O celestial Duomo de Milão

O mia bella Madonnina che brilli da lontano
tutta d'oro e piccolina, tu domini Milano
sotto di te si vive la vita, non si sta mai con le mani in mano
tutti cantano "lontano da Napoli si muore"
ma poi vengono qui a Milano
Giovanni D'anzi

Raras vezes uma visão provocou uma sensação imediata de êxtase como a que tive ao subir os degraus da estação de metrô em Milão, na Itália, rumo ao exterior. Impossível conter o “Uau!!!” que, súbito, tomou minha alma e escapou pela boca. Aquela edificação inacreditavelmente bela surgiu suntuosa à minha frente. Estava ali à minha disposição (e à de milhares de outros turistas, é verdade...). A catedral de Milão (ou simplesmente Duomo) é das construções mais fantásticas que já conheci. A brancura aparente de seu mármore, em contraste com o céu azulado, realçou a magnificência daquela visão.
O Duomo é uma obra-prima da arquitetura. Em estilo predominantemente gótico, sua construção foi iniciada no século 14 e só terminou oficialmente mais de 400 anos depois. Logo de cara, chama a atenção a quantidade de agulhas em sua fachada. São centenas delas, tão marcantes que parecem dominar toda a parte frontal do templo (embora estejam apenas no telhado). Sobre as mais altas, figuras sacras parecem se equilibrar delicadamente. Em destaque, num dourado reluzente, a figura da Madonnina do Perego repousa absoluta e imponente desde 1774, como que a observar e abençoar a cidade, seus moradores e visitantes.
As esculturas também se destacam na fachada, incluindo as gárgulas (que, descobri num dia de chuva, servem como pontos de escoamento da água). Há imagens de toda sorte, com faces angelicais, com o terror estampado no rosto, com o olhar voltado para o céu, com os rostos inclinados para baixo... E não são só figuras celestiais e humanas; há flores e frutos, laços, rosáceas, flores-de-lis, tudo de uma riqueza artística inquestionável.
As portas, gigantescas e com rebuscadas esculturas decorativas em relevo, exibem um verde-escuro poderoso. Elas, por si só, já dão o recado que os templos góticos costumam transmitir: o da pequenez humana diante da grandeza de Deus. Nas esculturas, cenas bíblicas, como a do Cristo morto, tal qual na cruz, e imagens da história local. Todas merecem ser olhadas de perto, com calma, uma a uma. O trabalho chama ainda mais atenção pela dureza do material – o bronze.
Logo acima da porta principal, a inscrição “Mariae Nascenti” (em português, a “natividade de Maria”) aparece dominadora, uma clara indicação da reverência da cidade e do templo à mãe de Jesus segundo a tradição cristã.
No conjunto, tem-se um belo exemplar da união entre arquitetura, arte e religião, simbolizando tudo o que se pode ter de mais sublime entre a Terra e o céu, entre o concreto e o sagrado, entre a ciência e a fé. Um exemplar que atrai e ofusca a visão, capaz de deixar qualquer ser humano boquiaberto, espantado, crente na capacidade humana de executar maravilhas e na inspiração divina que leva a tais obras. Prostrar-se impassível, silencioso e contemplativo diante de tamanha engenhosidade é um dever físico e espiritual quando se chega à Piazza del Duomo.
  







Se por fora o Duomo já é espetacular, por dentro não é menos que exuberante. São cinco naves ricamente decoradas, do piso ao teto. Vale a pena reparar no colorido dos vitrais, retratando cenas bíblicas e personagens da Igreja; no conjunto de mais de 50 grandes colunas em mármore; no reluzir das velas que, somado à escuridão tradicional dos templos góticos, confere ao ambiente algo divino; nos desenhos no chão de mármore, em tons de preto, branco e vermelho-alaranjado; nas pinturas e tapeçarias assinadas por grandes nomes da arte.
Sua dimensão – cerca de 150 metros de comprimento e 90 de largura - também ajuda a reforçar sua grandeza (que, como a essa altura já se viu, vai muito além das simples medidas). E precisa algo mais?
  






Que tal, então, olhar o Duomo de cima (ou melhor, observar a cosmopolita Milão do alto)? Pois subir no telhado da catedral, pisar em seu teto reclinado de mármore claro (o mesmo de sua fachada), ver de perto suas centenas de agulhas e arcos é possível. E não é preciso sequer sofrer com infinitos lances de escada; basta pegar o elevador. O passeio pelo telhado do Duomo é uma atração à parte (a única, aliás, pela qual se paga).
De cima, a Piazza del Duomo mostra sua beleza de forma mais harmônica, já que pode-se vê-la em seu conjunto. Lá do alto, tão próximo daquela bela arquitetura, chama a atenção a precisão do conjunto da obra, as combinações e repetições de arcadas, figuras e agulhas. Cada detalhe que porventura possa ter escapado à vista até então ali se revela sem escrúpulos. Como as faces desgastadas pelo toque das mãos (e pela ação do tempo) de figuras um tanto macabras, humanas demais para aquele lugar sacrossanto. Como as marcas da poluição e da chuva que tomam conta das paredes e de seus rebuscados relevos e esculturas.
Assim, tão de perto, é inevitável não notar a sequência perfeita de agulhas, uma após a outra, tal como um exército perfilado à espera de seu comandante. Ao brilho do sol no entardecer, elas viram sombras de si mesmas. Lá, junto das agulhas, as flores-de-lis parecem um jardim. E as gárgulas nem são tão ameaçadoras como se supõe.
O que mais se nota, porém, é o sentir. Um sentir diferente, como se estivéssemos mais perto do céu, mais perto de Deus. Como se a lembrança de que se está no teto de uma das maiores e mais belas catedrais do mundo desse a essa experiência um caráter celestial, único e renovador. Lá no alto, no “chão” liso do teto revestido em mármore, sentei e olhei ao redor. Vi uma cidade, vi uma obra de arte, vi a vida plenamente. Com a companhia de tantos outros turistas e dela, a Madonnina do Perego, agora tão perto, brilhante e bela, a nos abençoar.










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