Aventuras pelas estradas alemãs

Dirigir em outro país é um desafio e uma aventura. Numa viagem pela Europa em 2005 com um casal de amigos, decidimos alugar um carro, já que cruzaríamos a Alemanha de cima a baixo (ou de baixo para cima, como preferir). De início, definimos as funções de cada um: meu amigo José Eduardo Heflinger Júnior seria o motorista, eu o auxiliaria olhando mapas e o GPS e a esposa dele, Maria Helena, ficaria responsável por observar as placas e checar eventuais traduções no guia turístico.
Também decidimos respeitar todos os limites de velocidade. Afinal, antes da viagem vários colegas nos alertaram para a eficiência e a rigidez da fiscalização de trânsito na Alemanha. “Passei um pouco da velocidade e um policial surgiu do nada. Eles aparecem quando a gente menos espera”, contou um. “Uma vez levei uma multa e quase fiquei sem dinheiro”, falou outro. Policiais de surpresa, multas em euro, outra língua, melhor mesmo respeitar as regras com rigor!
Obviamente, tínhamos ouvido também sobre a fama das estradas alemãs. “Você pode correr quanto quiser, é uma maravilha!”, alardearam alguns. De fato, as chamadas autobahns (as vias expressas) não possuem limite de velocidade em condições normais. Já nas estradas vicinais e vias de menor circulação, as restrições existem da mesma forma que no Brasil.
Nossa aventura automobilística começou em Singen, uma pequena cidade localizada logo após a fronteira com a Suíça. Era manhã de domingo e a locadora de veículos abriu só para nos receber – a reserva havia sido feita no Brasil. Lá estávamos numa cidadezinha do interior, numa loja com três funcionários que pouco entendiam o inglês – e nós nada falávamos de alemão... Era apenas o primeiro obstáculo.
Pegamos o carro tentando decifrar o GPS. Partimos em direção a Munique, um trajeto de pouco mais de 250 quilômetros. Após algum tempo na estrada, nossa amiga “Maria”, a moça do GPS (ou melhor, a voz portuguesa do GPS), indicou a existência de um lago à frente. Alguns quilômetros adiante a estrada acabou e nos vimos à beira do lago Bondensee (o lago de Constança, que faz a divisa – não definida – entre Alemanha, Suíça e Áustria). O primeiro pensamento foi: “E agora, este tal GPS não funciona!”. Logo vimos que havia uma balsa e a travessia do Bondensee era mesmo parte do trajeto.
Mais um obstáculo superado, encontramos finalmente uma autobahn. Cautelosos, optamos pela faixa central. Assim, assistíamos a um desfile de Mercedes, BMW e uns carrões da Volks passarem a quase 200 km/h (ou mais), roncando seus motores. E nós a 100, 120 km/h no máximo – isto quando não apareciam estranhas placas. Sim, placas estranhas surgiram. Traziam caracteres cinza indicando velocidade reduzida (normalmente 60 km/h), cortada por traços paralelos. Nessas horas, nosso motorista não titubeava: tirava o pé do acelerador e seguíamos em ritmo lento enquanto os carrões passavam, agora com a impressão (lógica) de que estavam ainda mais velozes. Trafegávamos quilômetros até que uma nova placa surgisse mudando a velocidade.
