Lições de Amsterdã

Quem vai a Amsterdã, a capital da Holanda, tem - ainda que não revele - duas curiosidades. São quase dois mitos locais: o consumo legalizado de drogas e as prostitutas nas vitrinas. Eu, obviamente, não releguei minha condição humana e fui satisfazer a curiosidade. Com um misto de ansiedade e medo, confesso. Afinal, as histórias que sempre ouvi davam conta de gente jogada pelas ruas de tanta droga e uma área de prostituição é, digamos, uma área de prostituição em qualquer cidade. Ou seja, uma zona.
Amsterdã, porém, ensina lições. Uma cidade que mistura antigo e novo, tradição e ousadia, que sobrevive às águas, não se renderia afinal aos preconceitos. E assim foi. Durante todo o tempo em que fiquei na cidade, não vi sequer um usuário de drogas em atividade. Não nas ruas. Muito menos gente atirada ao chão. Ainda que tenha estado em frente ao museu da maconha (e, sim, eu o procurei, mas não entrei - pareceu-me inútil), vi muito menos droga do que se encontra em qualquer cidade brasileira. Vi droga nenhuma.
Contudo, Amsterdã tem algo a mostrar. Sim, o uso de drogas é legalizado, o que não significa que se pode sair fumando, injetando ou cheirando livremente pelas ruas. Não pode. Para isso, existem locais específicos, os "coffee shops". Existem vários, facilmente localizados. Neles, o uso de cannabis é liberado. As opções para consumo estão civilizadamente no cardápio.
Não sei dizer como - e se - funciona o tráfico de drogas na Holanda. Produtos mais fortes, como crack e heroína, não estão no menu. Ainda assim, é curioso e interessante se deparar com uma das experiências pioneiras de descriminalização do uso de drogas - tema debatido ainda timidamente no Brasil, um país de forte tradição católica e pentecostal, ao contrário da Holanda, protestante.


Droga e sexo, duas molas propulsoras da história. Dois mercados dos mais rentáveis e movimentados no mundo. E nisso Amsterdã é uma imensa escola. Ir ao bairro da luz vermelha, o Red Light District, é se deparar com a mais cruel imagem de um ser humano como objeto. Objeto de negócio, ali exposto numa vitrina, objeto de desejo, alvo dos olhares e da tentação alheios.
Não sabia exatamente o que esperar. Quase não notei quando lá cheguei, tamanha a quantidade de gente - homens, mulheres, crianças com seus pais, senhores e senhoras - caminhando tranquilamente pelas duas calçadas separadas por um pequeno canal ao longo das quais se estendem uma série de pequenas vitrinas onde se exibem mulheres muito menos belas do que se pode supor. Sob este aspecto, o Red Light é uma decepção até, eu diria. 
Uma previsível reação de espanto deu lugar à risada. Sim, o bairro da luz vermelha revela-se engraçado. E curioso. Lembro bem de ter pensado: "É a cena mais exótica que já vi!". Naturalmente, ver a oferta de corpos femininos em vitrinas, como se fossem laranjas ou bolsas ou quadros, é diferente e insólito, mas não me pareceu nem um pouco agressivo. As mulheres, com seus trajes sumários, comportam-se como mercadorias à espera dos clientes. Assim, pouco se oferecem - e isto é mesmo desnecessário na situação em que se encontram. 
O que quero dizer é que as prostitutas locais (sim, isto é o que elas são) não ficam manifestando suas qualidades com as mãos, boca e outros que tais. Não anunciam vantagens, posições e atividades. Simplesmente esperam, às vezes até parecendo despreocupadas, lixando unhas.
De todas que vi, uma ou duas eram, digamos, mais jovens e esculturais. A maioria eram mulheres, simplesmente mulheres. Basta. Uma delas podia ser considerada inclusive uma jovem senhora. Produtos para todos os tipos e gostos.
Da calçada, turistas observam. Clientes em potencial se aproximam e tentam uma conversa. Sob os olhares de todos. Não vi ninguém entrar (devia ser um dia de movimento fraco). Elas cobravam de 50 a 100 euros, preços que me pareceram adequados. Se o programa é acertado, basta entrar e fechar a cortina da vitrina. Tudo se faz ali mesmo, quase às claras.
Embora mantenham-se aparentemente "comportadas" e "discretas" (sei que isto soa estranho, mas estamos falando da zona...), aquelas mulheres fazem parte de um negócio. Estão ali, antes e acima de tudo, para vender. O próprio corpo. Precisam, portanto, de clientes. Uma delas, do outro lado da calçada, fez um sinal com o dedo indicador em minha direção. Dois movimentos pausados, sensuais, um chamamento - ao qual ignorei. 
Já outra, que arrisquei fotografar, preferiu outro dedo. O do meio em riste, com os demais recuados, para me censurar. Ainda assim, bati a foto - que saiu sem qualidade. Não fiz nova tentativa.
Passados a curiosidade e o medo, pus-me a refletir. No fim, achei tudo aquilo mais honesto, limpo e transparente do que as zonas mundo afora. As mulheres sabem o que querem, os clientes sabem o que querem, os turistas sabem onde estão, as autoridades sabem o que lá existe, todos sabem tudo. Ou quase tudo (porque entre três paredes e uma cortina, nada é proibido. Ou é?).
Definitivamente, Amsterdã ensina lições. 




