Ah, Veneza...!

“Algumas cidades, como caixas embrulhadas sob a árvore de Natal, escondem presentes inesperados, delícias secretas. Algumas cidades permanecerão para sempre embrulhadas, caixas contendo enigmas que nunca serão solucionados, nem mesmo para ser vistos por visitantes em férias, ou pelo mais inquisitivo e persistente viajante. Para conhecer essas cidades, desembrulhá-las, é preciso nascer lá. Veneza é assim.”
Truman Capote, “Ensaios”, p. 506.


Às vezes é difícil falar de uma cidade. Elas são corpos vivos, complexos, carregam em suas veias o sangue dos seus moradores, as marcas de sua história (em alguns casos milenar, como Roma).
Há lugares que têm tanto a oferecer que descrevê-los se torna uma tarefa inglória. Talvez fosse melhor romanceá-los, dando-lhes personagens – reais ou fictícios. Assim, a cidade facilmente viraria o cenário de uma história.
No caso de Veneza, porém, isto não seria original. Há tempos a cidade é cenário de enredos na literatura e no cinema. O que poderia, então, soar como original? Contar a minha história com Veneza. Uma história que começou bem antes de pisar naquele lugar. Antes de conhecê-la, fiz questão de ler “Mil dias em Veneza”, de Marlena de Blasi. A autora, jornalista, conta o seu envolvimento emotivo com a cidade por meio do romance com um veneziano. Página após página, os leitores passeiam pelos canais, pelo Lido, pela feira de peixes e frutas no Rialto...
O livro foi o despertar de um encantamento. Confesso (e isto é uma blasfêmia!) que Veneza era apenas mais um ponto no roteiro pelo norte da Itália. Não que eu não quisesse conhecer o lugar. Ao contrário: adoro conhecer cidades. Mas não nutria o sonho de muitos (principalmente dos apaixonados) de (vi)ver Veneza. E assim fui. Despretensiosamente, quase sem expectativas, peguei o trem partido de Verona. Conforme o comboio se aproximava da famosa estação de Santa Lucia, surgiu na paisagem um elemento fundamental na vida veneziana: a água. Por todos os lados, cercando o trilho suspenso que liga a parte continental à insular.
Ver aquele tom esverdeado foi como um arrebatamento. De súbito, fui tomado por um entusiasmo que eu mesmo desconhecia. Entusiasmo que só cresceu quando deixei a estação e vi aquilo tudo. Aquilo o quê? Veneza! A cidade é um verdadeiro esplendor. Uma arquitetura espetacular, de diversos estilos, que ajuda a contar a sua história. Um sem número de igrejas, cada qual com seus tesouros, que ajuda a reforçar a sua fé. Uma coleção de palácios quase todos velhos – o que faz toda a diferença. O charme de Veneza reside justamente no fato de ter sido preservada ao longo dos séculos. Isto significa que os mesmos cenários presentes em diversos quadros no Palácio Ducale estão logo ali, praticamente intactos.
Veneza é, também, estimulante. Não há ponto para o qual se olhe que não se sinta algo diferente. Uma vontade de navegar, descobrir, conquistar. Terras, sonhos, amores. Um desejo crescente de eternizar um instante, fazer o tempo parar. Impossível não lembrar dos mercadores que deram fama à cidade. Homens visionários, expansionistas, que fizeram a riqueza daquele pedaço de terra encravado num canto do mar Adriático, o golfo de Veneza. Os mercadores de Veneza.
Por aquelas águas, hoje navegam casais eternamente apaixonados (porque lá qualquer momento é eterno). Uma cena insólita: na gôndola, os recém-casados posam para o álbum de fotos. Como pano de fundo, o Casino di Veneza. No Rialto, uma outra noiva, com o tradicional vestido branco, sobe a escadaria da mais famosa das pontes venezianas em seu momento feliz e único em meio a milhares de turistas.
Não sei como pude ignorar aquele lugar. Não sei porque subjuguei seu poder. Na Catedral de São Marcos, com seus traços bizantinos e onde repousa o apóstolo, pedi perdão. Por todas as vezes que pequei com atos e palavras, pensamentos e omissões. Pequei contra Veneza, contra a sua beleza, contra o seu poder, contra a sua luxúria, contra a sua história. Um quase-crime contra a humanidade, um réu a caminho de Haia.
É definitivamente impossível não se envolver com Veneza (por mais que muitos a classifiquem simplesmente como fétida). É definitivamente impossível não se apaixonar por Veneza (por mais que seu romantismo soe meio blasé e falso).
Veneza une Oriente e Ocidente, passado e futuro, sonho e realidade. Veneza repele e acolhe, é humilde e exibida, poderosa e frágil. Incrivelmente frágil (até dizem que ela vai afundar qualquer hora...). Frágeis somos nós perante Veneza. Frágeis e fugazes, como todos que por lá passam. Em Veneza, somos apenas mais um na multidão. Ela é a protagonista; nós, figurantes. No céu de Veneza, uma única estrela brilha: ela própria. O resto, bem..., é só o resto.


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