Na terra de Luther King

Mais do que conhecer lugares e, eventualmente, pessoas, viajar é viver experiências. Algumas delas (quase todas, boas e ruins) inesquecíveis. Tendo isto em mente, qualquer viagem – ainda que não seja necessariamente uma aventura – se transforma num tesouro. É uma fonte de riqueza inigualável. Fiz esta introdução teórica (no jornalismo diria-se que se trata de um “nariz de cera”, um eufemismo para enrolação) para narrar uma dessas experiências que marcam a vida de um viajante. Foi em Atlanta (EUA), esta cidade que me persegue, que entrou no roteiro da minha vida por força do destino, como já narrei neste blog, e com a qual me deparo ocasionalmente em citações por aí.
Foi assim, numa citação ocasional, que lembrei da tal experiência. O estopim foi a comemoração dos 50 anos do discurso do líder negro Martin Luther King na famosa Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade – ocasião em que ele pronunciou a célebre frase “I have a dream...” (“Eu tenho um sonho...”). Embora a história se passe na capital dos EUA, foi a capital do estado da Geórgia que mereceu destaque num caderno de turismo de um jornal. Isto porque ela é a terra natal de Luther King, daí a grande quantidade por lá de referências ao famoso líder.
Estive em Atlanta duas vezes. Em ambas, li diversos folhetos oferecendo tours pelos locais que guardam ligação com Luther King e com a sangrenta Guerra Civil norte-americana (1861-65), que dividiu o país entre norte e sul e causou a morte de quase um milhão de pessoas (sendo 618 mil soldados). Apesar da diferença de um século, um fato está intimamente ligado ao outro, a guerra à ascensão de Luther King e à luta que ele encampou.
Como se sabe, a escravidão foi um dos principais (se não o principal) estopim da Guerra de Secessão. O norte com trabalho livre contra o sul escravagista. E Atlanta era - e ainda é - uma das principais cidades sulistas. A região preserva até hoje alguns dos principais campos de batalha da guerra. Foi lá também que nasceu em 1936 o romance “E o vento levou...” (“Gone with the Wind” no original) – que tem o conflito como pano de fundo. A casa da escritora Margaret Mitchell, autora da saga de Scarlett O´Hara, está lá para ser visitada.
Há uma série de outras atrações ligadas à guerra e a Luther King. Eu não conheci nenhuma delas. Embora apaixonado por história, não encontrei disposição para percorrer os campos e correr atrás dos lugares que ajudam a contar aqueles episódios. É quase um pecado, eu sei, mas foi a minha escolha. Visitei a CNN, o Georgia Aquarium, o High Museum, o Museu da Coca-Cola, o Jardim Botânico e até a jogos do Braves (baseball) e do Hawks (NBA) eu fui, mas “pulei” a parte histórica da cidade.
Nem por isso, deixei de vivenciar experiências que carregam marcas profundas de toda essa história. Ao me deparar com a comemoração pelos 50 anos do famoso discurso e as obrigatórias menções a Atlanta na biografia de Luther King, lembrei do dia em que me senti "diferente" – e compreendi um pouco o que isto significa.
Só depois que voltei de Atlanta pela primeira vez soube que a cidade é conhecida pela sua população negra. Portanto, para mim este fato foi uma surpresa. Por mais que eu soubesse onde estava pisando (ou seja, numa cidade-chave do sul dos EUA), não havia me atentado à herança escravagista. Até porque, quando lá cheguei, deparei-me com uma cidade desenvolvida, com praças e parques bem conservados, arranha-céus modernos e uma infraestrutura de causar inveja. Sem dúvida, uma das localidades mais bonitas do país.
Atlanta, porém, só ganhou vida mesmo quando fui ao Underground. Trata-se de uma espécie de shopping, ou mercado, localizado no subterrâneo (daí o nome), ligado à principal estação de metrô, a Five Points. O lugar é recheado de lojinhas populares e carrinhos de ambulantes. Mais que isto, é recheado de negros. Praticamente só negros frequentam o espaço. Fui percebendo isto ao longo da minha caminhada por lá. 