Em outra ocasião, numa espécie de estrada vicinal, apareceu uma placa que quase nos fez parar. Havia duas indicações de velocidade, normalmente 50 e 100 km/h, e algumas faixas abaixo de cada número. Como pretendíamos evitar multas e complicações com a temida “polizei”, optávamos sempre pela menor velocidade. E assim seguíamos por quilômetros.
Tudo transcorreu devagar e na dúvida até encontrarmos uma limeirense casada com um grego. O casal mora há muitos anos na Alemanha e nos ajudou a entender as estranhas placas. Aquela com linhas paralelas na verdade indica o fim da velocidade restrita indicada (ou seja, pista livre). A outra indica a velocidade para tanques de guerra (nós, brasileiros, não temos conflitos armados como herança cultural, daí nem cogitarmos qualquer aspecto ligado a isso, mas na Europa as guerras são algo fresco na memória e presentes em muitas regiões).
Sim, trafegamos lentamente porque fomos turistas de primeira viagem.
No decorrer do caminho, também vimos placas duplas, uma indicando velocidade e a outra com os dizeres “bei Nässe” e o desenho de um carro sobre um piso escorregadio. Neste caso, fomos salvos pelo guia turístico: a velocidade valia em caso de piso molhado (“quando molhado” era a tradução das duas palavras).
As autobahns alemãs têm uma outra característica curiosa: geralmente não possuem alças de acesso às cidades menores. Tem-se apenas uma estradinha que cai direto na rodovia. Isso implica, muitas vezes, em ter que parar o carro no meio da pista para fazer a conversão. Num certo trajeto, deparamo-nos até com um semáforo. Sinal vermelho: paramos! Curiosamente, outros carros passavam. Atrás, alguns buzinavam. Logo começamos a estranhar a demora para a abertura do sinal - fora os veículos que ignoravam o “vermelho”. Temerosos, porém, ficamos parados por longos minutos até que uma alma bondosa, num carro ao lado, baixou o vidro e avisou que não precisávamos respeitar o semáforo. Assim, pudemos seguir viagem.
Claro que, trafegando tanto pelas famosas autobahns, não podíamos deixar de experimentar a tal velocidade livre. No longo caminho que nos levou a Hamburgo, em dado momento nosso motorista acelerou a 160 km/h. Na faixa central, porque ao lado os carrões ainda passavam voando! Ele ainda soltou a mão do volante e o carro seguiu, firme e seguro. Pois outra característica das rodovias alemãs é a precisão dos traçados. Longas retas, poucas subidas e descidas, curvas geometricamente desenhadas de modo que o carro praticamente vai por si só.
Ah, não há pedágios nem buracos, a sinalização é perfeita e vimos obras de melhorias em muitos trechos (bancadas pelo governo).
Foram vinte dias na estrada cruzando a Alemanha de norte a sul. A cautela exacerbada nos livrou das multas, mas nos rendeu buzinadas irritadas (várias) dos motoristas alemães e alguns "micos". Ao menos acumulamos histórias para contar. Rimos de todas elas, é verdade. E aprendemos a falar “Ausfahrt” (“saída”, no caso de rodovias) de tantas placas que vimos com essa indicação. Tratando-se de alemão, aprender uma palavra é algo significativo...!



