A ponte do Brooklyn por um escritor

“A ponte do Brooklyn foi inaugurada em 24 de maio de 1883. (...) Foi um grande dia em Nova Yorko comércio parou, as casas se enfeitaram com bandeirolas, os sinos das igrejas tocavam, os navios a vapor apitavam. Ouviram-se salvas de canhões dos fortes do porto e os navios da marinha atracaram perto da ponte, e finalmente, em carros abertos chegaram as autoridades. (...)
Até hoje, a ponte do Brooklyn continua sendo a ponte mais famosa da América e, até o término da construção, em 1903, da ponte Williamsburg sobre o rio East, entre o Brooklyn e Manhattan, era a maior ponte pênsil do mundo. (...) Ela foi cantada por poetas, admirada por estetas e procurada por suicidas. Sua torre, que se ergue sobre os telhados dos blocos de apartamentos de Lower East Side, impressionou tanto um jovem do bairro chamado David Steinman, que ele decidiu rivalizar com os Roebling."
Gay Talese, “Fama & Anonimato”, p. 168-169


Leia também:


A ousadia de Chicago

Cidades precisam de marcos, algo que as diferencie das demais. Pode ser um ponto histórico, arquitetônico, uma obra de arte ou coisa do gênero. Geralmente, quando se decide executar um projeto para dar a uma localidade um determinado marco, a polêmica surge. A ideia – algumas vezes megalomaníaca, é verdade - costuma soar como gasto desnecessário, principalmente em regiões mais pobres. Há sempre alguém para levantar a voz e dizer: “Existe tanto a ser feito em saúde, educação, segurança...”. Não que isto deixe de ser válido, mas este tipo de argumento ignora o poder indutor de um determinado projeto que, à primeira vista, pode parecer inútil.
Naturalmente, é preciso conhecer a vocação de uma localidade ao discutir projetos mais ousados. É preciso analisar com cautela o chamado custo-benefício. Na Espanha, por exemplo, um centro cultural desenhado pelo arquiteto Oscar Niemeyer para a cidade de Avilés não deu certo, apesar de carregar a assinatura de um dos gênios da arquitetura mundial – morto em dezembro de 2012.
Há casos, porém, em que o projeto funciona muito bem. Além de mudar a paisagem (ou intervir nela, uma de suas funções), é capaz de atrair turistas – e isto significa divisas, dinheiro para a economia local. Um bom exemplo pode ser conferido em Chicago (EUA). Uma escultura de certo modo estranha no Millenium Park, o principal parque da cidade, atrai a atenção de milhares de pessoas todos os dias. Gente de todo o mundo vai até o local para ver a “bolha” e se ver.
Assinada pelo artista britânico Anish Kapoor, a chamada Cloud Gate foi feita entre 2004 e 2006 e nada mais é que uma espécie de gota de mercúrio gigante formada por 168 placas de aço inoxidável polido. Funciona como um espelho refletindo o belíssimo “skyline” de Chicago e o céu, distorcendo-os para dar o toque de diversão e vida a um objeto fisicamente inanimado.
Pesando 110 toneladas, a escultura em formato de feijão (que lhe rendeu o apelido de “The Bean”) funciona como uma espécie de portão (daí o “gate” do nome). Embora não ligue nada a lugar algum, criou-se um vão livre por onde as pessoas conseguem olhar seus reflexos na cavidade côncava numa infinita exposição de imagens divertidamente distorcidas.
A Cloud Gate foi o primeiro trabalho ao ar livre de Kapoor nos EUA e, acredite, é uma diversão! Impossível não voltar a ser criança por alguns instantes ao ver sua imagem refletida num espelho gigante numa “variedade de perspectivas”, como define o site oficial da cidade, e também brincar com o “skyline” de Chicago em diversos ângulos e distorções.