A situação ficou evidenciada quando parei na praça de alimentação para almoçar. Já era meio da tarde, eu iria ao jogo dos Braves logo mais e atrasei a refeição propositadamente. Quando peguei meu lanche e sentei à mesa, reparei que eu era o único branco ali. Embora já tivesse passado a hora do almoço, o espaço estava cheio de gente. Os norte-americanos costumam se alimentar durante todo o dia – esta é a impressão tamanha a quantidade de pessoas a todo momento ocupando as mesas de um “fast-food” qualquer. Eles adoram isto!
De repente, uma sensação estranha começou a me atormentar, algo como se eu não fizesse parte daquilo, ou não devesse estar ali. Como se ali não fosse o meu espaço, como se eu fosse um invasor. Não notei especificamente nenhum olhar estranho, seria injusto e incorreto insinuar qualquer coisa neste sentido, mas o fato é que eu me senti excluído. Pela primeira vez senti o peso da cor da pele – às avessas (porque historicamente o que se dá na sociedade ocidental é o contrário, os negros é que pagam o preço da exclusão racial).
Foi seguramente uma experiência estranha e singular. Não me senti incomodado propriamente, tampouco me senti totalmente à vontade. Mais do que o peso do racismo que os negros historicamente sofrem, por um instante me senti com o rótulo de “diferente” – e os sentimentos que isto desperta. Numa sociedade ainda profundamente dividida cinco décadas após o famoso discurso de Luther King é uma sensação significativa. Por vezes amarga, algo atenuado pelo simples fato de eu ser estrangeiro e aquela não ser minha realidade permanente.
Durou poucos minutos, mas valeu como experiência de vida. Mais uma lição que Atlanta me ensinou.

Um pedaço aristocrático em Nova Orleans

Há um lado aristocrático numa cidade marcada pelos resquícios da escravidão e da presença crioula nos Estados Unidos. Em Nova Orleans, a região da avenida St. Charles é uma viagem dentro de outra viagem. É que quem costuma visitar a cidade geralmente busca sua fortíssima musicalidade (a região é berço do blues); a culinária que mistura as influências espanhola, inglesa, francesa e crioula; o misticismo latente; o Mississippi e até seus históricos cemitérios, várias atrações que vão muito além do glamour de uma área nobre.
Ainda assim, quem descobre a St. Charles – via obrigatória rumo ao centenário Cemitério Lafayette # 1 – entende porque Nova Orleans é diferente de tudo. No meio da avenida, em meio a um gramado rasteiro, persistem os trilhos do bonde. Característicos da cidade, os bondes colorem a paisagem: os vermelhos sobem e descem a Canal Street, que divide o French Quarter do Center Business District; os verdes atravessam a St. Charles, a longa avenida que corta vários bairros acompanhando o “U” que o Mississippi forma naquele pedaço da cidade. São bondes clássicos, com acabamento e bancos em madeira, tal como na década de 1920, para combinar com o estilo do lugar.





Para chegar ao Lafayette, uma das atrações macabras numa cidade recheada delas, usar a famosa linha verde do bonde é um passeio à parte. Naquela manhã ensolarada de sexta-feira, o vagão estava lotado tal qual os ônibus urbanos nas médias e grandes cidades brasileiras. A cada parada, o que parecia impossível (ou inviável) se tornava real: mais gente subia. Turistas e locais misturados harmonicamente, contagiados talvez pela alegria do condutor.