PS: na foto com a Maria Helena e eu, numa rua de Munique, nosso “companheiro” de viagem. A outra foto foi feita durante uma parada para abastecer num posto alemão.

O celestial Duomo de Milão

O mia bella Madonnina che brilli da lontano
tutta d'oro e piccolina, tu domini Milano
sotto di te si vive la vita, non si sta mai con le mani in mano
tutti cantano "lontano da Napoli si muore"
ma poi vengono qui a Milano
Giovanni D'anzi

Raras vezes uma visão provocou uma sensação imediata de êxtase como a que tive ao subir os degraus da estação de metrô em Milão, na Itália, rumo ao exterior. Impossível conter o “Uau!!!” que, súbito, tomou minha alma e escapou pela boca. Aquela edificação inacreditavelmente bela surgiu suntuosa à minha frente. Estava ali à minha disposição (e à de milhares de outros turistas, é verdade...). A catedral de Milão (ou simplesmente Duomo) é das construções mais fantásticas que já conheci. A brancura aparente de seu mármore, em contraste com o céu azulado, realçou a magnificência daquela visão.
O Duomo é uma obra-prima da arquitetura. Em estilo predominantemente gótico, sua construção foi iniciada no século 14 e só terminou oficialmente mais de 400 anos depois. Logo de cara, chama a atenção a quantidade de agulhas em sua fachada. São centenas delas, tão marcantes que parecem dominar toda a parte frontal do templo (embora estejam apenas no telhado). Sobre as mais altas, figuras sacras parecem se equilibrar delicadamente. Em destaque, num dourado reluzente, a figura da Madonnina do Perego repousa absoluta e imponente desde 1774, como que a observar e abençoar a cidade, seus moradores e visitantes.
As esculturas também se destacam na fachada, incluindo as gárgulas (que, descobri num dia de chuva, servem como pontos de escoamento da água). Há imagens de toda sorte, com faces angelicais, com o terror estampado no rosto, com o olhar voltado para o céu, com os rostos inclinados para baixo... E não são só figuras celestiais e humanas; há flores e frutos, laços, rosáceas, flores-de-lis, tudo de uma riqueza artística inquestionável.
As portas, gigantescas e com rebuscadas esculturas decorativas em relevo, exibem um verde-escuro poderoso. Elas, por si só, já dão o recado que os templos góticos costumam transmitir: o da pequenez humana diante da grandeza de Deus. Nas esculturas, cenas bíblicas, como a do Cristo morto, tal qual na cruz, e imagens da história local. Todas merecem ser olhadas de perto, com calma, uma a uma. O trabalho chama ainda mais atenção pela dureza do material – o bronze.
Logo acima da porta principal, a inscrição “Mariae Nascenti” (em português, a “natividade de Maria”) aparece dominadora, uma clara indicação da reverência da cidade e do templo à mãe de Jesus segundo a tradição cristã.
No conjunto, tem-se um belo exemplar da união entre arquitetura, arte e religião, simbolizando tudo o que se pode ter de mais sublime entre a Terra e o céu, entre o concreto e o sagrado, entre a ciência e a fé. Um exemplar que atrai e ofusca a visão, capaz de deixar qualquer ser humano boquiaberto, espantado, crente na capacidade humana de executar maravilhas e na inspiração divina que leva a tais obras. Prostrar-se impassível, silencioso e contemplativo diante de tamanha engenhosidade é um dever físico e espiritual quando se chega à Piazza del Duomo.
  







Se por fora o Duomo já é espetacular, por dentro não é menos que exuberante. São cinco naves ricamente decoradas, do piso ao teto. Vale a pena reparar no colorido dos vitrais, retratando cenas bíblicas e personagens da Igreja; no conjunto de mais de 50 grandes colunas em mármore; no reluzir das velas que, somado à escuridão tradicional dos templos góticos, confere ao ambiente algo divino; nos desenhos no chão de mármore, em tons de preto, branco e vermelho-alaranjado; nas pinturas e tapeçarias assinadas por grandes nomes da arte.
Sua dimensão – cerca de 150 metros de comprimento e 90 de largura - também ajuda a reforçar sua grandeza (que, como a essa altura já se viu, vai muito além das simples medidas). E precisa algo mais?
  