Registros do Japão

Quando estudava história, as citações de Ocidente e Oriente não passavam de indicações geográficas. Nunca entendi a fundo o que significava uma cultura “invadir” a outra, como ocorreu com os mouros na Península Ibérica. Esta sensação durou até 1999, quando conheci o Oriente, mais precisamente o Japão. Naquele momento, entendi que os termos estudados nos livros representam muito mais do que geografia; são novos paradigmas. É como olhar o mundo de um outro ângulo.
Ao mesmo tempo, estar no Japão pouco mais de 50 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial proporcionou-me vivenciar experiências das quais só se tem notícia nos livros, filmes, etc. Foi como ver uma parte da história da humanidade bem de perto.
A seguir, alguns registros da viagem:
- Tóquio é, como se sabe, uma metrópole. Como tal, em grande parte exibe um estilo de vida ocidental, muito diferente do que se vê pelo interior do país;
- Logo que chegamos, um aviso aos casais: evitar em público demonstrações claras de carinho, como abraços e beijos. Explicação: isto não faz parte da cultura japonesa – “e eles podem ficar com inveja”, brincou a guia;
- Japoneses são discretos e contidos. Você não os verá dando gargalhadas e gesticulando tanto quanto nós, latinos. A educação, aliás, é a mola mestra da sociedade nipônica;
- O Japão é um país machista. Há 13 anos, quando estive lá, maridos ainda costumavam andar um passo à frente das esposas (segundo a guia, essa tradição estava começando a cair em desuso). Cabia a elas também a tarefa de carregar malas, sacolas, etc. Contudo, quando recebiam seus salários, os maridos entregavam todo o dinheiro à mulher;
- A mão de direção no Japão copia o estilo inglês;
- O motorista do ônibus que nos levou do aeroporto ao hotel gostava de acelerar um pouco e fazer manobras um tanto bruscas. Explicação: os japoneses não gostam de se sentir “empregados” de estrangeiros, segundo a guia. Seriam resquícios da guerra?;
- Tóquio é a cidade mais cara que já conheci. Disparadamente! Em nenhum outro local troquei uma Coca-Cola por água devido ao preço;
- Estar no Japão é constatar que, do ponto de vista da alimentação, somos privilegiados. Lá, bananas são vendidas por unidade – e custam caro, cerca de R$ 20 cada (na época). Um melão custava quase R$ 100. Comprar carne é um sonho. Quase tudo é importado, pois o Japão não tem espaço para plantar;
- A refeição mais tradicional que experimentei incluía uma pequena porção de arroz (bem grudento e sem gosto), folhas de repolho e dois espetinhos de peixe. Só. De resto, provei uma pizza e lanches do McDonald´s (que me salvaram, registre-se);
- Na pizzaria, aliás, uma cena curiosa: quando estávamos comendo, o garçom se aproximou com a conta. Demorou um pouco para entendermos: eram 22h e o local teria que fechar. E nós teríamos que pagar e sair. Simples assim;
- Com uma alimentação baseada em peixes, é difícil (quase impossível) encontrar um japonês obeso pelas ruas. Entre os mais velhos, são todos bem vestidos e quietos. Os mais jovens, por sua vez, exibem os visuais mais doidos que já vi. Gostam de cores, roupas, objetos, maquiagem e cortes de cabelo espalhafatosos;
- É comum ver muitos idosos nas ruas. O Japão é um dos países com a maior expectativa de vida no mundo;
- A falta de espaços cria um cenário curioso: qualquer canto de terra vira cemitério. Isto é mais visível do alto da Tokyo Tower. Como na tradição budista os corpos são cremados, uma pequena sobra de terreno é suficiente para sepultar muitas pessoas;
- A terra é tão escassa no Japão que o preço do metro quadrado em Tóquio é exorbitante. Assim, um apartamento de 40 m2 é considerado de luxo. É comum também famílias alugarem um imóvel por gerações por não terem como comprar um;
- Japoneses também são supersticiosos. No hotel, o painel do elevador não trazia o quarto e o nono andares. É que os números 4 (“shi” em japonês, mesma pronúncia para morte) e 9 (“ku”, semelhante a dor ou sofrimento) são considerados de azar;
- Não vi pedintes no Japão. As únicas duas figuras que se assemelhavam aos nossos mendigos, uma delas vista na estação central de trem, eram na verdade homens que fracassaram na vida e preferiram o abandono. Segundo a guia, é quase uma desonra o fracasso. Por isso, as pessoas não aceitam voltar para a família, preferindo viver nas ruas. Seria outro resquício da guerra?;
- As privadas japonesas são verdadeiros eletroeletrônicos. Elas possuem uma espécie de controle remoto lateral com vários botões que ninguém que não conheça os ideogramas locais entenderá para que servem. Um esguicha água quente, outro água fria, outro faz sabe-se lá o quê (e isto é um perigo num vaso sanitário...). Caninhos entram e saem ao toque dos botões. Chega a dar medo! Como todo eletrônico, alguns exemplares são mais equipados do que outros. Em tempo: papel higiênico só em locais ocidentalizados, como nosso hotel.
- As características de um país que teve que se reerguer e ser reconstruído após a guerra estão por toda parte: superação, determinação e organização.

