Um encontro com Praga

É inevitável lembrar de Kafka em Praga. Não que um de seus mais famosos filhos – talvez o mais famoso ou universal – esteja em cada canto, em cada edificação. Não está, definitivamente. Se não o procurar, se não souber onde, você não o encontrará. Mas Kafka está lá, em todos os lugares. Ele está no clima de Praga, na brisa fria que bate suavemente na face, gelando-a ainda que sob o sol da primavera, um sol tímido após uma chuva leve; está nas vielas e becos úmidos e sombrios que ligam cá e acolá.
Em qualquer lugar está Kafka, o filho ilustre. Ele persegue tal qual um espírito errante, ainda que você não o conheça, nunca dele tenha ouvido falar. Ele domina, reina, faz-se presente por sua ausência, espalha-se assim pelos cantos, pelo ar que se sente e se respira. Kafka está para Praga como Praga esteve para ele, Kafka. Em seus passos diários pela Na Porici, a rua cujo nome é impossível acentuar nos teclados brasilianos, trajeto rumo ao local de ofício no Instituto de Seguros contra Acidentes de Trabalho, vez ou outra parando na Torre de Pólvora que separa a cidade nova da cidade velha para esperar um amigo, observar o movimento na praça da República (a Namesti Republiky – taí outra palavra impossível de acentuar, namesti) de um lado ou, quiçá, na rua que leva à Staromestske Namesti, outra praça importante, coração da cidade velha.
Na Porici ou namesti, seja onde for, lá estava Kafka, lá está Kafka. Dia e noite vagando pelas ruas de Praga, respirando o ar mágico daquelas ruas encantadas, inspirando-se para o ofício principal ao qual reservava as noites, a escrita. E para a qual procurava o silêncio, que encontrou na casinha número 22 da Viela Dourada, ou Golden Lane, ou ainda Goldmachergässchen, assim mesmo, tudo junto, era nesta língua quase indecifrável que Kafka escrevia. Foi por meio dela que se tornou célebre.
“Certa vez fui procurar apartamento com Ottla, no verão. Eu não acreditava mais na possibilidade de encontrar silêncio de verdade, mas mesmo assim fui procurar. (...) Só por brincadeira resolvemos perguntar na pequena viela. Sim, uma casa estaria livre para ser alugada em novembro. (...) A casa tinha muitas deficiências no início, não disponho de tempo suficiente para contar o desenvolvimento. Hoje ela me agrada bastante. Resumindo: o belo caminho até lá, o silêncio ali, uma parede fina apenas a me separar do vizinho, mas o vizinho é bastante silencioso.”
Vizinhos na Alchymistengässchen (este era o outro nome possível naquela língua quase indecifrável para a Viela Dourada, ou Golden Lane), a rua dos ourives, alquimistas, ferreiros, farmacêuticos, ferramenteiros, a rua dos trabalhadores no longínquo castelo de Praga, no alto do morro, para onde Kafka subia em busca de tranquilidade. A rua das casinhas pequeninas, de portas pequeninas, de cômodos diminutos, quase de brinquedo, um apêndice pobre numa área nobre, rua de casas modestas a Viela Dourada, nome imponente, ou Goldmachergässchen ou Alchymistengässchen, nomes indecifráveis (ou quase – “gold”, ouro por tradução do inglês; “alchymisten”, alquimista por semelhança com o português).
Percebe-se, Kafka persegue quem não o procura porque está espalhado pelo ar de Praga, esconde-se de quem o busca porque é preciso saber ao certo onde encontrá-lo. Não há placas “Kafka ali”, “Kafka acolá”, “Aqui Kafka”, mas pare, olhe, respire – sente a presença? Onipresente no clima, talvez ele esteja também nas palavras da língua quase indecifrável. Certamente está. Foi concatenando habilmente as palavras que ele impregnou o ar da cidade. Quase uma metamorfose de um e outro, escritor e lugar.
Quem procura Praga encontra Kafka. Quem procura Kafka encontra Praga. Acredite: ele persegue tal como o antigo calhambeque vermelho, também onipresente, a cada esquina deixada para trás, em cada café que se olhe, em cada rua por onde se passe, ele estava sempre lá, o antigo calhambeque vermelho, charmoso, imperial, fora do tempo e perfeitamente encaixado no espaço. Tal como Kafka em Praga hoje, sujeito e objeto formando um só corpo, um só espírito. A cidade, o escritor, o calhambeque.