Aos poucos, o movimento frenético das ruas comerciais vai dando lugar à paisagem tranquila de um bairro marcadamente residencial, com mansões elegantes em estilo vitoriano. É o Garden District, nome mais do que apropriado. Ali, árvores frondosas típicas de áreas pantanosas projetam suas sombras nas calçadas, amenizando o clima geralmente quente da cidade. Um verdadeiro convite para flanar.
O bairro é o berço da alta sociedade local e o seu rico patrimônio arquitetônico é mostra disto. Uma grande fazenda em meados dos séculos 17 e 18, a área foi sendo dividida ao longo dos tempos. No século 19, passou a concentrar a parte inglesa da sociedade em contraponto aos franceses e crioulos (naturalmente ocupando a região hoje conhecida como French Quarter). Esses ingleses e descendentes tinham ligação com o comércio, eis a fonte da riqueza.
Muitas das casas daquele período ainda estão lá, exibindo influências diversas, como da arquitetura grega e suas altas colunas e italiana. É comum exibirem também acessórios dourados, como os números e maçanetas das portas, e grades frontais e nas varandas feitas em ferro ornamentado. São em geral coloridas, o que confere alegria a um lugar calmo, relativamente silencioso, distante da balbúrdia turística do quarteirão francês.
Detalhe que chama a atenção, os tradicionais colares do Mardi Gras, o famoso carnaval local, estão por toda parte, pendurados nas árvores ao longo da avenida e nas portas e grades das residências, como se para lembrar que, embora distinta do cenário geral da cidade, aquela região também é parte da mística, erótica e festiva Nova Orleans.
Nem tudo, porém, é festa. Quando visitei a cidade em abril de 2012, era comum ver à frente dos imóveis do Garden District placas de aluguel (“For rent” e “For lease”) e venda (“For sale”), evidência da crise econômica que atingiu o país em 2008 com o estouro da bolha imobiliária, a quebradeira financeira e o consequente desemprego.
O tom aristocrático, porém, obriga a região a manter a pose. Quando se trata do Garden District, lugar de famosos como a escritora Anne Rice (a autora de romances vampirescos de sucesso morou lá até 2005 e a casa dela é atração em tours guiados), a imagem que se projeta ao mundo é importante. Foi na modesta “The Grocery” - instalada num imóvel de madeira pintado de rosa na esquina em frente à Christ Church Cathedral - que encontrei a revista editada exclusivamente para e sobre a via. O título era simplesmente “St. Charles Avenue”, como se o local dispensasse apêndices. Nas páginas, destaques comerciais e pessoais da sociedade local, como se a área fosse um gueto – o que não deixa de ser parcialmente verdade tamanha a divergência de cenário dali para alguns poucos quarteirões sentido rio abaixo.









O Garden District e sua artéria principal, a avenida St. Charles, talvez seja a região de Nova Orleans que melhor combine esteticamente com a Jackson Square, a charmosa praça da igualmente charmosa catedral St. Louis, o coração da cidade. E decididamente não se pode desprezar uma artéria que guarda uma ligação direta com o coração. Ainda mais na singular Nova Orleans.






- Veja aqui o álbum de fotos do UOL sobre o passeio de bonde pela St. Charles Ave.