Que tal, então, olhar o Duomo de cima (ou melhor, observar a cosmopolita Milão do alto)? Pois subir no telhado da catedral, pisar em seu teto reclinado de mármore claro (o mesmo de sua fachada), ver de perto suas centenas de agulhas e arcos é possível. E não é preciso sequer sofrer com infinitos lances de escada; basta pegar o elevador. O passeio pelo telhado do Duomo é uma atração à parte (a única, aliás, pela qual se paga).
De cima, a Piazza del Duomo mostra sua beleza de forma mais harmônica, já que pode-se vê-la em seu conjunto. Lá do alto, tão próximo daquela bela arquitetura, chama a atenção a precisão do conjunto da obra, as combinações e repetições de arcadas, figuras e agulhas. Cada detalhe que porventura possa ter escapado à vista até então ali se revela sem escrúpulos. Como as faces desgastadas pelo toque das mãos (e pela ação do tempo) de figuras um tanto macabras, humanas demais para aquele lugar sacrossanto. Como as marcas da poluição e da chuva que tomam conta das paredes e de seus rebuscados relevos e esculturas.
Assim, tão de perto, é inevitável não notar a sequência perfeita de agulhas, uma após a outra, tal como um exército perfilado à espera de seu comandante. Ao brilho do sol no entardecer, elas viram sombras de si mesmas. Lá, junto das agulhas, as flores-de-lis parecem um jardim. E as gárgulas nem são tão ameaçadoras como se supõe.
O que mais se nota, porém, é o sentir. Um sentir diferente, como se estivéssemos mais perto do céu, mais perto de Deus. Como se a lembrança de que se está no teto de uma das maiores e mais belas catedrais do mundo desse a essa experiência um caráter celestial, único e renovador. Lá no alto, no “chão” liso do teto revestido em mármore, sentei e olhei ao redor. Vi uma cidade, vi uma obra de arte, vi a vida plenamente. Com a companhia de tantos outros turistas e dela, a Madonnina do Perego, agora tão perto, brilhante e bela, a nos abençoar.










No topo do mundo

Uma cadeia de montanhas que atravessa a América do Sul em quase oito mil quilômetros de extensão, da Venezuela à Patagônia. Esta é a Cordilheira dos Andes, que tem no monte Aconcágua – com seus 6.962 metros – sua maior altitude. É o ponto mais alto do planeta fora da Ásia. Com atributos assim, os Andes merecem atenção – se bem que é impossível não reparar neles de modo que prestar atenção é quase uma necessidade automática.
Do alto, no avião, os Andes surgem como um obstáculo a ser superado. Até parece, em dado momento, que não será possível superá-lo tamanha a proximidade das montanhas. A sensação é que se pode tocá-las. Olhando do lado, vê-se um e outro pico cujas altitudes chegam a superar a do avião. É uma visão incrível! Na primavera, o pouco da neve que restou acrescenta um branco ofuscante ao tom marrom das montanhas. Um grande bolo de chocolate com cobertura, isto é o que são os Andes.
Conforme se avança sobre as montanhas, pequenos lagos vão surgindo, frutos do degelo pós-inverno. Eles dão cores diferenciadas – e incrivelmente belas - àquela imensidão marrom. Pequenos núcleos habitacionais também aparecem aqui e acolá, o que leva inevitavelmente a uma pergunta: como pode alguém viver ali, quase no topo do mundo?