PS: citei que algumas palavras são impossíveis de acentuar no teclado em língua portuguesa porque o tcheco possui um acento como o circunflexo, só que virado ao contrário. É possível acentuar usando os símbolos do Word (ĕ, por exemplo), mas preferi abrir mão deste recurso para forçar um certo romantismo no texto.

* O trecho entre aspas é parte de uma carta escrita por Kafka para Felice Bauer - entre o final de 1916 e início de 1917 - e foi retirado do livro de Harald Salfellner, “Franz Kafka & Praga”.

O prisioneiro 28.320 (e o pijama listrado)

“Claro que tudo isso aconteceu há muito tempo e nada parecido poderia acontecer de novo.
Não na nossa época.”
John Boyne, “O menino do pijama listrado” (p. 186)


Um pijama. Não exatamente um pijama. Romântica e inocentemente um pijama. Aos olhos de uma criança, de um menino. Um pijama listrado, listras brancas e azuis. Surrado. Um uniforme de pano grosso, rústico. O uniforme do prisioneiro 28.320. Um número. Sem nome. Sem alma. Sem vida. Uma vida. Muitas vidas. Milhares de vidas. Perdidas. Vencidas. Levadas. À força.
“O pijama listrado!” Uma exclamação de espanto. Arrepio. Terror. Dor. Um aperto forte no peito, um nó na garganta. Incredulidade. Realidade. Dentro daquele armário de madeira frio e sombrio, um pijama listrado. Calça e blusa, separados, como que formando um corpo. Um dia alguém esteve ali. Alguém que passou a ser o número 28.320. Alguém que recebeu um carimbo – culpado. De um crime que ninguém sabe ao certo qual foi.
“A casa nova (...) ficava isolada num lugar vazio e desolado, e não havia nenhuma outra casa à vista, o que significava que não haveria outras famílias por perto nem meninos com quem brincar, fossem amigos ou fossem encrenca.”
Não era exatamente uma casa, embora fosse uma morada. A última morada. Um campo. De trabalho. Forçado. “Arbeit macht frei” – “o trabalho liberta”, terrível ironia. Um campo. De concentração. De gente, de humanos, de histórias, de vidas. Cada um ali carregava uma história, a própria história. Uma história que em muitos casos foi perdida, escondida sob um número – 28.320 era o do prisioneiro daquele pijama.
Um campo. De extermínio. Corpos amontoados esperando a sua vez para o crematório. Corpos? Corpos... “Nada além de pele e osso”, mas corpos, gente, humano, ser humano. Vida. Três mil corpos foram encontrados quando as forças aliadas invadiram o local em 29 de abril de 1945. Corpos jogados como bonecos, como animais (mereceriam os animais tratamento assim?). Uns sobre os outros, cena de horror. Fotografada e eternizada na história, na memória. Uma cena que, descobre-se de imediato, jamais será esquecida. Não deve ser esquecida.
“(...) Mas, ao redor da casa nova, não havia outras ruas, ninguém caminhando por lá ou correndo por ali, e certamente nada de lojas, nem de bancas de frutas e legumes. Quando fechava os olhos, tudo ao seu redor parecia simplesmente vazio e frio, como se ele estivesse no lugar mais solitário do mundo. No meio de lugar nenhum.”
KZ-Gedenkstätte Dachau. O campo de concentração de Dachau, a poucos quilômetros de Munique, na Baviera. Não o maior, mas o pioneiro e um dos principais campos de extermínio espalhados pelos nazistas na Europa. Entre 1933 e 1945, serviu de modelo para todas as experiências que se viu nos demais campos. Do crematório à câmara de gás. Prisão-base dos soldados russos. E de judeus, ciganos, homossexuais, inimigos políticos, testemunhas de Jeová... Por ali passaram cerca de 200 mil pessoas. Quarenta mil jamais saíram.
O local chegou a abrigar, numa só vez, cerca de 30 mil pessoas em suas galerias. Quatro delas eram destinadas a oficinas; outras 28 serviam de acomodação – fileiras de “camas”, na verdade uma grande armação de madeira tal qual um armário gigante, de grandes gavetas, como se vê nos filmes. Hoje, o que se vê é um imenso vazio. O que se ouve é um profundo silêncio. O se sente é um estonteante estupor.
“(...) Porém, havia algo a respeito da casa nova que fazia Bruno pensar que ninguém jamais ria por lá; que não havia motivo para riso e nada com que se alegrar. (...) e agora estava encalhado nesta casa fria e desagradável, com três criadas sussurrantes e um servente que era a um só tempo infeliz e bravo, onde ninguém parecia ser capaz de rir novamente.”
E só se enxerga e se sente e se respira tristeza por onde quer que se olhe, por onde quer que se vá. Das salas abandonadas, vazias, frias e cinzentas que serviram de escritório ao imenso terreno onde antes ficavam as galerias, hoje apenas amontoados de pedra; dos prédios de tijolos onde ficavam os fornos de assar gente à sala com ralos no chão e pequenas aberturas superiores de onde saía gás; das câmaras de desinfecção às guaritas de vigilância que guardavam espaços entre o fosso e as cercas de arame farpado e eletrificadas – nada ali é motivo para sorrir.
Dachau, a cidade que emprestou seu nome ao campo da morte, simbolizou o lado mais sombrio e macabro da ascensão e queda de Hitler e do nazismo. Ajudou a escrever o capítulo mais cruel da história da humanidade no século 20. Uma página - espera-se definitivamente virada – para servir de apoio à luta incessante pela paz e liberdade no mundo.