* As fotos são minhas e de Carlos Giannoni de Araujo

Meus dias em Vila Franca de Xira

Li dia desses que Salvador (BA), a primeira capital brasileira, quer repatriar os restos mortais de Thomé de Sousa, aquele que pode ser considerado o primeiro “presidente” do Brasil (na época, o cargo era de governador-geral). Fui atraído para esta notícia unicamente pela minha paixão por história. Quando a li, porém, um detalhe chamou minha atenção: o local onde estão atualmente os restos mortais de Sousa - Vila Franca de Xira. Este é o nome da cidade onde repousa, praticamente de forma anônima, uma figura importante para nossa história.
Pouquíssimas pessoas ouviram falar alguma vez de Vila Franca de Xira, em Portugal. Daí um certo “desprezo” histórico com a figura do primeiro governador-geral do Brasil. Eu mesmo só fui ouvir falar daquela cidade em 2005 quando lá estive. Isto mesmo: passei sete dias em Vila Franca de Xira.
É curioso como o destino nos leva para certos lugares. Já relatei como a vida me fez estar duas vezes em Atlanta (EUA). Embora seja por motivo distinto, foi também o acaso que me levou a Vila Franca de Xira. Viajava com um casal de amigos pesquisadores pela Suíça, Alemanha e Portugal em busca de documentos sobre a emigração para os cafezais do Brasil no século 19, mais precisamente para a região de Limeira. Durante o trajeto de um mês pela Europa, alternamos a hospedagem em hotéis e na casa de conhecidos. 
Em Portugal especificamente, nosso contato era justamente um dentista de Piracicaba que morava há cerca de vinte anos em Vila Franca de Xira. O nome dele é Rui. O sobrenome desconheço. Nenhum de nós jamais o tinha visto – fomos “apresentados” a ele por um amigo em comum, de Limeira. Na verdade, este amigo limeirense era conhecido do pesquisador a quem eu acompanhava – eu mesmo não conhecia nem um nem outro.
Assim fomos parar em Vila Franca de Xira. Chegamos à cidade à noite e pelo que havia sido combinado o dr. Rui nos esperaria em seu apartamento. Ele morava num condomínio que ficava ao lado de um hotel, ambos de uma mesma empresa (de modo que era permitido aos moradores tomar café da manhã no hotel). Os toques no interfone foram seguidos de silêncio. Certamente dr. Rui não estava. Fomos nos informar na recepção do hotel e confirmaram que o tal doutor morava lá. Menos mal. Aliás, ele pareceu ser bastante conhecido dos funcionários, que chegaram a indicar um possível motivo para a ausência dele naquele momento.
Não nos restava alternativa que não fosse esperar. Longos e tensos minutos. Será que ficaríamos ao relento, sem abrigo na primeira noite em terras portuguesas? Demorou um pouco, mas dr. Rui chegou. Devidamente apresentados, ele logo se mostrou prestativo ao disponibilizar uma cópia das chaves do apartamento para os visitantes-intrusos-desconhecidos. Detalhe: até então ele sabia que hospedaria apenas um casal. A presença de uma terceira pessoa – eu – foi surpresa.
O dr. Rui não hesitou em manifestar que tinha um quarto sobrando e colchões à vontade para que eu também me hospedasse ali. Explicou que sairia bem cedo todos os dias e voltaria tarde da noite, de modo que praticamente não nos veríamos (o que de fato ocorreu). E fez questão de nos deixar à vontade para usar o apartamento, em especial os banheiros (o que incluía os acessórios, como toalhas, etc) e a cozinha (inclusive os itens da geladeira). Foi, de fato, um anfitrião gentil – o que retribuímos oferecendo-lhe um jantar e um presente numa noite de quinta-feira após “reservar” algo como duas horas na agenda dele.
Pelo que soubemos, dr. Rui tinha ido tentar a vida em Portugal durante a crise dos dentistas. Faltavam profissionais no país e muitos brasileiros viram nisto uma oportunidade. Foi uma verdadeira “invasão” 500 anos após a chegada dos portugueses na Bahia que recebeu Thomé de Sousa. O piracicabano se estabeleceu em Vila Franca de Xira, onde tinha muitos clientes. Conseguira algum dinheiro (o apartamento era grande, três quartos, uma suíte, mas praticamente desprovido de móveis – o quarto que eu ocupei tinha, além dos colchões, apenas um guarda-roupa embutido). Não me lembro de nenhum outro detalhe a respeito da história do dentista que nos abrigou.
Todos os dias, logo cedo, fazíamos o trajeto de 32 quilômetros que separa a cidade da capital Lisboa. Apenas em uma ocasião saímos para dar um passeio em Vila Franca de Xira. Vimos uma cidade relativamente pacata, como um município pequeno do interior do Brasil. Bem estruturada, tinha um comércio básico (pequenas lojas, bares, mercados), nada de grandes magazines.
O apart-hotel onde dr. Rui tinha seu apartamento ficava à beira do estuário do famoso e histórico rio Tejo, nas margens da Estrada Nacional 1 (ou simplesmente A1), perto da ponte Marechal Carmona. Lembro-me que para chegar até lá, vindos de Lisboa, passávamos por um posto de combustíveis, uma concessionária de veículos Peugeot e um supermercado da rede Intermarché - que frequentávamos. Logo ao lado ficava o Lezíria Park Hotel, com o hotel à direita e os apartamentos residenciais no prédio à esquerda.