Encontrar esta resposta exige se aproximar das montanhas. E lá fui eu a três mil metros de altitude até Valle Nevado, famosa estância de inverno chilena que atrai cerca de 20 mil pessoas por dia durante o período da neve, entre o final de julho e o final de setembro (ou começo de outubro quando a temporada de gelo se estende). Chegar até lá exige sacrifício... dos motoristas. São 61 curvas - e só vale contar as que são em 180 graus e em aclive; curvas menos acentuadas não são consideradas. Desnecessário dizer que não se dispõe de nenhum primor de estrada no trajeto (e a preferência é de quem está subindo, sempre).
Desde o início, é perceptível o poder da montanha. Ela domina durante todo o tempo. Seja de baixo, vendo seu topo coberto de branco, seja quando se começa a subir e aparecem os primeiros precipícios. Rapidamente se descobre que é preciso respeitá-la, respeitar seus limites, nossos limites. Quando você se aproxima de ser um andinista (alpinista é quem escala os Alpes), ainda que dentro de um micro-ônibus, tem a noção exata da força da natureza.
Os Andes são uma formação rochosa nova, quase um recém-nascido em termos geológicos. Daí sua altura (os picos maiores são mais novos; os menores, mais antigos). As montanhas surgiram há cerca de 65 milhões de anos como resultado do movimento e do choque de placas tectônicas existentes na região (foi quando a placa oceânica Pacífica “trombou” com a placa continental Sul-Americana). Um belo presente do planeta Terra a nós, humanos.
Conhecer a montanha exige reparar em cada detalhe. A vegetação, por exemplo. Ela é tão variada quanto fantástica e reveladora. Embaixo, vê-se o verde que tenta ser uma floresta. Conforme a altitude aumenta, surgem espaços que parecem pradarias. Pequenas flores amarelas mancham o chão e dão um tom todo especial ao lugar. Também surgem cactos – isto mesmo, uma espécie de cacto diferente, que suporta a neve. Aos poucos, o verde e as árvores vão se tornando mais raros, até desaparecerem por completo. A três mil metros, praticamente nada resiste.
Os animais também são raros, embora se saiba que eles estão por ali. Diz o guia que é possível encontrar nos Andes o puma e o condor, a ave-símbolo do Chile. De cor negra, o condor vive no alto da montanha e tem como característica sua fidelidade. Com suas penas completamente negras e sua grande envergadura de asa (chega a três metros), macho e fêmea vivem como marido e mulher até que a morte os separa. Durante minha subida, um condor deu o ar de sua graça, muitos metros acima dos três mil onde estávamos. Voava caprichosamente, desfilando majestoso sua beleza e sua solidão. Fora isso, o que se vê são cavalos. Em Valle Nevado, um cão solitário dormia tranquilo na beira do nada.
Se olhar os Andes da janela do avião chega a ser mais fantástico do que tocá-lo, há uma experiência que se compara à visão aérea. Experimente ficar em silêncio por alguns instantes. Em completo silêncio (de preferência sozinho e à beira de algum dos abismos que se apresentam ao seu redor). Respire fundo. Sinta o vento bater em seu rosto. Em seguida, feche os olhos e aguce os ouvidos. Então, ouça a montanha.
Você descobrirá que, apesar do mais absoluto silêncio, a montanha fala. E ela ensina lições que você carregará para sempre, lições que o tocarão no fundo da alma. Ali, naquele aparente fim de mundo (ou seria o começo dele?), você se sentirá o mais importante dos homens. Até abrir o olho novamente e perceber que, naquele infinito, você não é ninguém. “Veja como você é pequeno em comparação com as montanhas. Aceite o que é maior, e que você não compreende. (...) Nossas vidas não são a medida de todas as coisas: contemple lugares sublimes como um lembrete da fragilidade e insignificância do ser humano”, já ensinou Alain de Botton em seu “A arte de viajar” (p. 190).
Mas não, não desanime... Você, eu, todos nós somos pequenos quando estamos nos Andes. Nesta hora, lembre-se que você chegou lá! Naquele belo bolo de chocolate com cobertura que você tinha visto lá de cima, da pequena janela do avião.








Herança florentina

"É fácil entender como ele se sentia. Especialmente para aqueles de nós habituados a domínios mais banais, a imanência do antigo, do belo e do histórico em quase todos os aspectos da vida cotidiana exige certo esforço de adaptação.”
David Leavitt em “Florença – Um caso delicado”, p. 32.