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Esta postagem é a minha modesta homenagem à memória das milhões de pessoas que perderam suas vidas e sofreram em razão das atrocidades do nazismo. Pessoas como o prisioneiro 28.320, cujo uniforme está exposto no campo de concentração de Dachau. Uniforme que me levou, na fração de um segundo, a uma viagem pela história de um menino, o menino do pijama listrado.
Quem já leu o livro do irlandês John Boyne ou viu o filme baseado na obra certamente sentirá – como eu senti – uma emoção diferente ao descobrir aquele uniforme guardado em um armário. Ele surge de repente, em meio à exposição de fotos, placas e objetos que contam a história daquele campo.
Sempre tive a curiosidade de visitar um campo de concentração. Não por entusiasmo de turista – o local definitivamente não suscita entusiasmo – e sim pela paixão por história, pela vontade de enxergar com meus próprios olhos o que sempre vi na TV e no cinema e li nos livros, jornais, revistas e na Internet. Sabia que seria uma experiência diferente e única. Sabia que ela despertaria um sentimento que não encontra palavras para ser descrito.
É preciso, sim, ter estômago para ultrapassar o portão que separava a liberdade da prisão, a vida da morte, o portão que guarda a famosa inscrição comum a todos os campos de extermínio – “o trabalho liberta”. Literalmente o fim da linha (era sempre no portão dos campos que terminava a linha dos trens que levavam os prisioneiros).
Em certo momento, pede-se um obsequioso silêncio, afinal há locais que serviram de cemitério, não exatamente na acepção que conhecemos, e sim um lugar onde foram enterrados os corpos que escaparam dos crematórios. Há gente enterrada naquele solo.
Diariamente, às quatro horas, um sino toca no campo de Dachau. E por quem o sino toca? Eis a angustiante pergunta.
Andar por aquele lugar, ver os dormitórios, as fotos, a pia abandonada num canto sujo e mal iluminado, ouvir as histórias, pensar em cada um que em vão tentou (seria a derradeira esperança de encontrar um fim?) cruzar as cercas, observar os vasos sanitários dispostos lado a lado, o local do banho, tudo desprovido de alma e personalidade, olhar os fornos, imaginar a fumaça escapando pelas chaminés inevitavelmente nos faz pensar. E uma perturbadora questão fica martelando na mente: por quê?
É chocante constatar que tudo foi real – talvez inconscientemente pensemos que no fundo tudo não passava de um filme. Sente-se um soco no estômago, capaz de derrubar o mais forte dos pugilistas. Lembrei do que me disse certa vez uma professora ao relatar a visita que fizera a um campo de concentração: “A gente sente o cheiro de morte”. É isto, cada pedaço daquele lugar recende a morte.
Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, tem-se um fio de esperança. Aquela tragédia talvez seja a evidência mais concreta de que nada daquilo jamais poderá se repetir. “Não na nossa época.”







