Um tesouro no interior do Canadá

Niagara-on-the-lake é uma daquelas joias guardadas no fundo de um baú. Eu mesmo só a descobri por acaso, pesquisando como se chegava mais facilmente às famosas cataratas do Niagara, pertinho da cidadezinha com ares interioranos, mas que um dia foi uma espécie de capital do Canadá. É que as primeiras cinco sessões da legislatura no país ocorreram lá entre 17 de setembro de 1792 e 3 de junho de 1796.
A história está contada numa placa logo na entrada do vilarejo – que já foi conhecido como Butlersburg, Newark e Niagara do Oeste desde que os primeiros moradores chegaram por volta de 1780. Em maio de 1813, o lugar foi tomado por forças norte-americanas, que o incendiaram durante a retirada em dezembro do mesmo ano.
Tão importante quanto a história, porém, é constatar que Niagara-on-the-lake conseguiu preservar sua identidade ao longo dos anos. Hoje, a cidade que se conhece não é muito diferente daquela que se via um século atrás. Um lugar romântico como poucos, encantador, de clima agradável, beleza arquitetônica singular, jardins coloridos e muito bem cuidados – como de resto tudo por ali.
O melhor a fazer na cidade é caminhar despreocupadamente. Você passará por lojinhas de artesanato e de guloseimas típicas, que misturam a beleza da arquitetura com um charme próprio (e cada uma tem o seu para exibir). Quer um exemplo? A farmácia logo na entrada da cidade. O local preserva o mobiliário e os utensílios do início do século passado, uma verdadeira pérola que ajuda a contar a história do comércio e da sociedade locais. A fachada branca com arcos sobre a porta e as duas vitrines e uma estranha luminária dourada no alto é tão encantadora que sequer parece uma farmácia. 



E assim ocorre com muitos outros estabelecimentos ao longo da via principal, a Queen Street. Aliás, a minúscula cidade concentra seus atrativos no quadrilátero englobado pelas ruas Queen, King, Mary e Mississauga. Ao caminhar pela área, repare na presença da natureza. Pequenos jardins e áreas verdes - onde é possível ver senhores e senhoras “jogando conversa fora” – formam com a arquitetura do lugar um conjunto harmonioso raramente visto nas cidades atualmente. Acrescente a este cenário charmosas charretes de madeira pintada de branco decoradas com veludo e você terá a certeza de que faz parte de um conto de fadas.
Até a parte residencial atrai a atenção. Típicas casas de madeira, com cercas baixas também pintadas de branco, dão a impressão de pequenos palacetes. Sem luxo aparente, é verdade, mas rodeados de uma beleza incomum (por mais que às vezes existam apenas árvores comuns ao redor). É o “conjunto da obra”, o clima (metaforicamente falando) do lugar que confere à área um toque diferenciado.
Não deixe de olhar detalhadamente para cada um dos canteiros floridos, seja em frente aos estabelecimentos comerciais e casas ou ao longo das vias. Após o inverno, quando o branco da neve predomina, tulipas e outras flores florescem e colorem o lugarejo, renovando a vida e dando um tom quase impressionista a Niagara-on-the-lake.
Quer uma dica? Sente-se num dos bancos na calçada e gaste alguns minutos só observando a beleza e o movimento ao redor – escasso, registre-se, e é aí que reside a diferença dessa experiência. Tem-se a impressão de que ali o tempo passa mais lentamente, o que faz com que nosso relógio biológico busque também trabalhar de modo mais tranquilo – o que é positivo para quem vive a correria do conturbado mundo moderno.
Niagara-on-the-lake é definitivamente especial, diferente de tudo o que você já deve ter visto em termos de cidade. É uma daquelas típicas cidadezinhas do interior paulista, com duas diferenças importantíssimas: sua história e sua preservação seculares. O local é tão singular que não se pode entrar de ônibus – estes veículos são obrigados a parar numa espécie de estacionamento público e as pessoas caminham até o centro histórico. A caminhada, não seria preciso dizer, é deliciosa. São apenas algumas centenas de metros numa via tranquila e arborizada, que serve de aperitivo para o que virá (e o que se verá).
É inevitável desejar, ainda que por um breve instante, morar naquele lugar. Se isto soa quase impossível e você não reservou nenhuma noite em alguma pousada ou hotel, não deixe de comprar uma guloseima, experimentar um café, um vinho ou seja lá o que for caminhando de modo errante ou mesmo sentado a uma mesa apreciando a vista. Tenha certeza: será uma experiência inesquecível. Ainda que a comida ou bebida não tenha nada de especial, lembre-se que você está em Niagara-on-the-lake. A partir daí, é só soltar a imaginação ou, se preferir, não pensar em nada, apenas curtir o momento. “Carpe diem!”










Em tempo: a região de Niagara-on-the-lake é conhecida pelas vinícolas. O produto de destaque é o chamado “icewine”, vinho gelado numa tradução literal. Trata-se de um vinho feito com uvas colhidas no ápice do inverno. Como elas ficam desidratadas, a bebida é mais doce que as tradicionais. O gosto é bom, mas o preço um tanto salgado.

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