. Ela é, de alguma forma, a essência da Toscana, uma terra que guarda segredos e revela tesouros, que cresce e se preserva como uma donzela, uma “bella dona”.
Firenze é o centro urbano de uma região marcadamente rural. A Toscana, um lugar onde o sol brilha mais forte só para realçar a beleza das flores, onde a chuva cai mais límpida só para fazer brotar as formas mais belas de vida. Um lugar para chamar de seu, ainda que à sua volta existam milhares de turistas. A Toscana convida à intimidade e ninguém terá vivido verdadeiramente a essência deste pedaço de chão – seria profano chamá-lo de sagrado? - sem estabelecer ali uma relação umbilical.
Sim, a Toscana existe. Que sorte a nossa!

PS: texto originalmente escrito para a revista “Máxima News”, da jornalista Rosiane Tank.

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