Os murais da Filadélfia

Filadélfia é a cidade das artes. Inspirada por sua história revolucionária (foi lá que se deu o processo de independência dos Estados Unidos) e pela sua condição de Cidade do Amor Fraterno (“City of Brotherly Love”), a principal localidade do Estado da Pensilvânia transpira arte por suas ruas e prédios. Não é à toa que por ali a “street art”, a arte de rua, ganhou espaço e virou até um roteiro turístico – o “Mural Arts Tour”.
Como descreve o site oficial de turismo de Filadélfia, o projeto dos murais engloba as comunidades, organizações populares, órgãos municipais, escolas e entidades. A ideia é “usar o poder da arte e do processo de desenhar nos muros como ferramenta para promover a participação da comunidade, o embelezamento da cidade, demonstração de civismo, prevenção e reabilitação do crime. É a razão pela qual Filadélfia é chamada de ‘Cidade dos Murais’”.
O projeto começou há 25 anos e se tornou um dos maiores do gênero no mundo. Uma pequena ideia que virou uma grande ação. Um quarto de século depois, os visitantes podem experimentar (sim, este é o verbo mais adequado para a arte de rua) mais de três mil murais. Eles estão por toda parte, nas paredes dos prédios e até debaixo das pontes. Misturam vários estilos de grafite. Há desenhos bem detalhados, próximos do que se pode chamar de realismo. Geralmente mostrando aspectos da vida local, apostam na profundidade (herança do renascimento) e na riqueza das cenas e personagens. Há outros mais rudimentares, como o que exibe traços orientais em Chinatown. Em comum, todos mostram um colorido que chama a atenção.
Naturalmente, é quase impossível conhecer um a um. E isto realmente é frustrante! No entanto, a existência de tantas manifestações, espalhadas pela cidade, é a quase certeza de que em algum momento o visitante vai se deparar com uma delas. E isto é fascinante!
Para facilitar a vida dos turistas, o programa “Mural Arts Tour” inclui um minirroteiro, o “Mural Mile”. São 17 pontos de visitação - entre os mais icônicos da cidade - pelo centro de Filadélfia. Tentei seguir o percurso, mas abandonei-o no meio – algo de que me arrependo (meu tempo era um tanto escasso). O trajeto passa pelo bairro chinês, à oeste da área histórica (sentido rio Delaware-prefeitura), e parece mais difícil de seguir do que sugere o mapa disponível no site do programa.
Ainda assim, apesar de ter visto apenas alguns poucos murais (certamente não os mais expressivos), pude sentir a força desse tipo de arte, uma arte que vem das ruas, é feita nas ruas, para as ruas. É, como cita o texto do site do projeto, “um símbolo do poder transformador da arte”. Uma iniciativa que ajuda a contar a história de uma cidade vibrante, a segunda maior da costa leste (perde apenas para Nova York), uma mistura de cidade pequena, cidade grande (à la Kerouac) num único lugar.
Uma arte cuja expressão revela-se em meio ao vai-vem de gente, vendedores, turistas, moradores... As já famosas ruas de Filadélfia são mesmo assim: repletas de vida, repletas de história, repletas de arte. Por isso, estando lá, deixe a preguiça de lado e simplesmente vire a esquina e siga em frente. Caminhe despreocupadamente. Logo um dos murais vai surgir à sua frente. Aí, pare, olhe, aprecie (sem moderação!).








