As Nações Unidas

Cheguei por acaso à sede da ONU (Organização das Nações Unidas) numa bela manhã de sol em Nova York. Estava a pé, de bermuda, chinelo e a tradicional camisa verde-amarela da Seleção Brasileira. O itinerário do dia previa um passeio de barco pelos rios que banham Manhattan. A partida devia ser em um píer numa das laterais da ilha. Por um erro, caminhei – com mais dois colegas – na direção oposta. E a ONU surgiu à minha frente, imponente e fria. Um prédio estranho: bonito e harmonioso do ponto de vista arquitetônico, mas desprovido de vida. O concreto armado na selva de pedra que é Nova York.
Após me localizar, surgiu a dúvida: será que eu poderia entrar de chinelo e bermuda na ONU, o templo da diplomacia mundial? Logo descobri que não haveria problema. A democracia impera naquele espaço – não, sem antes, claro, passar por uma rigorosa fiscalização policial, que incluiu raios-x e detectores de metais (ainda mais naqueles dias de setembro).
Vencida a questão da segurança, surgiu um imenso salão, tão frio quanto o prédio. Afinal, o que era a ONU? Um imenso vazio, uma aparente terra de ninguém. Era sábado, dia em que não há expediente, mas a falta de gente e de vida chamou a atenção mesmo assim. Após uma espera razoável, durante a qual minha única diversão foi observar os quadros com retratos dos secretários-gerais da organização, o último deles o ganense Kofi Annan, embarquei no turístico tour.
No início, a guia brincou que aquele pedaço de chão não pertencia ao território norte-americano (o que é verdade); logo, precisaríamos exibir nossos passaportes (o que não era verdade). Como curiosidade, o tour vale a pena. Os turistas passam por todos os principais setores da ONU, incluindo o coração da organização, as salas da Assembleia-Geral e do Conselho de Segurança. Fiz questão, claro, de registrar minha presença de chinelo e bermuda nestes locais de alta costura – social e política.
Naquela manhã de sábado, sem a presença dos diplomatas e funcionários, as salas onde muitas vezes se decidiu entre a guerra e a paz estavam também frias. Uma frieza impactante, assombrosa. Sentados ali, nós, os turistas, parecíamos donos de uma terra abandonada após um conflito qualquer. Gente de várias partes do mundo ouvindo uma série de histórias e números (principalmente números) sobre uma organização que surgiu com o pressuposto de representar todas as nações do globo – embora, registre-se, nem todas estejam lá formalmente representadas.
Dos números, não me recordo. Das histórias, soube que os membros do Conselho de Segurança jamais devem se ausentar da cidade, pois podem ser convocados emergencialmente a qualquer momento. Deve ter sido assim anos atrás, num certo 11 de setembro.
Como brasileiro, não deixei de observar que tradicionalmente o Brasil abre as assembleias-gerais, a principal reunião anual da ONU. Fato, aliás, ignorado pelos turistas (o que era normal) e pela guia (o que me surpreendeu). Também fiz questão de ver os famosos murais “Guerra e Paz”, de Cândido Portinari, presentes do Brasil à sede da organização (o tour passa por eles quase como se não existissem...).
Em meio à sequência de salas, foi uma pequena mesa que despertou minha atenção. Nela, havia exemplares de minas terrestres encontradas mundo afora durante as ações das forças de paz da ONU. Objetos usados para tirar vidas muitas vezes inocentes em guerras geralmente injustas. Era a pitada de alma que a sede das Nações Unidas exibia naquela manhã de sábado. Entre relatos curiosos e inúteis que eu ouvia, ali estavam pedaços da história da humanidade, de gente que sofreu e lutou por valores como paz, liberdade e democracia.
Então, ficamos assim: a sede da ONU é externamente bonita, ainda que careça de uma certa personalidade; internamente, fria e um tanto decepcionante. Valeu a emoção de estar nas salas onde se decide o destino do mundo, mas eu não faria uma nova visita. Não como turista. Quem sabe como... presidente da República?






PS 1: atualmente, o Brasil ocupa um assento rotativo no Conselho de Segurança. O país luta há anos para se tornar membro permanente.

PS 2: a presidente Dilma Rousseff entrou para a história ontem ao se tornar a primeira mulher a abrir uma Assembleia-Geral da ONU, a 66ª da história. O discurso da presidente pode ser lido na íntegra aqui.