Visões do mar

Tudo o que vivemos guarda uma correlação com nossos referenciais - que, por sua vez, estão ligados aos paradigmas da sociedade e da família na qual crescemos. Isto dita o que costumamos chamar de visão de mundo. Mudar isso, ou enxergar as situações sob um outro prisma, exige coragem, desprendimento e estímulo. Encontrei um desses estímulos no mar. Nas águas aparentemente calmas do Atlântico e do Pacífico.
É mesmo curioso – e até um pouco “non sense” – perceber uma mudança de paradigma quando se olha o Atlântico do outro lado. Foi assim que me senti quando estive em Peniche, bela localidade no litoral português a cerca de 100 quilômetros da capital Lisboa. Numa região de encostas, perto do Cabo Carvoeiro, onde ficam o farol de 1790 e a conhecida Varanda de Pilatos, paramos o carro e ficamos observando a beleza do Atlântico, lá um pouco mais azul que cá.
No famoso Miradouro da Nau dos Corvos (cujo nome se deve ao rochedo magnífica e pacientemente esculpido pelo vento e pelo tempo, com forma supostamente semelhante a uma nau, ponto de encontro de gaivotas e corvos), olhei para o mar e pensei. Pensei como olhar o mundo de outro ângulo pode mudar nossa vida; pensei que milhares de quilômetros dali, na margem oposta do Atlântico, um pouco mais ao sul, estava o Brasil; pensei na ousadia portuguesa ao se lançar a mares “nunca dantes navegados”, rumo ao desconhecido, a verdadeira epopeia lusitana. Um devaneio me invadiu a alma.


Sentimento semelhante tive ao tocar o Atlântico norte em Miami, nos Estados Unidos. Era, no fim, o mesmo oceano da minha infância em Santos. Era, enfim, o mesmo mar que desafiou os portugueses e ingleses e franceses. Era, enfim, o Atlântico que eu tanto conhecia, apenas banhando outras terras mais ao norte. Mas era uma cor diferente, um odor diferente, um sabor diferente. No ar e no mar, nada lembrava o passado. As pessoas, os barcos, as folhagens, tudo era novo.
Sutil e poderoso, o Atlântico mostrou-se um deleite numa tarde de sol. Aquela areia grossa e aquele mar esverdeado e claro me botaram mais uma vez para pensar. Pensei em como o mundo é vasto e nós, humanos, minúsculos; pensei em como a natureza é poderosa e nós, humanos, tão frágeis; pensei em quantos galeões passaram por aquelas águas levando ouro e prata para os reis na Europa e quantos naufragaram e sucumbiram ao ataque dos piratas. Um devaneio me invadiu a mente.



Em Viña del Mar, no Chile, encontrei o Pacífico. Renegado (porque frio), frio (porque renegado), este oceano imenso é capaz de congelar os pensamentos. Por um instante. A areia grossa, molhada e gelada, delimita a coragem. Vencida a fronteira, a água álgida chega primeiro de mansinho, acariciando os pés; depois, com uma força capaz de invadir os ossos dolorosamente.
O Pacífico espanta quem nele toca. E encanta quem nele chega. Livre do frio cortante das suas águas, detive-me para observar o mundo. Uma janela se abriu para o infinito. E o infinito trazia todas as possibilidades de um mundo novo. Era apenas água, o mar, mas era tudo diferente. De repente, senti-me em paz. É isso que o tormentoso Pacífico traz, a paz.
Os passos firmes e decididos de uma alma inquieta - e por um átimo pacificada - ficaram gravados na areia por algum tempo até serem levados pelas ondas. Apagados para sempre, gravados na mente por uma eternidade. Pus-me a pensar. Pensei em como mares tão distantes podiam estar assim tão próximos, a menos de meio dia um do outro; pensei em como o mundo era pequeno e como nós, humanos, reduzimos fronteiras com nossas invenções; pensei em como, apesar disso, acessar o Pacífico continua sendo um desafio para o Brasil. Um devaneio me invadiu o corpo.


Nas Cinque Terre italianas, o azul forte e as brumas brancas do mar da Ligúria eram tão maravilhosamente belos que bloquearam qualquer tentativa de pensar. O vazio que se estabeleceu na mente e na alma deu lugar a um espanto contemplativo da região, por muitos anos quase inacessível. O reflexo dos raios do sol brilhando no horizonte no azul escuro das águas criou um cenário paradisíaco, sonorizado pelo barulho sincronizado das ondas quebrando nas rochas do penhasco. Impossível pensar diante de uma paisagem desta! Ali, bastava olhar e sentir.
Na praia pedregosa, porém, eu parei e deitei. Olhei para o céu e o sol, que se punha à direita. Olhei para a mãe que brincava alegremente com seus filhos. Olhei para as montanhas que cobriam rapidamente os raios solares. Olhei para o guia que exibia o nome daquele tão desejado chão - “Itália”. Lembrei de todos os sonhos que nutri até ali. Por breves minutos, deixei o tempo parar. Uma felicidade imensa tomou conta de mim. Corpo, mente e alma finalmente unidos. Ali, não mais devaneei. Apenas vivi - até o próximo apito do trem...



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