O saguão do hotel

A leitura de Joe Sacco e sua forma criativa e direta de expor - por meio de cenas do cotidiano - as tensões na disputa entre árabes e judeus na Palestina despertou o desejo de refletir sobre os encontros fortuitos proporcionados pelas viagens. Via de regra, quando viajamos, qualquer encontro é novo, revelador de costumes, crenças e pensamentos.
Fazendo estas reflexões, dei-me conta – com certo atraso, confesso – da importância dos hotéis para estes encontros e descobertas. São lugares de passagem por princípio, onde pessoas vêm e vão a todo instante. Queiramos ou não, nos hotéis sempre nos deparamos com conversas alheias, modos diferentes de se vestir e se alimentar, gostos que revelam culturas e aprendizados.
Foi assim que lembrei de uma noite em Verona, na Itália. Cheguei ao hotel e, de súbito, decidi ir ao bar. Havia um homem, solitário, na altura dos seus 65 anos, bebendo whisky e conversando com o atendente. Sobre o que falavam, não me recordo. Nem sei se prestei atenção. Pedi uma cerveja, momento em que o outro hóspede balbuciou algumas poucas palavras em minha direção. Respondi algo que também não me recordo. E segui, tranquilo e igualmente solitário, lendo o caderno esportivo de um jornal.
Até que entrou um grupo de ingleses. Eram cerca de 12 ou 15 pessoas. Cavalheiros e suas esposas, uns mais jovens, outros mais velhos, todos rindo muito e falando muito e gesticulando muito – e, com o tempo, bebendo muito. Whisky, drinques, cerveja. Tiravam sarro uns dos outros, reproduziam as versões de seus países do eterno conflito entre homens e mulheres. Aparentemente, chegavam de algum evento social, bem trajados que estavam. Ficaram ali longos minutos, talvez mais de uma hora. Animados e animando o ambiente até então silencioso do saguão daquele confortável hotel.
Ainda na Itália, em Milão, um prestativo atendente com feições indianas era responsável por limpar as mesas do café da manhã. Desejava “bom dia”, trazia garrafas de água, preparava café com achocolatado para o filho pequeno, bebê de colo, de um jovem casal italiano. E colocava ordem no lugar. Foi o que percebi quando duas senhoras, idade um tanto avançada, começaram a recolher algumas frutas da mesa principal, três ou quatro, antes de deixarem o recinto. Sem pestanejar (e sem discrição alguma porque na Europa isto às vezes é dispensável), ele disparou em voz alta – num inglês marcadamente com sotaque: “Senhoras, as frutas não são brindes. Maybe one! Maybe one!”.
Nos Estados Unidos, certa noite cheguei ao belo hotel Marriott na capital Washington D.C. um pouco antes do que tinha planejado. Estávamos em três. Uma amiga, cansada, decidiu ir direto para o quarto. Um amigo e eu queríamos mais cerveja, mais papo, mais lazer. Encontrar algo após as 22h na capital do império norte-americano, porém, não é tarefa fácil. A opção, então, foi o bar do hotel. Grata surpresa.
Conforme a noite avançava, mais pessoas chegavam. Umas vinham da rua, outras desciam dos quartos, alguns encontros aparentemente secretos. Foi esta a impressão que tive ao observar a reunião que desenrolava na mesa próxima. Um homem de terno, talvez um lobista (estávamos na capital do poder), parecia negociar - num jogo (desnecessário quando se trata de sexo pago) de charme e sedução – o preço de uma noitada.
Mulheres de meia-idade elegantemente trajadas, fumando e bebendo muito, perfis de caçadoras vorazes. Homens de cabelos grisalhos, recém-saídos de reuniões de negócio, em momentos de descontração. Uma ampla reunião de médicos, como constatei na manhã seguinte ao saber que o hotel sediava um evento da classe. Todos ali, naquele momento compartilhando o mesmo tempo e espaço – enquanto eu pedia mais uma Bud e esgotava a porção de salgadinho.
Hotéis, aeroportos, estações ferroviárias. Chegadas e partidas, encontros e despedidas, uma reunião de culturas, histórias e destinos. Uma babel de vidas. Que todo viajante merece compartilhar. Por isso, da próxima vez, não vá diretamente para o quarto. Experimente ficar alguns minutos no saguão. Você viverá momentos agradáveis e terá histórias para contar, acredite!