 

 
 






Os trechos entre aspas são da obra citada na frase de abertura desta postagem e estão nas páginas de 18 a 20.

** As fotos são minhas, de Lúcia Parronchi e Paulo Venâncio

A história do século 20 passa por aqui

“Ser alemão é uma carga enorme. Devemos aceitar. Não existe alternativa a isto.”
Bernhard Schlink, jurista e escritor, em entrevista à “Globonews”

“Não teve professor, livro, documentário ou reportagem que me ensinasse mais sobre a história da Alemanha (...) do que essa viagem a Berlim.”
Dany Colares, jornalista e criadora do site “Feriado Pessoal”


Poucos lugares em todo o mundo contam tanto a respeito da história do século 20 como Berlim. E de um modo tão visceral. Tudo está às vistas, sem disfarces ou meias-palavras. Terror – é o que se lê (e vê) em muitos lugares. As entranhas da humanidade expostas cruamente. É preciso lembrar para não esquecer. Lembrar para aprender. Aprender para não repetir.
Esquecer mesmo parece impossível. “Não existe alternativa a isto”, confessou numa recente entrevista um resignado Schlink, autor do magistral “O Leitor”. Ao caminhar pelas ruas de Berlim, já não importa quem serviu, quem incentivou, quem não impediu, quem afinal se omitiu - como bem coloca o escritor. Está gravado na história, eis uma verdade imutável. “Devemos aceitar.”
Tão visceral quanto o que se vê é o que se sente. As imagens vão surgindo aos poucos, vão se revelando ao sabor dos passos, um encontro a cada esquina. A empolgação inicial de cada descoberta (“Olha, aqui passava o muro!”) vai dando lugar a um emaranhado de questões, finalmente traduzidas em uma única palavra – uma pergunta na verdade, uma incômoda pergunta - exposta no final daquela barreira de concreto e ferro que separou em dois mundos uma mesma cidade, um mesmo povo: “Why”.
Não existe resposta. Talvez seja possível falar da insanidade humana – mas e os milhões que permitiram? Talvez seja razoável falar de um sentimento coletivo reprimido de inferioridade – mas nem isto será suficiente para entender. Certamente, não há um motivo único que levou ao nascimento e à ascensão do nazismo no solo alemão e tudo o que dele decorreu.
A resposta certamente não virá; a pergunta ficará martelando na mente por um bom tempo. Hoje, mais de seis décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, não é exatamente uma resposta que busca o povo alemão. “Devemos aceitar.” O que importa agora é contar a história e é para isto que estão lá os rastros marcados no asfalto por paralelepípedos e, a cada certa distância, placas indicando o traçado do antigo “Berliner Mauer” - o Muro de Berlim.
Também estão lá a Topografia do Terror e o Check Point Charlie (atenção: o nome não faz referência a pessoa alguma; é apenas a forma como a letra “c” é chamada no alfabeto fonético, usado por exemplo na aviação e pelos militares), uma das barreiras que serviam como postos de fronteira dividindo a Berlim oriental da ocidental. Estes são os pontos principais de uma jornada que se espalha por toda a cidade. Da Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche, a igreja construída no final do século 19 e destruída na guerra, cujos destroços permanecem expostos como feridas, às cruzes presentes numa das esquinas do Tiergarten, o manto verde local, no cruzamento da Scheidemannstrasse com a Ebertstrasse, homenageando aqueles que morreram tentando simplesmente atravessar uma via cortada por um muro naquilo que até outrora fora sua cidade, uma única cidade para todos.









