Museus diferentes

Numa viagem, quando já se conhece um lugar, a tendência é procurar novas atrações nas visitas seguintes. Ou seja, depois de conhecer o chamado “top ten”, o que há de principal, numa próxima estadia o foco se volta para atrações secundárias. Foi assim que, em Nova York, fui parar em dois museus interessantes. Não são propriamente estranhos, como os relatados na postagem anterior, mas diferentes.
O primeiro deles chama a atenção já por sua arquitetura – e olha que em Nova York o que não faltam são prédios de destaque. Concluído em 2007, o prédio fica no Bowery (na avenida que leva o mesmo nome da área), ao lado do SoHo. Desenhado por um dos mais famosos escritórios de arquitetura do mundo, parece um amontoado de caixinhas sobrepostas e equilibradas sabe-se lá como – ou “uma escultural pilha de caixas retilíneas dinamicamente deslocadas”, como descrito em seu site. Na fachada quase sem vida, um letreiro traz as cores do arco-íris: “Hell, Yes!”.
O nome do lugar é sugestivo - New Museum - e traduz exatamente a sua proposta: criado em 1977 por Marcia Tucker, é um espaço destinado a novas artes e novas ideias, principalmente envolvendo artistas fora do círculo dos grandes museus. É, pode-se dizer, um espaço experimental em certo sentido. Não é à toa que o museu funciona também como uma espécie de escola, onde o público pode ter contato com a prática artística e aprender com ela. Seu foco é a arte contemporânea, em suas mais diversas manifestações.
Quando lá estive, em 2009, estava em exibição uma interessante retrospectiva sobre uma faceta do movimento pelos direitos civis dos negros. Eram os trabalhos de Emory Douglas, um artista revolucionário do partido Black Panther, ou “Pantera Negra”. Ele era o responsável pela criação visual do movimento, o que incluía o jornal semanal do grupo. Fez ilustrações, cartoons, etc. A mostra reunia 165 pôsteres, jornais e impressos feitos entre 1967-76 (o partido, surgido em Oakland, na Califórnia, em 1966, foi dissolvido no início dos anos 1980).
Outras duas exibições igualmente interessantes reuniram obras de Dorothy Iannone, norte-americana residente na Alemanha, estreando numa exposição individual nos EUA, e fotos de David Goldblatt documentando as “complexidades e contradições da sociedade sul-africana”, notadamente durante o regime do apartheid.
No caso dela, eram esculturas, pinturas e desenhos feitos entre 1965 e 78 retratando “a experiência sexual feminina como (uma experiência de) transcendência, união e espiritualidade”, conforme descreve o informativo da mostra. Já as fotos de Goldblatt “capturam os sistemas de valores sociais e morais que regeram a tumultuada história das políticas segregacionistas da África do Sul e continuam a influenciar as mudanças políticas” do país.



Outro museu curioso que visitei em Nova York, localizado numa das esquinas mais movimentadas do Central Park, a Columbus Circle, é o MAD (Museum of Arts and Design). Ele reúne uma série de objetos decorativos que abusam do design para se destacar. São esculturas, vasos, mesas, cadeiras, pratos, colares, em alguns casos destituídos de sua função original para servir como peça de decoração.
Dito de uma maneira mais técnica, segundo o site do museu, o MAD “explora a zona obscura entre arte, design e artesanato”, destacando “a criatividade contemporânea e as formas com que os artistas e designers de todo o mundo transformam materiais por meio de processos que vão do artesanal ao digital”.
Quando lá estive, um dos trabalhos que mais chamaram minha atenção foram os pratos feitos por Klaus Moje (detalhes foram postados no blog Bate-Bola). Ele trabalha com vidros coloridos: vai juntando filetes de formas variadas – numa ação com características paradoxalmente artesanais e industriais – para dar vida a pratos que são verdadeiras obras de arte.
Assim como o New Museum, o MAD – fazendo jus a seu objeto de atuação – destaca-se pela arquitetura ousada de seu prédio-sede. Vale a pena olhar com atenção – para isso, é preciso se afastar um pouco, já que o edifício é alto e o efeito visual só é atingido a certa distância.
Obviamente, nenhum turista de primeira viagem deixará de visitar os pontos mais conhecidos de Nova York para se aventurar em museus um tanto diferentes. São, de fato, atrações secundárias – a não ser que alguém tenha um foco específico ligado aos temas tratados.
Numa cidade que respira e transpira arte em cada esquina, não é fácil disputar a atenção e o espaço com nomes como Guggenhein, Metropolitan e MoMA, mas o New Museum, o MAD e tantos outros estão lá, à espera de um visitante curioso e com a alma disposta a conhecer e a aprender. Sempre e cada vez mais. Afinal, não é para isso também que servem os museus?




* A foto do prédio do MAD foi retirada do site oficial do museu; as demais são arquivo pessoal

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