Algumas cidades são famosas por sua história. Outras por sua beleza (natural ou arquitetônica). Poucas, porém, conseguem reunir um e outro aspectos, o que as torna especiais. Este é o caso de Florença. Rica em tesouros (financeira e artisticamente), berço do Renascimento na Itália, a cidade cresceu sob a mão forte de uma família: os Médici. Eles promoviam e financiavam as artes, a guerra e a paz, mandavam prender e soltar ao bel-prazer. Para o bem e para o mal, marcaram época - uma época de ouro para os florentinos. Foi o momento em que a cidade se consolidou.
A ascensão dos Médici coincidiu com o Renascimento, um movimento que mudou a história do Ocidente. Grandes nomes da arte e da ciência passaram por Florença, deixando marcas. Grandes nomes do catolicismo (foram seis papas) nasceram ali, fazendo história. E são justamente essas marcas e essa história que tornam a cidade tão singular. Nas fachadas e no interior de suas igrejas, nas pinturas e esculturas de valor imensurável, nas conquistas ao longo dos séculos, na contribuição de seus cidadãos para a matemática, a filosofia, as letras, tudo em Florença é diferenciado.
E se não bastassem presenças marcantes como a do “David” e dos restos mortais de gênios do Renascimento; se não bastassem a arquitetura deslumbrante de Santa Maria del Fiore e do batistério e a imponência do Palazzo Vecchio e do Palazzo Pitti; se não bastasse a história marcada e presente em cada pedaço de chão, Florença ainda carrega os brilhos da Toscana, uma das regiões mais charmosas da Itália. Com seus vinhos e sua gastronomia de sabores e aromas inconfundíveis, com sua natureza colorida e encantadora. E tem ainda o Arno correndo como sangue numa artéria vital, a Piazzale Michelangelo pairando soberana sobre os ares locais, as galerias, as academias e as tantas Marias. Em Florença, cada esquina, cada rua, cada pedra do calçamento tem história para contar.
Em poucos lugares, ciência e religião convivem tão pacificamente (nem sempre, claro, foi assim). Em poucos lugares, o antigo e o novo combinam e se completam tão harmonicamente. Poucos lugares fazem o visitante se sentir tão especial e, ao mesmo tempo, tão insignificante (por mais paradoxal que isto pareça ser – e é). Em Florença, o visitante se sente numa terra abençoada, revolucionária, criativa, vibrante e isto tudo é uma fonte inesgotável de estímulo.
Há séculos, ninguém passa impune pela cidade. Afinal, se alguns lugares possuem momentos especiais, poucos conseguem ser especiais o tempo todo. Este é o caso de Florença. E com tantos atributos, chega a ser um desafio encontrar algum defeito por lá. A horda de turistas? Talvez. A chuva que insiste em cair numa certa manhã? Quem sabe. Busca inútil... Para quê, pois, buscar algum defeito se qualquer que seja ele será muito menos que um detalhe?
Riqueza, beleza e história, eis a herança que os florentinos oferecem ao mundo. Salve, pois, esta terra chamada Florença!


* Texto originalmente escrito para a revista "Máxima News"

As cores da grande cidade

“Nova York, o inacreditável e miraculoso lugar dos lugares, que tinha sido o objetivo de seus corações desde a infância, o fim da estrada das jovens aspirações e dos planos infantis secretos.
(...) os mil estímulos que formavam a onda e o movimento e o estilo brilhantes da vida em Nova York.”
Jack Kerouac*

É impossível imaginar Nova York sem seus sons e suas cores. Sobre os primeiros, já escrevi neste blog (leia aqui). Restam, pois, as cores. E a chamada “Big Apple” é cheia delas. Dos “yellow cabs” (os famosos táxis amarelos) às milhares de luzes da Times Square, sem esquecer o colorido dos grafites, a “street art” que nasceu na periferia da cidade e se espalhou mundo afora.
Por isso, Nova York merece ser vista com atenção. Repare, por exemplo, nas cores dos bairros. Greenwich, SoHo, West Village, D.U.M.B.O., cada canto da ilha de Manhattan tem fachadas com cores características. Acinzentadas, avermelhadas, amareladas. Por isso, caminhar despreocupadamente pelas ruas, de modo errante, é um fascínio visual. Vai-se identificando as áreas por suas características numa cidade que abriga dentro de si várias cidades.



