Visão florentina

O cenário é clássico, turístico e um tanto blasé. Ainda assim, irresistível e imperdível. Quem visita Florença não pode deixar de observá-la a partir da Piazzale Michelangelo. Localizada no alto de um morro e do outro lado do rio Arno, ela permite uma visão privilegiada da parte histórica da cidade. De lá, tem-se a tradicional vista da basílica de Santa Maria del Fiore com seu campanário e o batistério, além da ponte Vecchio.
Por si só, a piazzale – idealizada em 1869 - praticamente não possui nenhum atrativo. É verdade que ela abriga uma réplica de bronze do “David”, de Michelangelo (mas também é fato que uma outra réplica pode ser vista na Piazza della Signoria em frente ao Palazzo Vecchio, sem contar o belíssimo e inigualável original na Accademia). De resto, é um grande mirante com espaço para estacionamento e barracas de ambulantes. Ainda assim, milhares de turistas vão até lá todos os dias. Vão justamente para observar Florença. E não podia ter algo melhor a se fazer na piazzale (talvez sua pouca atratividade sirva justamente para não ofuscar o principal, a encantadora vista que se tem de lá).
Chegar até a piazzale exige uma boa caminhada (não recomendada). O acesso é um tanto difícil, distante e íngreme (lembre-se, ela fica num morro). Embora o percurso seja magnificamente belo, principalmente no outono, quando as árvores assumem aquele conhecido tom amarelo-ferrugem, ainda assim prefira pegar um táxi ou um ônibus. Reserve suas energias para o que é essencial. E o essencial é olhar adiante.
Tão logo chegam à praça, os turistas acorrem até o parapeito feito de balaústres. Primeiro, observam a beleza daquele cenário. Depois, buscam o melhor ângulo para suas fotos. Fazem poses diversas e disparam os flashes. Os mais apressados e distraídos sequer notam a presença da trepadeira fortemente vermelha, como a cor da framboesa, e com cachos repletos de bolinhas negras, tal qual uvas, que dá um colorido especial ao muro de sustentação da piazzale, logo abaixo. Tampouco notam a natureza ao redor, no sentido oposto ao da Florença histórica. Ignoram a corredeira do Arno que, pouco adiante, forma pequenas quedas de água.
Incrível mesmo é notar a grandiosidade de Santa Maria del Fiore. Por mais que se suba ao topo do campanário ou da própria catedral ou que se repare em sua suntuosidade a partir do chão, é lá da Piazzale Michelangelo que a igreja se revela por inteiro. Sua cúpula mostra-se portentosa e seu conjunto de cores soa harmônico como as notas de uma composição clássica. É curioso verificar que, ao mesmo tempo em que a igreja se destaca na paisagem como uma exceção, ela se mistura tão perfeitamente aos tons florentinos que poucas construções caberiam tão bem naquele local.


 

E se para tantos olhar o templo e a cidade a partir dali é apenas mais uma experiência turística, tive a sorte de vivenciar um momento diferente. Ao meu lado, tranquila e habilidosamente, um garoto aparentando entre 7 e 9 anos rabiscava em seu caderno de desenhos traços perfeitos da edificação que via à frente. Como os renascentistas séculos antes, copiava cada detalhe, cada tijolo aparente, cada curva de Santa Maria del Fiore. Sob o olhar admirado e quieto de quem supus ser a mãe dele. Aparentemente franceses pelo sotaque.
Enquanto a tarde caía, o garoto alternava olhares rápidos e atentos da igreja para o papel, do papel para a igreja. Desenhava, apagava, corrigia, olhava a certa distância, buscando respeitar perfeitamente as proporções.
Fiquei ali longos minutos olhando, só olhando. Silenciosamente, admirava cada traço que surgia do movimento de sua mão (eu, que nunca tive no desenho uma habilidade...). Aquilo tudo parecia surreal, sublime. Pelo que notei, eu devia ser o único intruso a observar o trabalho quase solitário do garoto. Os demais turistas sequer notaram a tarefa dele ali. Para mim, era uma presença especial.
  


A piazzale ainda reserva mais surpresas. O crepúsculo visto dali assume cores espetaculares. Conforme a tarde cai e a noite chega, os tons vão passando do brilho dourado do sol para um azul acinzentado. As nuvens reforçam a passagem do tempo com sua presença poderosa, dando movimento ao entardecer. Aos poucos, as luzes de Florença vão surgindo, primeiro timidamente, como pequenos brilhantes ao longo do Arno, depois mais marcadamente, nos prédios e postes, até que se tornam dominantes já na noite florentina.
A essa altura, a piazzale é quase um silêncio sombrio. Ela se apaga e se esconde para deixar Florença brilhar logo abaixo. O reflexo das luzes nas águas do rio parece tê-las tingida de ouro. Uma pulseira dourada, é isto que vira o Arno. Santa Maria del Fiore e a igreja de Santa Croce, mais à direita, também aparentam ter sido tocadas por Midas ao anoitecer.
É, a Piazzale Michelangelo é mesmo um tanto clássica, turística e blasé. E quem disse que isto é um problema?




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