A beleza da Notre-Dame

Quasímodo devia ser um cara de sorte. Era corcunda, é verdade. Sofria, é fato – inclusive de amor. O nome dela era Esmeralda. Mas não pode ser de todo triste alguém que tem como morada a Notre-Dame. A mais famosa catedral de Paris (do mundo?) está lá, envolta pelo Sena, à direita e à esquerda, deitado em berço esplêndido, como esplêndida é a Notre-Dame.
A catedral está lá desde o século 12, quando começou a ser erguida. Ele, o corcunda, chegou no século 19. Mais precisamente em 1831. Filho de Victor Hugo. Se não de carne, de alma.
Não é, porém, Quasímodo o personagem principal. É ela, a Notre-Dame. O coração religioso de Paris. Centro secular num espaço milenar. A famosa catedral fica na Île de la Cité, pequeno espaço de terra cercado de água por todos os lados. Águas do Sena. Ali viviam os parisi. Não é ilação pensar no povo e na cidade. Sim, parisi, Paris. As ruínas estão lá, dois mil anos depois, 
delicadamente escondidas degraus abaixo, na mesma ilha, sustentando Quasímodo, sustentando a fé – os pilares da fé.

Notre-Dame é bela. Belo exemplar de arquitetura gótica. Suas duas torres apontam para o céu, abraçando a nave central. Suas portas frontais convidam para um encontro. Sua rosácea, tal como um órgão vital, é fonte de energia, força e luz. A mesma energia que emana do coração. Por fora, mistério. Por dentro, brilho. Que se divide com as luzes das velas e dos tantos belos vitrais que colorem os caminhos que levam ao altar. Contraste de luz e escuridão. Paraíso e treva. Céu e inferno. Lições medievais...
Seus traços rebuscados se destacam. Suas agulhas apontam para o infinito. Seus personagens -anjos, santos, reis e religiosos – eternizam feitos, histórias, heróis, incrustados nas pedras da Notre-Dame. Mas são mesmo os gárgulas que atraem os olhares. São famosos, parceiros da odisseia de Quasímodo. Aquelas figuras assustadoras não combinam com uma catedral, embora tenham uma função estrutural importante: são as saídas de água das calhas (e isto pouca gente sabe!).

Lá dentro, o clima é um tanto sombrio - e encantador. É a arquitetura gótico-religiosa manifestando-se, a marca de uma era. O obscurantismo medieval. A intenção de realçar a pequenez humana perante o divino é claramente perceptível. Sentimentos de uma época. Um Deus inatingível, muito além das abóbadas das naves de Notre-Dame. Céu e terra distantes, unidos pela fé.
Ali, de dentro, o coração da catedral – sua rosácea central - pulsa e brilha mais forte. Encena um espetáculo esplendoroso de cores e luzes. Velas materializam pedidos, votos, agradecimentos. Aquecem a frieza do ambiente e, quem sabe, de muitos corações. A música que ecoa na acústica medieval soa como um anúncio. Prenúncio de não se sabe o quê.
Som, luzes, cores. Um conjunto harmoniosamente belo. A beleza que faltava a Quasímodo por fora, a beleza que ele escondia dentro de si. Ali, confinado naquele espaço, Quasímodo sentia-se protegido. Pelas sombras que, mal sabia ele, revelam a luz. A luz do divino.

 



E para quem acha que é pouco, volte ao exterior da catedral. Contorne-a com passos marcados, tranquilos. Observe os detalhes da arquitetura. Na primavera, aprecie a beleza, o charme e o colorido das flores e plantas nas árvores e jardins. Um espetáculo oposto ao que a igreja exibe em seu interior. Nem por isso mais ou menos belo. Porque seja na luz ou na escuridão, a Notre-Dame é a Notre-Dame.
É, Quasímodo devia ser um cara feliz...



