Em busca da (minha) história

Incluir Vicenza no roteiro de viagem pelo norte da Itália foi, confesso, uma certa teimosia. A cidade está longe dos principais destinos do país. Ainda assim, dispus-me a perder ao menos um dia naquele lugar. Fui atraído pela história. Pela minha história. Fui em busca das raízes. Das minhas raízes. Foi de lá que, em 1888, partiu no navio Independente rumo a Santos uma criança de dez anos chamada Marina Vialle, minha bisavó. Uma aventura rumo ao desconhecido, rumo a um sonho.
Sob uma perspectiva pessoal, é impossível não considerar aquele momento decisivo na história da minha família, na minha história. A mudança de continente representou também uma mudança de vida para aquela criança. Foi no Brasil que ela cresceu, encontrou um trabalho, um lar, um marido. Foi no Estado de São Paulo que ela formou sua família. Foi a Limeira que chegou esta história de origem distante, no espaço e no tempo.
Muita coisa deve ter mudado em Vicenza desde aquele longínquo 1888. Os italianos (e tantos outros imigrantes que aqui chegaram) assumiram os riscos de uma aventura desse porte porque viram nela a melhor possibilidade na luta por uma vida melhor. Deixar a pátria-mãe, ir para uma terra distante, de língua, clima e costumes estranhos, é um desafio gigantesco. Que a família Vialle e milhares de outras decidiram encarar.
Ao mesmo tempo, muita coisa da Vicenza de 2010 já devia estar lá 120 anos atrás. Há muito mais do que isso. A cidade - berço do trabalho de um dos mais renomados arquitetos do renascimento italiano, Andrea Palladio (1508-1580) – guarda um impressionante acervo de palácios. São mais de cem. Um claro indicativo da riqueza de Vicenza durante o Renascimento, quando decidiu se aliar à rica e poderosa Veneza.
O que teria acontecido 300 anos depois para que alguns de seus filhos a abandonassem? Seriam as consequências do duro processo de unificação da Itália, acentuado na segunda metade do século 19? A resposta ninguém sabe ao certo. Esta dúvida, aliás, atormentou-me (num sentido positivo) durante todo o tempo em que estive na cidade. Provocou sentimentos e emoções únicos.


Para muitos “oriundi”, caminhar hoje pelas ruas de pedras antigas de Vicenza é encontrar partes dessas duas histórias, a da cidade rica de Palladio e da cidade pobre dos emigrantes (os que a deixaram). Do ponto de vista sentimental, ao menos para mim, é a cidade pobre que me atrai. Do ponto de vista turístico, porém, os palácios é que chamam a atenção. E são tantos, em tão pouco espaço – no chamado centro histórico -, que fica difícil conhecer um a um.
Fotografá-los, então, é tarefa para profissionais em ruas tão estreitas, históricas, sombreadas, com angulosos raios de sol. Foram erguidos ao longo de quase três séculos, do 15 ao 17. Palazzo Thiene Bonin-Longare, Piovini, Barbaran, Thiene, Palazzo di Iseppo Porto, Trissino-Trento, Valmarana Braga, Chiericati (sede do Museu Cívico, patrimônio da humanidade)... Cada qual com suas peculiaridades, muitos deles com elementos clássicos da arquitetura paladiana.






Muitas também são as igrejas – como, aliás, em grande parte das cidades italianas. Igreja de S. Stefano, de S. Gaetano, de Santa Corona.



No centro de todo esse conjunto, a Piazza dei Signori com o Palazzo della Ragione. Sede da prefeitura, o “palazzo” tem como destaques as colunas projetadas por Palladio em 1549 e o telhado coberto de bronze que lembra um grande barco virado. Esculturas de deuses gregos e romanos, num branco reluzente e monumentalmente instaladas, apontam para o céu fortemente azul. Ao lado, imponente, a torre do século 12, com seus mais de 80 metros rumo ao divino. Na mesma “piazza”, a Loggia del Capitaniato – também obra de Palladio, datada de 1571 – abriga os legisladores locais.



Razão e emoção lado a lado, passado e presente dividindo o mesmo espaço. E ele, Palladio, logo ali ao lado, observando o vai-vem de moradores e turistas, uns e outros fazendo compras na feirinha do século 21, passeando por uma ou outra loja do século 19.
E quando a arquitetura falta, a natureza se apresenta. A ponte San Michele, de 1620, forma sobre o rio Retrone um verdadeiro cartão postal. Imagem esplendidamente bucólica numa cidade do renascimento. O curso da vida que nunca parou em Vicenza. Ainda que muitos de seus prédios aparentem ter parado no tempo. Ainda que muitos de seus filhos tenham escolhido ver o tempo passar em terras distantes.
Um dia, porém, alguém há de voltar. Ainda que isso leve algum tempo.

Um comentário:

marian castro disse...

Ah, Vicenza... cidade peculiar... fresca e perfumada... A-do-ro de montão!!