E não é só. O Millenium Park abriga também a Crown Fountain. Desenhada pelo artista espanhol Jaume Plensa, a tal fonte é formada na verdade por dois grandes blocos de vidro que projetam rostos de cidadãos de Chicago em telas de LED. De tempos em tempos, os rostos “cospem” água. Literalmente! A inspiração vem dos tempos antigos, quando era comum as fontes terem espécies de gárgulas, rostos mitológicos com bocas abertas cuspindo água como símbolo da vida.
Assim, a Crown Fountain vira uma fonte interativa, na qual crianças e adultos brincam e se molham – intencionalmente ou de surpresa, levando um banho (como eu vi, num dia frio, provocando risos de quem assistia à cena e, depois, até de quem ficou encharcado – afinal, o jeito é entrar no clima da brincadeira e se divertir também).
Nos dois casos, as obras custaram alguns milhares (provavelmente milhões) de dólares. Ok, Chicago é uma cidade rica, mas ainda assim os projetos provocaram polêmica (havia dúvidas sobre a execução dos trabalhos e sua manutenção). O fato, porém, é que milhões de turistas vão até a cidade todos os anos atraídos pela famosa “bolha” e pela fonte que projeta rostos diversos. É o efeito catalisador de projetos ousados e inovadores que costumam ser pensados, idealizados e executados por gente igualmente ousada. As cidades, claro, agradecem!





Em tempo: o vídeo a seguir mostra a fonte em funcionamento:


PS: a polêmica envolvendo projetos diferenciados sempre permeou a história da humanidade. Em Paris, por exemplo, a construção da torre Eiffel despertou críticas vorazes da comunidade na época – final do século 19. Moradores viam naquela enorme torre uma excentricidade que prejudicaria a harmônica paisagem parisiense.
Hoje, não é preciso citar o número de pessoas que vão à capital francesa só para conhecer a famosa estrutura de aço projetada pelo engenheiro Gustave Eiffel e erguida para a Exposição Universal de 1889. É a atração paga mais visitada do mundo e agora motivo de orgulho dos parisienses!

NY em verso & prosa (e imagens)

Não sei como
Pode parecer tão miraculosa e viva
Uma pele orgânica para uma pilha de cubos de ar

Mutável, delicada, descartável, feia, misteriosa
(sete andares só de janelas de banheiro)
compacta: um homem dormindo, uma mulher cortando alho fininho sobre o óleo
(que fedor, que cheiro maravilhoso)
brotam chaminés, tubos, ventiladores, antenas tensas...
o cinza cartilaginoso é parte de uma ponte,
aquele hangar de rede numa cobertura é um teto sob o qual se joga.
Mas por que uma escada de metal há de subir, ereta,
aspirando ao céu, cinco degraus acima de um patamar
para o nada?
(“An east window on Elizabeth Street”, por Schuyler, IN: Edmund White, “City Boy – Minha Vida em Nova York”, p. 49)


"Todo mundo paga pelo ar e pela luz do sol (...)."
(Gay Talese, "Nova York é uma cidade de profissões estranhas", IN: "Fama & Anonimato", p. 90)




"Acontecem coisas em Nova York que provavelmente não acontecem em nenhum outro lugar."
(Gay Talese, "Nova York é uma cidade de anônimos", IN: "Fama & Anonimato", p. 57)


"E por aí vai, dia após dia em Nova York; as pessoas só têm uma coisa a dizer umas às outras." 
(Gay Talese, "Nova York é uma cidade de anônimos", IN: "Fama & Anonimato", p. 52)


  

"Quem diabos olha para cima nesta cidade?"
(Gay Talese, "Nova York é uma cidade de coisas que passam despercebidas", IN: "Fama & Anonimato", p. 35)



Leia também:



Os recados de Siena

Siena emana história. Pode parecer óbvio isto na Itália, cuja capital – Roma – é considerada berço da civilização ocidental moderna. O fato é que a pequena cidade toscana tem seu lugar cativo quando o assunto é relembrar o passado.
Com origem etrusca e depois romana, Siena chegou a disputar com Florença o lugar de destaque da região durante a Idade Média e o Renascimento. Perdeu a disputa, é verdade, mas nem por isso saiu derrotada. Quer uma prova? O centro histórico da cidade é considerado patrimônio da humanidade pela Unesco (órgão das Nações Unidas para a Educação e a Cultura).
O título não foi em vão. Siena é um esplendor de arquitetura, cultura e história. No primeiro aspecto, possui construções magníficas, como a catedral erguida no século 13 e toda decorada com mármore preto, branco e vermelho e com mosaicos dos mais belos já vistos em todo o mundo. No que diz respeito à cultura, a cidade sedia um dos eventos mais relevantes da Itália, o famoso palio. Quanto à história, basta dizer que o primeiro banco tal como o conhecemos hoje surgiu lá – e ainda está na ativa.