Hoje, o Check Point Charlie se transformou quase numa Disneylândia, com soldadinhos fantasiados segurando a bandeira dos Estados Unidos e se oferecendo para fotos com os turistas, ávidos por um registro que deveria ser histórico, mas virou uma alegoria distante, bem distante do drama vivido ali por décadas. Quer uma dica? Leia a placa próxima que informava sobre o acesso ao setor norte-americano da Berlim dividida pós-guerra, visite a exposição com fotos do período e o museu na esquina.
É no chão, porém, que está a marca mais dura do passado: o traçado do antigo muro. Acompanhe-o por uma rua lateral, a Zimmerstrasse. Repare nas fachadas dos prédios, pelo menos um deles - hoje uma loja - traz uma pequena foto de como era a área no período conhecido como Guerra Fria. Siga até a esquina da Wilhelmstrasse. Ali está parte do muro, cinzento, ainda de pé. Ali começa a Topografia do Terror, uma espécie de museu a céu aberto com restos de um antigo e fúnebre túnel.
A passagem - então subterrânea, hoje exposta - servia de ligação com os escritórios da polícia secreta nazista, a temida Gestapo; da SS (organização paramilitar de sustentação do nazismo) e de uma espécie de ministério da Segurança. Por ali passaram, a partir de 1933 e durante todo o chamado Terceiro Reich, os prisioneiros políticos levados para “interrogatórios intensivos” – o eufemismo da Gestapo para a tortura.
A história do lugar é contada por meio de textos e fotos numa crueza indescritível. Não se poupam palavras (as “vítimas do terror nazista”) e imagens. Está tudo lá – do desfile triunfal de Hitler ao olhar aterrorizado (e aterrorizante) de um prisioneiro.
A prisão à qual o túnel dava acesso comportava até 50 pessoas em 39 celas individuais e uma coletiva. Ela funcionou no quartel-general da Gestapo até o final da Segunda Guerra, em 1945. Como o local servia basicamente para interrogatórios, prisioneiros de outras unidades eram levados até lá para esta prática. Muitos de lá partiram rumo a campos de concentração (e daí, via de regra, para a morte).
De acordo com o site da Topografia do Terror, os “interrogatórios intensivos” podiam durar de algumas horas a meses. Para muitos, o único meio de “fugir” daquele terror foi o suicídio. As vítimas em geral eram comunistas, social-democratas, membros de pequenos partidos socialistas e organizações de resistência, além de representantes de igrejas, como testemunhas de Jeová.
Nos 12 anos de funcionamento do QG nazista, cerca de 15 mil pessoas passaram por ali como prisioneiras. Três mil delas são conhecidas hoje. É a história de cada uma dessas pessoas – e de todas as outras milhares que permanecem anônimas – que a Topografia do Terror ajuda a contar. A resgatar – desde 1987, quando o local foi aberto ao público. Um resgate que serve como homenagem à luta que todas empreenderam, ainda que esta luta tenha sido apenas possuir uma outra visão de mundo.
Em tempos sombrios, este costuma ser um crime capital.
Foi assim na Alemanha nazista. Foi assim ali nos antigos escritórios da SS e Gestapo. Um crime escondido pela escuridão de um túnel secreto. Sob olhares nebulosos e omissos de muitos, límpidos e coniventes de tantos outros. E depois, já no pós-guerra, guardado eternamente sob a sombra de um muro indigno que dividiu uma cidade. Um muro que permanece como testemunha dos episódios mais terríveis que a humanidade assistiu (e parte dela protagonizou) durante o longo século 20.
Schlink tem razão. “Não existe alternativa a isto.”











Em tempo: é auspicioso constatar que o mesmo muro que um dia dividiu hoje une as pessoas por meio da arte, como no East Side Gallery, já
retratado neste blog.