A paisagem ao redor não era muito convidativa a passeios. Lembro-me que tentei, sem sucesso, observar o Tejo de algum ponto mais próximo. Recordo-me também que as calçadas eram um tanto precárias, lembrando muitas cidades litorâneas brasileiras, com trechos de areia, pedras e mato. Tenho em mente uma “rotunda” (rotatória em português de Portugal) próxima e, por fim, um dos pontos turísticos da cidade, a praça de touros, onde ocorriam as touradas - Vila Franca de Xira é conhecida por um festival desse tipo de “esporte”.
A única foto que eu guardo da cidade é da pracinha onde fica a Estátua do Campino, um orgulho local diretamente ligado à tradição das touradas. Fica na rua Luís de Camões, bem ao lado dos Correios, nosso destino na ocasião.
Um dia, quem sabe, eu volte a Vila Franca de Xira – tal como ocorreu com Atlanta. Afinal, ninguém sabe o que o destino nos reserva...



PS: esta postagem serve de agradecimento público ao dr. Rui.

* As demais fotos desta postagem foram capturadas via Google Street View

Sonhos de infância

Quando eu era criança, sonhava ser cientista. Não exatamente cientista, mas sim astronauta, como toda criança. As coisas do espaço me atraíam. Lembro bem de passar muitas tardes na biblioteca municipal, em Limeira, com um amigo folheando livros e mais livros olhando estrelas, planetas, sistemas e lendo sobre tudo isto.
Em 1986, era uma criança de nove anos quando passou por aqui o cometa Halley. Um fenômeno, diziam. Na TV e nas rodas de conversa não se falava de outra coisa a não ser a passagem do tal astro, algo que ocorreria apenas a cada 86 anos.
Foram noites e noites olhando para o céu, praticamente imóvel – o céu, não eu. Uma grande decepção para todos, sem dúvida, ver aquele minúsculo pontinho branco. Onde estava, afinal, a cauda gigantesca e brilhante? Teria se perdido em algum lugar do Sistema Solar? Isto para quem viu o tal pontinho branco porque eu, nem isto...
Ainda assim, a passagem do Halley foi um “acontecimento”, daqueles para se guardar na memória.
Também queria ser arqueólogo. Era (sou) fascinado pelas coisas da antiguidade, as histórias e os mistérios. Além dos livros de astronomia, retirava muitos sobre o Antigo Egito. As pirâmides, os faraós, os tesouros, as lendas, tudo atraía minha atenção.
E se não fosse astronauta nem arqueólogo, certamente seria paleontólogo. Folheava muitos livros sobre o assunto. Vibrava vendo as fotos de fósseis e lendo sobre os gigantes que dominaram o planeta durante milhões de anos e a misteriosa extinção. Lembro que certa vez fui com um amigo e sua família acampar num camping em Santa Cruz da Conceição e levei alguns livros sobre paleontologia.
Contava os dias para ver de perto um fóssil. Quando estava já no colegial, visitei com a escola o museu de paleontologia da Unesp, em Rio Claro. Havia dezenas de fósseis, uma visita inesquecível, mas nada daqueles gigantes que eu via nos livros e na TV. Onde estariam os dinossauros? Cadê o temido T-rex? E os pterodátilos?
Fui finalmente encontrá-los uma década depois, em 2007. Foi numa visita ao Museu de História Natural de Nova York (EUA). Quando lá cheguei já sabia que veria os grandes dinossauros. Estava ansioso, em especial para ficar frente a frente com o tiranossauro rex. Sabia que ele me esperava, conhecia o museu por reportagens na imprensa.
O passeio seguiu pelos animais distribuídos por continentes e passou por uma breve história da civilização. Eram crescentes a empolgação e a emoção rumo ao encontro. Ao esperado, desejado e sonhado encontro. Minha ansiedade só crescia até que eles apareceram, tal qual sempre imaginei: gigantes, imponentes, ferozes, ameaçadores. Um a um, os tipos que eu via nos livros durante a infância se apresentaram. Os dinossauros!
E eis que surgiu o T-rex, com sua cabeça assustadora e seus braços curtíssimos. Um fascínio, uma emoção indescritível. Tive vontade de ficar horas e horas apenas olhando para cada detalhe, dos dentes grandes e pontiagudos que destroçavam as caças às garras também pontudas que eram fincadas na pele de suas vítimas, perfurando e rasgando a carne, que sangrava mortalmente.
Os dois amigos que me acompanhavam já deixavam a sala enquanto eu seguia ali, paralisado, erguendo e abaixando a cabeça para não perder nenhum aspecto do tiranossauro. Ele finalmente havia saltado das páginas dos livros para a realidade.
Entre ele e eu, um espaço de 65 milhões de anos. Entre eu e ele, um sonho de vinte anos, enfim realizado.
Desde então, já me deparei com dinossauros em vários lugares mundo afora. A seguir posto as fotos feitas num giro por museus dos EUA e Canadá em abril de 2012:

