Sonhos de infância

Quando eu era criança, sonhava ser cientista. Não exatamente cientista, mas sim astronauta, como toda criança. As coisas do espaço me atraíam. Lembro bem de passar muitas tardes na biblioteca municipal, em Limeira, com um amigo folheando livros e mais livros olhando estrelas, planetas, sistemas e lendo sobre tudo isto.
Em 1986, era uma criança de nove anos quando passou por aqui o cometa Halley. Um fenômeno, diziam. Na TV e nas rodas de conversa não se falava de outra coisa a não ser a passagem do tal astro, algo que ocorreria apenas a cada 86 anos.
Foram noites e noites olhando para o céu, praticamente imóvel – o céu, não eu. Uma grande decepção para todos, sem dúvida, ver aquele minúsculo pontinho branco. Onde estava, afinal, a cauda gigantesca e brilhante? Teria se perdido em algum lugar do Sistema Solar? Isto para quem viu o tal pontinho branco porque eu, nem isto...
Ainda assim, a passagem do Halley foi um “acontecimento”, daqueles para se guardar na memória.
Também queria ser arqueólogo. Era (sou) fascinado pelas coisas da antiguidade, as histórias e os mistérios. Além dos livros de astronomia, retirava muitos sobre o Antigo Egito. As pirâmides, os faraós, os tesouros, as lendas, tudo atraía minha atenção.
E se não fosse astronauta nem arqueólogo, certamente seria paleontólogo. Folheava muitos livros sobre o assunto. Vibrava vendo as fotos de fósseis e lendo sobre os gigantes que dominaram o planeta durante milhões de anos e a misteriosa extinção. Lembro que certa vez fui com um amigo e sua família acampar num camping em Santa Cruz da Conceição e levei alguns livros sobre paleontologia.
Contava os dias para ver de perto um fóssil. Quando estava já no colegial, visitei com a escola o museu de paleontologia da Unesp, em Rio Claro. Havia dezenas de fósseis, uma visita inesquecível, mas nada daqueles gigantes que eu via nos livros e na TV. Onde estariam os dinossauros? Cadê o temido T-rex? E os pterodátilos?
Fui finalmente encontrá-los uma década depois, em 2007. Foi numa visita ao Museu de História Natural de Nova York (EUA). Quando lá cheguei já sabia que veria os grandes dinossauros. Estava ansioso, em especial para ficar frente a frente com o tiranossauro rex. Sabia que ele me esperava, conhecia o museu por reportagens na imprensa.
O passeio seguiu pelos animais distribuídos por continentes e passou por uma breve história da civilização. Eram crescentes a empolgação e a emoção rumo ao encontro. Ao esperado, desejado e sonhado encontro. Minha ansiedade só crescia até que eles apareceram, tal qual sempre imaginei: gigantes, imponentes, ferozes, ameaçadores. Um a um, os tipos que eu via nos livros durante a infância se apresentaram. Os dinossauros!
E eis que surgiu o T-rex, com sua cabeça assustadora e seus braços curtíssimos. Um fascínio, uma emoção indescritível. Tive vontade de ficar horas e horas apenas olhando para cada detalhe, dos dentes grandes e pontiagudos que destroçavam as caças às garras também pontudas que eram fincadas na pele de suas vítimas, perfurando e rasgando a carne, que sangrava mortalmente.
Os dois amigos que me acompanhavam já deixavam a sala enquanto eu seguia ali, paralisado, erguendo e abaixando a cabeça para não perder nenhum aspecto do tiranossauro. Ele finalmente havia saltado das páginas dos livros para a realidade.
Entre ele e eu, um espaço de 65 milhões de anos. Entre eu e ele, um sonho de vinte anos, enfim realizado.
Desde então, já me deparei com dinossauros em vários lugares mundo afora. A seguir posto as fotos feitas num giro por museus dos EUA e Canadá em abril de 2012:

1) Museu de História Natural (NY, EUA):







2) Royal Ontario Museum (Toronto, Canadá):

 

 
 

 

3) Field Museum (Chicago, EUA):






Em tempo: não me tornei astronauta, arqueólogo ou paleontólogo, mas tudo aquilo me ajudou a descobrir que, no fim, eu era apenas um garoto curioso. E curiosidade é um instrumento essencial de trabalho para qualquer jornalista. Foi, afinal, o que me tornei...

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