No meio da sopa tinha uma pedra

“Vais experimentarrr a famôsa sopa de pedra!” (sic de sotaque)
O cardápio prometia. Eu temia – não sou afeito à culinária (confesso, eis o maior dos meus defeitos como viajante, abrir mão de um aspecto crucial da cultura de qualquer lugar). Nosso anfitrião, que servia de guia improvisado, levou-nos a um restaurante não sei bem onde. Em Portugal, naturalmente. Estávamos em Portugal, a sopa de pedra é uma tradição portuguesa, ele dizia.
Pelo que soube na hora, a história era mais ou menos a seguinte: um pobre teria batido à porta de uma família pedindo comida. Diante da negativa, ele falou sobre uma tal sopa de pedra. Tratava-se de uma sopa com uma pedra; quem a encontrasse teria sorte na vida. Os donos da casa se entusiasmaram e permitiram que o visitante preparasse a tal sopa. Faminto, o homem aproveitou a história da pedra da sorte e foi pedindo um ingrediente atrás do outro. No fim, fez uma sopa reforçada, jogou a pedra dentro e todos saíram felizes. Rapidamente, a história se espalhou pela região e a sopa de pedra ficou famosa.
Na Internet, a lenda – obviamente a história não é verdadeira – tem pelo menos mais uma versão, mas o cerne não muda: uma pedra como artifício para preparar uma bela sopa. Ok, a tradição é interessante, tem um forte apelo cultural e até antropológico, mas como seria afinal a tal sopa? Teria ingredientes “diferentes”, como miúdos de porco ou de boi, buchos ou algo do gênero? Sim, eu tinha receio do que viria...
Prato servido, colher à mão. O aroma era bom. A aparência, agradável. Supostamente nada de estranho no caldo. Era isto, um caldo. Reforçado. Cheio de produtos mesmo. Saboroso. Bom, muito bom. E não é que a famosa sopa de pedra realmente valia a pena! Temores desfeitos, restava o prazer de experimentar a típica culinária portuguesa em Portugal – experiências são a essência de qualquer viagem (e eu já tinha provado um delicioso bacalhau com batatas ao murro).
Restava, pois, a lenda. A parte mais curiosa – e interessante – da receita. A tradição. A pedra. Haveria mesmo uma pedra? Nosso anfitrião garantia que sim, rindo, misturando uma fala assertiva com outra propositadamente suspeita. A pedra era apenas a parte lendária da história, tratava-se de uma sopa comum. Boa, bem boa, mas como outras boas que já provei.
E saboreávamos com prazer a receita, entremeando as colheradas do caldo a um bate-papo descontraído, taças de vinho, mais colheradas, uma mordidinha em algum legume, risadas, pergunta, respostas, outra colherada, e mais outra, e mais uma, e um gole de vinho, guardanapo, colherada, colherada, colherada, colherada... E o prato ia secando e todos tentávamos disfarçar a curiosidade para descobrir se de fato haveria uma pedra e a ansiedade para encontrá-la.
E novas colheradas ocorreram até que, no fundo do prato fundo, surgiu uma... pedra! Sim, havia uma pedra. No meu prato! “Olha, achei a pedra!” A sopa de pedra, de fato, tinha uma pedra. Uma espécie de pedregulho. Nem pequena que pudesse ser ingerida acidentalmente nem grande que pudesse ser facilmente descoberta ou inconveniente para a degustação. Na medida, uma pedra na medida dentro de um prato com sopa.
Estava desfeita em definitivo a curiosidade – a pedra existia. Quantas pedras haverá na cozinha? Eles lavam a pedra quando o prato volta? O cliente pode levar a pedra? A confirmação daquele estranho “ingrediente” (enfim, um ingrediente “diferente” na receita) suscitou uma nova onda de curiosidades. Entremeadas por novas colheradas, agora mais escassas. A sopa estava acabando.
Eu, inocentemente, estava feliz. Momentaneamente feliz. Com cinco pratos à mesa, a pedra foi aparecer justamente no meu. Estava materializada a tradição da lenda da sopa de pedra. Só faltava um detalhe: a promessa de sorte a quem encontrasse a dita cuja. Se a pedra existia, sorte então não me faltaria? Eu teria direito a um desejo, um pedido? Nosso anfitrião garantiu: “vais ter sorte na vida!” Eu preferi acreditar.
Não me lembro se desejei algo. Tampouco me recordo o que fiz com a pedra – vagamente tenho na mente uma imagem distante de um prato fundo de cerâmica branca voltando para a cozinha com alguns respingos de caldo e uma pedra dentro. A pedra deve ter voltado de onde veio – provavelmente para uma nova sopa. Que provavelmente iria despertar a curiosidade de um novo cliente (quem sabe um turista como eu?). Que provavelmente ficaria ansioso para encontrar a pedra. E provavelmente ficaria em dúvida se a parte da lenda que versa sobre sorte na vida seria tão verdadeira quanto a pedra.
E já que a pedra protagonizou esta história, e também a lenda e também a sopa, vejo-me forçado a lembrar de Drummond. Porque, tal como ele, “Nunca me esquecerei desse acontecimento / Na vida de minhas retinas tão fatigadas”. “Nunca me esquecerei que no meio do caminho / Tinha uma pedra / Tinha uma pedra no meio do caminho / No meio do caminho tinha uma pedra”.
E como a pedra é, na tradição, desígnio de sorte na vida, e como a vida é feito um caminho a ser percorrido, deve mesmo ser bom ter uma pedra no meio do caminho. Ou da sopa...

Em tempo: não costumo dar dicas neste blog do tipo "não deixe de ir" ou "não deixe de experimentar", mas vou abrir uma exceção: estando em Portugal, experimente a famosa sopa de pedra. Você vai gostar - e se divertir!