Nova York também tem sua porção verde (ou amarela se for outono). O grande retângulo de 341 hectares que se estende das ruas 59 à 110, criado em 1857 e nomeado Central Park, é um quadro impressionista no meio da selva de concreto. A imensidão verde é melhor vista do alto, mas é do chão que as cores ganham vida, em cada folha, em cada planta. Tons de verde brilham iluminados pelo sol forte do verão; tons de amarelo, bronze e marrom emanam brilho quando o sol já não é mais tão frequente e a temporada de neve se aproxima.
Nas vitrinas e fachadas das lojas, as cores também se multiplicam. Do vermelho marcante da Macy´s aos tons escuros dos vestidos Prada, do colorido da Disney Store à maçã branca da Apple; da reluzente Toys´r´us à atraente FAO Schwarz, o fato é que em Nova York as cores vibram. E quando se chega à Times Square, o colorido assume proporções fora do comum. De dia ou à noite, as cores e as luzes ofuscam a vista. O olhar se perde em meio ao caos.
É naqueles poucos quarteirões, que a imensidão visual da “Big Apple” se revela. Da economia à vida cultural, da política à polícia, o pequeno grande mundo nova-iorquino se faz presente. Nos letreiros incessantes – com números que resumem, para quem entende, a situação econômica mundial - da Dow Jones e Nasdaq; nos anúncios fantásticos, com leões e fantasmas, dos shows da Broadway; das notícias que anunciam quem ganhou e quem perdeu, quem entra e quem sai; dos paineis luminosos com propagandas das grandes marcas mundiais, de tênis a refrigerante, de “fast-food” à informática, o mundo passa por ali. Dessa avalanche visual de Times Square, é absolutamente impossível escapar.






A diversidade de cores característica da cidade surge também nas vestimentas e na tonalidade da pele. Há mais de um século, gente de todo mundo desemboca ali, cada qual carregando sua cultura e suas tradições. Asiáticos, latinos, africanos, europeus, brancos, negros, pardos, amarelos, árabes, judeus, católicos, mórmons... A multicultural Nova York não podia deixar de ser multicolorida. E essa profusão de cores e luzes não podia deixar de invadir a alma de quem a visita. Não tem jeito, não tente escapar, não tente resistir, será em vão. “Welcome to the bright light!”, como cantou Jay-Z. “Lights is blinding”. Quer uma dica, então? Renda-se às cores da cidade, “street lights, big dreams all looking pretty”, “big lights will inspire you”…

* Frase retirada do livro “Cidade pequena, cidade grande”, L&PM Editores, Porto Alegre, RS, 2008, p. 121 (menção citada em outra postagem e repetida aqui propositadamente).

Aos mestres, com carinho

Na história da humanidade, alguns homens e mulheres desempenharam um papel de destaque. Assumiram os riscos de um protagonismo à frente de seus tempos, marcando época, mudando os rumos da sociedade nas mais diversas esferas. Com o tempo, passaram a ser considerados mestres, gênios, visionários. O Renascimento – período que marca o fim da chamada Idade Média e abre a Idade Moderna – foi pródigo em produzir esse tipo de gente, notadamente na Itália, seu berço. Expoentes na arquitetura, pintura, escultura, medicina, astronomia, filosofia, matemática e em tantas outras artes e ciências trouxeram nova luz à humanidade, propuseram novos conceitos, estabeleceram novos paradigmas – muitos dos quais nos acompanham até hoje.
Não há dúvida de que o grande impulso para a ciência e as artes modernas foi dado pelos renascentistas e suas descobertas. Por isso, quando me deparei com os túmulos de nomes como Michelangelo Buonarroti, Galileu Galilei e Nicolau Maquiavel, cedi a um impulso: prostrei-me diante de cada um deles e curvei-me em sinal de reverência.
Os restos mortais destes grandes homens estão na Basílica de Santa Croce (da Santa Cruz), em Florença, uma das cidades-berço do Renascimento. Trata-se de uma igreja de estilo franciscano, cuja origem data do século 13. Sua fachada, embora marcada por ricos ornamentos e esculturas em mármore, torna-se modesta diante da Basílica de Santa Maria Del Fiore, a principal da cidade e distante dali apenas algumas quadras. O interior de Santa Croce é bem modesto. O que destoa mesmo são os monumentos funerários e as obras de arte, tradicionais em qualquer pequena capela italiana.
Famoso por suas descobertas astronômicas, Galileu tem em seu túmulo uma reprodução do sistema solar heliocentrista (com os planetas girando em torno do sol), uma das teorias que defendeu arduamente – e que lhe custou muitas brigas com a Igreja Católica, da qual era fiel. A escultura de seu busto mostra um homem com ar triunfante, rosto virado em direção ao altar, olhando para o alto e segurando um telescópio com a mão direita, enquanto a outra mão repousa sobre alguns objetos.
O túmulo traz ainda duas grandes esculturas de mulheres que simbolizam as atividades do cientista – também matemático, físico e filósofo - nascido em Pisa e morto em Florença. Como ele, as mulheres olham contemplativamente para o alto, mas em direção oposta, uma delas com um dos seios à mostra. O cenário não deixa de parecer irônico, tanto quanto a presença dos restos mortais de Galileu ali, dentro de uma igreja.



