Aos mestres, com carinho

Na história da humanidade, alguns homens e mulheres desempenharam um papel de destaque. Assumiram os riscos de um protagonismo à frente de seus tempos, marcando época, mudando os rumos da sociedade nas mais diversas esferas. Com o tempo, passaram a ser considerados mestres, gênios, visionários. O Renascimento – período que marca o fim da chamada Idade Média e abre a Idade Moderna – foi pródigo em produzir esse tipo de gente, notadamente na Itália, seu berço. Expoentes na arquitetura, pintura, escultura, medicina, astronomia, filosofia, matemática e em tantas outras artes e ciências trouxeram nova luz à humanidade, propuseram novos conceitos, estabeleceram novos paradigmas – muitos dos quais nos acompanham até hoje.
Não há dúvida de que o grande impulso para a ciência e as artes modernas foi dado pelos renascentistas e suas descobertas. Por isso, quando me deparei com os túmulos de nomes como Michelangelo Buonarroti, Galileu Galilei e Nicolau Maquiavel, cedi a um impulso: prostrei-me diante de cada um deles e curvei-me em sinal de reverência.
Os restos mortais destes grandes homens estão na Basílica de Santa Croce (da Santa Cruz), em Florença, uma das cidades-berço do Renascimento. Trata-se de uma igreja de estilo franciscano, cuja origem data do século 13. Sua fachada, embora marcada por ricos ornamentos e esculturas em mármore, torna-se modesta diante da Basílica de Santa Maria Del Fiore, a principal da cidade e distante dali apenas algumas quadras. O interior de Santa Croce é bem modesto. O que destoa mesmo são os monumentos funerários e as obras de arte, tradicionais em qualquer pequena capela italiana.
Famoso por suas descobertas astronômicas, Galileu tem em seu túmulo uma reprodução do sistema solar heliocentrista (com os planetas girando em torno do sol), uma das teorias que defendeu arduamente – e que lhe custou muitas brigas com a Igreja Católica, da qual era fiel. A escultura de seu busto mostra um homem com ar triunfante, rosto virado em direção ao altar, olhando para o alto e segurando um telescópio com a mão direita, enquanto a outra mão repousa sobre alguns objetos.
O túmulo traz ainda duas grandes esculturas de mulheres que simbolizam as atividades do cientista – também matemático, físico e filósofo - nascido em Pisa e morto em Florença. Como ele, as mulheres olham contemplativamente para o alto, mas em direção oposta, uma delas com um dos seios à mostra. O cenário não deixa de parecer irônico, tanto quanto a presença dos restos mortais de Galileu ali, dentro de uma igreja.



O túmulo de Michelangelo (ou Miguel Ângelo) é tão pomposo quanto o do colega astrônomo. Nele, três estátuas femininas – com semblantes tristes - identificam suas artes: a escultura, a arquitetura e a pintura. No alto, anjos parecem guardar e cobrir os restos mortais de um dos maiores nomes da arte em todos os tempos. É autor de obras como o David - guardado ali perto, na Accademia (o original) e na Piazza della Signoria (a réplica, onde estava o original) –, a Pietá (exposta na Basílica de São Pedro, no Vaticano), ambas esculturas, e a pintura da Capela Sistina, também no Vaticano.


Comparando com os demais, o túmulo de Maquiavel é bem simples. Poeta, diplomata e historiador, sua obra mais célebre é “O Príncipe”, um tratado sobre como governar cujos princípios repercutem até os nossos dias. Vem deste livro um ditado que se eternizou (“os fins justificam os meios”), embora seja uma conclusão reduzida e até certo ponto deturpada do pensamento do autor. Também tornou-se célebre a expressão “maquiavélico”, que designa alguém sem escrúpulos, astuto num sentido pejorativo.


Gastei na observação dos túmulos muito mais minutos do que de praxe, resultado inquestionável do fascínio pela história do Renascimento (e daqueles homens em particular) e de uma sensação de dívida, uma eterna dívida da humanidade (da qual eu era, naquele momento, um ínfimo representante) perante aquelas mãos e mentes que construíram obras e pensamentos absolutamente iluminados. Personalidades que foram verdadeiras pontes entre passado e futuro, que experimentaram ousar, ir além.
Diante dos túmulos, uma mistura de admiração e espanto invadiu minha alma. Admiração pelo que aquelas pessoas representaram e ainda representam; espanto pela força que transmitem, séculos depois, suas memórias ali elevadas a uma outra potência, a um outro nível, sabedor que era da presença passos adiante dos restos mortais de três gênios.
Sentimentos que não são exclusivamente meus, como mostrou David Leavitt em seu livro “Florença – Um caso delicado” ao citar a reação de Stendhal após visitar Santa Croce: “Eu estava em uma espécie de êxtase, pela ideia de estar em Florença e pela proximidade dos grandes homens cujas sepulturas eu acabara de ver. Absorto na contemplação da beleza sublime, eu a via de perto, eu a tocava, por assim dizer. Eu havia chegado àquele ponto da emoção onde se encontram as sensações celestiais dadas pelas artes e os sentimentos apaixonados. Saindo de Santa Croce, senti palpitações...; a vida se esgotara em mim, eu caminhava com medo de cair” (p. 31-2). E eu praticamente levitava...




PS: a igreja de Santa Croce possui também um túmulo dedicado ao poeta Dante Alighieri, no entanto seus restos mortais não estão lá, e sim na cidade de Ravenna. Trata-se de uma disputa política histórica, cujo enredo pode ser melhor conhecido aqui.


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