Uma singela casa branca

The White House, a Casa Branca, é o ponto nevrálgico do poder nos Estados Unidos. De certo modo, pela influência que o país exerce, não seria exagero considerá-la o centro do poder no mundo. A casa do presidente da maior potência mundial é uma das atrações de uma cidade que gravita em torno do poder.
Ainda que seja apenas mais uma das atrações em Washington D.C., espera-se que a mais poderosa casa norte-americana (ou a casa do mais poderoso norte-americano, ainda que seu morador seja sempre temporário – viva a democracia!) exiba uma grandiosidade condizente com seu significado. Por isso, qualquer pessoa que vá à capital dos EUA espera encontrar uma grande edificação.
Foi com essa ideia que descemos – dois amigos e eu - a Connecticut Avenue. Eufóricos, disputávamos quem primeiramente avistaria a famosa casa. A proximidade da sede do poder Executivo nacional fez acelerar o pulso e acirrou a disputa. Até que alguém, talvez eu, disparou emocionado: “Ali, aquela deve ser a Casa Branca!”. A construção era até grandiosa, mas um detalhe chamava a atenção: aquela suposta “Casa Branca” era, na verdade, cinza. Gelo, talvez. Branca, não. Definitivamente!
Por alguns instantes, pairou a dúvida: seria “White” só um nome, como a Casa Rosada em Buenos Aires, sede do governo argentino, que não tem nada de rosa...? Uma dose extra de racionalidade acrescentou outra dúvida à nossa emotiva visão: a arquitetura do prédio não era exatamente aquela que nos acostumamos a ver pela TV.
Carregando mais dúvidas que certezas, decidimos seguir em frente à procura de, quem sabe, a verdadeira Casa Branca. Não sem antes, claro, registrar a nossa suposta “Casa Branca” em fotos. Estávamos na esquina da 17th. Street NW com a Pennsylvania Avenue.


Avançamos um quarteirão até o National Mall (na verdade a Constitution Avenue), a principal via do poder na capital do poder. Bastaram alguns metros adiante e uma virada à esquerda para que uma edificação bastante conhecida finalmente surgisse. De imediato, reconhecemos aquela singela casa: The White House, a Casa Branca. O centro do poder norte-americano estava ali, imponente... Imponente? Foi impossível não conter a decepção. “Aquilo ali é a Casa Branca?”, manifestamos todos, em conjunto, nosso espanto. Sim, com um certo desdém.
Colocando as ideias de modo mais racional, não que a sede do Executivo dos EUA seja, digamos, pequena ou modesta. Não é. É grande e até relativamente bela (clássica demais, mas interessante). Contudo, numa cidade que respira poder, na via que liga monumentos que contam a história da nação mais poderosa do mundo ao imponente – este sim – prédio do Congresso, a Casa Branca fica em segundo plano. Incompatível com o poder que emana.
Vista de longe, das grades que separam o imenso jardim da rua onde turistas de todo o mundo aglomeram-se em busca de fotos, a morada do presidente dos EUA parece ainda menor. Ali, em frente daquela “casa pequena demais para o poder que esconde”, o amontoado de gente, a vigilância contida de uns poucos guardas dão por alguns instantes a sensação de que estamos diante de um imóvel qualquer. Qualquer coisa que não a Casa Branca, The White House.
Até que uma outra dose de racionalidade recoloca a emoção em seu devido lugar. Finalmente, lembramos que estamos simplesmente diante da sede do poder Executivo dos EUA. A mais poderosa casa norte-americana (ou a casa do mais poderoso norte-americano, ainda que seu morador seja sempre temporário – e viva mais uma vez a democracia!).



Em tempo: ainda que estivéssemos em frente à “mais poderosa casa...” (e o resto já escrevi duas vezes), a presença de um singelo esquilo no jardim do lado externo devolveu-nos a ilusão de que aquela era simplesmente mais uma casa numa cidade qualquer. Qualquer coisa que não Washington D.C.
Até que, mais uma vez, outra dose de racionalidade reanimou a emoção: “Olha, um esquilo em frente à Casa Branca! Pode ser o esquilo do presidente dos Estados Unidos!”. E disparei o flash...


PS: para quem chegou até aqui e segue em dúvida sobre a tal “Casa Branca” cinza do início da postagem, uma olhada mais atenta ao mapa da capital dos EUA indicou que na esquina da 17th. Street NW com a Pennsylvania Avenue fica o Eisenhower Executive Office Building. Bem, podia ser “a mais poderosa casa...”

* A imagem do que pensamos ser a Casa Branca foi retirada do Google Street View porque na minha foto há outras pessoas e não as consultei sobre a exibição aqui neste blog.