A doce Frankfurt

Descobri que o coração não aceita acasos. Ou melhor, nada fica – ou entra – no coração por acaso. Pessoas ou lugares, animais ou objetos. Assim descobri Frankfurt a.M. – ou am Main (há outra Frankfurt, “am Oder”; Main e Oder são dois rios e as respectivas cidades ficam às suas margens). A principal delas, a que as pessoas via de regra conhecem ou sobre a qual já ouviram falar, é a Frankfurt à beira do rio Main. É ela que está, não ao acaso, no coração da Alemanha.
A cidade não é capital, mas abriga o centro financeiro do país e serve de porta de entrada nacional para grande parte das pessoas que chegam do exterior. Apesar disso, costuma ser vista com certo desdém. Eu a via assim, confesso. Pudera: Frankfurt (chamemo-na simplesmente assim) não possui o charme da Bavária (onde fica Munique) nem o peso da história recente de Berlim. Pelo menos não tem a propaganda de ambas.
Como, pois, não se encantar logo nos primeiros passos pela Römerberg, a principal praça da cidade antiga (Altstadt)? Além da Römer Haus que dá nome ao lugar e foi sede da prefeitura por seis séculos, estão lá a Alte Nikolaikirche e as típicas casinhas germânicas, como se tivessem saído de algum conto de fadas cujos personagens são biscoitos de baunilha e balas de caramelo. Casinhas parecidas com confeitos de bolo, feitas de marzipã e cobertas com chantilly e chocolate. Hoje, abrigam lojinhas, bares e restaurantes.
E a inclinação da praça faz do local ainda mais mágico. Você se sente no meio de um enorme palco, com aquele cenário encantador ao redor. Vê dali a torre vermelho-alaranjada da Kaiserdom, a catedral, logo atrás, dominante na Domplatz, completando com a Paulskirche (ali ao lado na Paulsplatz) o trio de igrejas separadas não mais do que 200 metros uma da outra.
Cada detalhe ajuda a completar a paisagem: a janela decorada com figuras, cenas e brasões de estilo germânico, delicadamente iluminados por pequenas lâmpadas amarelas, deixando à mostra o interior com lustres igualmente decorados; os letreiros com fontes em estilo gótico pendurados em armações de ferro e madeira escuros, com detalhes em dourado, em formatos suntuosos que remetem a séculos... Nada escapa aos olhos tamanha a profusão de encantos a observar.



 








Sem contar que a alguns passos – outros 200 metros pela Fahrtor - está o Main, tão importante para a cidade que lhe serve de complemento ao nome. Rio de águas amarronzadas, que passam sob pontes como a Iron Bridge e sua romântica estrutura de ferro esverdeada, logo ali em frente, após a Mainkai, de onde se vê na margem oposta, imponente, a Dreikönigskirche – que, aliás, segue o estilo das demais igrejas da área, ora com paredes cor de creme misturadas a tijolos alaranjados, ora apenas com tijolos avermelhados, sempre com uma torre única. São todas como irmãs, unidas, pontuando a paisagem.
E lá se vai o Main rasgando a cidade, contornando prédios que dão a Frankfurt um ar de modernidade singular e incomum em cidades alemãs. Um “skyline” americanizado, como que para mostrar ao mundo que ali está uma das tantas fênix alemãs renascidas de tantas e cruéis batalhas. Não uma Fénix qualquer; a imponente e poderosa Frankfurt – um retrato da Alemanha do século 21. Um país que sobreviveu ao terror do nazismo e dos ataques aliados, viu suas cidades serem destruídas, reconstruiu-se e reergueu-se talvez mais forte que antes, para liderar a Europa unindo tradição e modernidade, escancarando seu passado para ajudar a contar uma história que, quiçá, não se repetirá.
É para este país que Frankfurt pulsa, emana sua vitalidade financeira e sua energia, tal como faz o coração. Não é à toa, pois, que a cidade está bem ali no centro, um pouco à esquerda do peito alemão. Tal como o coração nos seres humanos, o coração que a cidade – e o país, por que não? – cada vez mais tenta conquistar. A olhar para o charme e o encanto de Frankfurt, a modernidade e a civilidade alemãs, não será uma tarefa tão difícil...