1) Museu de História Natural (NY, EUA):







2) Royal Ontario Museum (Toronto, Canadá):

 

 
 

 

3) Field Museum (Chicago, EUA):






Em tempo: não me tornei astronauta, arqueólogo ou paleontólogo, mas tudo aquilo me ajudou a descobrir que, no fim, eu era apenas um garoto curioso. E curiosidade é um instrumento essencial de trabalho para qualquer jornalista. Foi, afinal, o que me tornei...

Leia também:

Uma cidade única

“(...) em Nova Orleans é difícil escapar da força permanente da história.”
Tom Downs em texto no blog “Viagem & Cia”


Uma série de palavras adequadas: difícil – escapar – força – permanente – história. Pensadas assim, uma a uma, a frase ganha ainda mais sentido. Difícil é o que nos persegue; escapar pressupõe uma luta, não necessariamente dolorida; força fala por si só, algo além do comum; permanente é o que não muda; e história é... simplesmente história. E tudo isto cabe perfeitamente a Nova Orleans.
Talvez poucas cidades dos Estados Unidos tenham tanta personalidade quanto NOLA – assim carinhosamente chamada por muitos. A sigla une as duas letras iniciais da cidade às que indicam o estado – Louisiana. Naturalmente, muitas cidades norte-americanas - das metrópoles Nova York e Los Angeles às menores como Key West – têm suas singularidades. Talvez poucas delas, porém, reúnam tantos atributos, da arte à história, da música à gastronomia, da arquitetura ao estilo de sua gente, como Nova Orleans. Em nenhuma delas isto tudo é tão marcadamente presente, permanentemente e de modo tão... forte. Esta herança é o seu elã.


Porque você pode pensar em Nova Orleans como o berço do blues (ou da região que merece tal crédito). Tom Downs definiu bem em seu artigo de onde saiu a frase que abre esta postagem: “O Mississippi pode não parecer um lugar para passar algum tempo, mas se algum dia você já esteve sob o feitiço do blues do Delta – os sons provocadores e compulsivos de Robert Johnson, Charlie Patton e Muddy Waters – você entende essa força”. E Downs completa para que não paire dúvida: “Se alguma cidade tem o direito de cantar o blues, essa cidade é Nova Orleans, que ainda está cambaleando corajosamente em suas pernas, depois da passagem do furacão Katrina”.
Aí vem outro atributo: a cidade está na rota dos grandes furacões que se formam todos os anos no mar do Caribe. É a porta de entrada, estando portanto num estado permanente de alerta e de risco. Katrina, Isaac, a cada ano um novo nome assombra os locais, remexendo a poeira da memória e trazendo à tona lembranças amargas de tempos difíceis, numa conexão indesejada e forçada com o passado de lutas, aquelas cantadas no blues, outras lutas, mas cujos elementos – força, esperança, etc – unem o ontem e o hoje.
E quando os nomes chegam, não os Johnson ou Patton, mas os Katrina e Isaac, trazem a destruição para mais uma vez provocar a força que move aquele lugar. Nova Orleans resiste. Há séculos. Casas são reerguidas, ruas e estradas reconstruídas e, acima de tudo, a esperança é renovada. As marcas inevitavelmente ficam como feridas que nunca cicatrizam – ou como testemunhas do destemor daquela gente. A tragédia se soma aos atributos da cidade (“é difícil escapar da força permanente da história”).
O blues e os furacões têm um ponto em comum em Nova Orleans: o Mississippi. “O rio turvo e largo”, nas palavras de Downs, “mal é visível enquanto serpenteia pelo interior americano”. Mas ali é onipresente. Ainda que esteja “muito longe da agitação que tinha nos anos 1920 e 1930”, o rio e seu delta são indissociáveis da música e da cidade. Ou vice-versa. Como também os furacões, já que é no encontro das águas do rio com o mar a origem do jato mortífero que alaga, destrói e mata de tempos em tempos. E o que sobra vira inevitavelmente atração...