Andar por Siena é mergulhar em um passado de glória. A cidade virou rota mercantil, o que a fez ganhar destaque séculos atrás. Ficava num ponto estratégico, entre Roma e o norte do país (na época ainda não unificado, o que só ocorreria no século 19). Reuniu poderosos, que transitaram pelas mesmas vielas que hoje podem ser pisadas por turistas de todo o mundo. São vias muitas vezes escuras e frias, em subidas e descidas, repletas de símbolos que identificam as famílias e as contradas (espécies de paróquias ou bairros) a que pertencem (a disputa entre elas é a raiz do palio).
Poços, arcadas, relevos e desenhos marcam os imóveis.



Igrejas são muitas, como em toda cidade italiana do período. Destaque mesmo é a catedral. Construída entre 1215 e 1263, parece imponente diante da escadaria e do pequeno monte no qual foi erguida. Logo na entrada, turistas param para observar os mosaicos do chão. Eles contam a história da cidade de modo ilustrativo (um deles simboliza o domínio que Siena exercia na região) e nas mesmas cores que ambientam o templo, conferindo plena harmonia ao lugar. 
Os pilares em mármore branco e preto ajudam a dar à arquitetura do templo um tom singular e a realçar o dourado reluzente em vários pontos. Definitivamente, a igreja é única. 
Juntam-se a isso os tradicionais afrescos, o teto ricamente decorado, com estrelas douradas (o que indica um certo tom astrológico) e tem-se uma verdadeira obra de arte. E olha que ela não chegou a ser concluída. Ao lado da catedral, onde hoje funciona um museu, é possível ver a parede erguida para ser uma nave lateral - que nunca chegou a existir.













É na Piazza del Campo, porém, que estão as principais estruturas arquitetônicas de Siena. A praça por si só já é um tesouro. Possui um formato de leque ou meia lua. Da frente da prefeitura - o belo e imponente Palazzo Pubblico, uma construção de tijolos vermelho-alaranjados com torres de castelo e dezenas de janelas abobadadas -, partem nove divisões. Como a praça tem uma angulação acentuada, o desenho formando o leque fica ainda mais evidente.
Não é um desenho qualquer. É um forte símbolo da cultura e religiosidade locais: cada divisão dizia respeito a uma contrada. Tão relevante quanto isso, segundo uma guia, é um recado que Siena dava ao mundo na época: a união das contradas representava princípios republicanos e de democracia numa época (século 12) em que ainda prevaleciam poderes feudais. A cidade à frente do seu tempo.
Valores históricos, culturais, religiosos e também artísticos. O chão da praça em pequenos tijolos vermelhos é diferenciado e raro. Para completar, a famosa fonte Gaia, harmônica e estrategicamente instalada no espaço central, na direção do imponente prédio da prefeitura, ao lado do qual ergue-se a famosa torre Mangia. Uma fonte de água, símbolo da vida, com nome místico – é como esotéricos chamam o planeta Terra; na mitologia, gaia é a “Mãe Terra”.







E como uma cidade que se apresentava à frente do seu tempo, pioneira em vários aspectos, político e econômicos, sucumbiu? Talvez porque não tenha acumulado o poderio militar da rival Florença ou então porque os recados que emanava ainda eram prematuros para períodos marcados por senhores feudais e aristocratas – e as famílias florentinas eram bons exemplos de poder.
O fato é que Siena perdeu a batalha, mas coube à história fazer com que não perdesse a guerra. O tempo a recolocou num lugar de valor e destaque na Toscana, ainda que esteja distante do brilho de Florença. Hoje, porém, não há disputa entre elas. Ao contrário: são, ambas, parte de um rico enredo que ajuda a contar muito da história da Itália e – por que não? – da civilização ocidental atual, que ainda carrega fortes marcas daqueles períodos.
Bem, ao menos os bancos ainda estão por aí (e o pioneiro deles está lá, em Siena, para quem quiser ver...).