O túmulo de Michelangelo (ou Miguel Ângelo) é tão pomposo quanto o do colega astrônomo. Nele, três estátuas femininas – com semblantes tristes - identificam suas artes: a escultura, a arquitetura e a pintura. No alto, anjos parecem guardar e cobrir os restos mortais de um dos maiores nomes da arte em todos os tempos. É autor de obras como o David - guardado ali perto, na Accademia (o original) e na Piazza della Signoria (a réplica, onde estava o original) –, a Pietá (exposta na Basílica de São Pedro, no Vaticano), ambas esculturas, e a pintura da Capela Sistina, também no Vaticano.


Comparando com os demais, o túmulo de Maquiavel é bem simples. Poeta, diplomata e historiador, sua obra mais célebre é “O Príncipe”, um tratado sobre como governar cujos princípios repercutem até os nossos dias. Vem deste livro um ditado que se eternizou (“os fins justificam os meios”), embora seja uma conclusão reduzida e até certo ponto deturpada do pensamento do autor. Também tornou-se célebre a expressão “maquiavélico”, que designa alguém sem escrúpulos, astuto num sentido pejorativo.


Gastei na observação dos túmulos muito mais minutos do que de praxe, resultado inquestionável do fascínio pela história do Renascimento (e daqueles homens em particular) e de uma sensação de dívida, uma eterna dívida da humanidade (da qual eu era, naquele momento, um ínfimo representante) perante aquelas mãos e mentes que construíram obras e pensamentos absolutamente iluminados. Personalidades que foram verdadeiras pontes entre passado e futuro, que experimentaram ousar, ir além.
Diante dos túmulos, uma mistura de admiração e espanto invadiu minha alma. Admiração pelo que aquelas pessoas representaram e ainda representam; espanto pela força que transmitem, séculos depois, suas memórias ali elevadas a uma outra potência, a um outro nível, sabedor que era da presença passos adiante dos restos mortais de três gênios.
Sentimentos que não são exclusivamente meus, como mostrou David Leavitt em seu livro “Florença – Um caso delicado” ao citar a reação de Stendhal após visitar Santa Croce: “Eu estava em uma espécie de êxtase, pela ideia de estar em Florença e pela proximidade dos grandes homens cujas sepulturas eu acabara de ver. Absorto na contemplação da beleza sublime, eu a via de perto, eu a tocava, por assim dizer. Eu havia chegado àquele ponto da emoção onde se encontram as sensações celestiais dadas pelas artes e os sentimentos apaixonados. Saindo de Santa Croce, senti palpitações...; a vida se esgotara em mim, eu caminhava com medo de cair” (p. 31-2). E eu praticamente levitava...




PS: a igreja de Santa Croce possui também um túmulo dedicado ao poeta Dante Alighieri, no entanto seus restos mortais não estão lá, e sim na cidade de Ravenna. Trata-se de uma disputa política histórica, cujo enredo pode ser melhor conhecido aqui.