 






Um lugar com tantos atributos seria por si só motivo de visitação, mas Nova Orleans possui mais. “As ruas são a melhor galeria que a cidade tem (...)”, escreveu Seth Kugel, do “New York Times Syndicate”. O mais básico espaço da vida urbana e social de qualquer localidade, das menores às maiores, tem em NOLA algo diferente. A simbiose da arquitetura e da gente local, com o tempero da história, confere à cidade um ar especial e único. 
A rua ganha vida com a arquitetura formidável e diversa, ainda que nenhuma pessoa esteja à vista. Cada bairro possui uma aparência característica, fruto das influências sofridas ao longo dos tempos, seja da colonização espanhola ou da presença francesa ou ainda da cultura crioula, formando uma babel de estilos. “As casas históricas que pontilham Nova Orleans são uma atração à parte e podem ser apreciadas de graça – desde as construções coloridas e cheias de detalhes de Bywater até as versões ‘créole’ do Treme, passando pelas sacadas elegantes do Bairro Francês”, citou Kugel.
Quando às ruas e casas se acrescentam elementos humanos, como bandeiras, floreiras e decorações pascais, as fachadas de madeira e as grades rebuscadas em estilo colonial acentuam a energia que se sente em NOLA. E quando a tudo isto se juntam as pessoas - os locais com sotaque próprio, também resultado das várias culturas (francesa, espanhola, inglesa e africana) que influenciaram a região, com sua ginga e sua música, com suas cores e odores; e os forasteiros animados, gente de todas as idades, línguas e credos, tem-se um cenário único: Nova Orleans.

   











Poucos lugares conseguem unir de modo tão uniforme culturas tão distintas. Do clássico estilo francês ao irreverente e macabro mundo crioulo. Com badulaques “voodoos” espalhados por todo canto, a feitiçaria se faz presente numa das cidades mais católicas do país (a Catedral de Saint Louis é a mais antiga igreja católica dos EUA), resquício da presença espanhola, todos convivendo harmonicamente num sincretismo exemplar. E tem ainda magos e gurus, ciganos e zumbis, bem em frente à catedral, na antiga Plaza de Armas, nome que lembra os tempos em que Nova Orleans foi a capital da província espanhola.
Quer mais? Na gastronomia, as culinárias cajun e creole - de influência africana - são típicas. E com uma pitada de pimenta, encontrada aos montes em dezenas de sabores e rótulos recheados de humor e erotismo, duas características à flor da pele na cidade do Mardi Gras - a festa de carnaval local, famosa pela tradição das mulheres (geralmente seminuas) atirarem colares coloridos aos homens como convite a um “algo mais”.






Ruas e casas, francês e crioulo, negros e brancos, católicos, protestantes e uma boa pitada de magia, tudo isto influenciou a cultura da região que tem Nova Orleans como maior expoente. Passeando por NOLA entende-se que algumas coisas, como o blues, só podiam ter nascido lá. Porque poucos lugares unem de modo tão majestoso uma série de particularidades. Talvez nenhum lugar do modo como Nova Orleans. Downs tem razão... “(...) em Nova Orleans é difícil escapar da força permanente da história.”

* As fotos são minhas e de Carlos Giannoni de Araujo