Uma certa rã dourada...

Li recentemente uma reportagem especial que tratava da rota da cerveja artesanal no Uruguai. Espremido entre gigantes – Brasil e Argentina -, o pequeno país ao sul do continente tem se destacado pela ousadia política (acaba de aprovar, de modo pioneiro no mundo, a liberação do plantio, comercialização e consumo da maconha, além de ter legalizado o aborto e o casamento gay, sem contar o fato de ter um presidente que vive numa humilde fazenda, doa praticamente todo o seu salário e é pouco afeito à liturgia do cargo). Não só na política. Nos últimos anos, o Uruguai expandiu as fronteiras das suas principais marcas de cerveja, a Norteña e a Patrícia, ambas pertencentes ao gigante conglomerado brasileiro-belga da Ambev. Em contrapartida às marcas globalizadas, cresceu no país uma cultura artesanal. 
Movimento semelhante ao que ocorre em muitos outros países da América Latina, o Brasil incluído.
Tudo isto, porém, serve meramente de introdução para o que pretendo de fato comentar. Estive em novembro de 2013 no Panamá, a trabalho. Tão logo soube que teria uma missão a cumprir naquele país, um istmo (pequena porção de terra espremida entre dois oceanos) margeado por Colômbia ao sul, Costa Rica ao norte e pelo Atlântico ao leste e Pacífico à oeste, lembrei-me de um vídeo que reproduzi no blog “Bate-Bola” a respeito de uma cervejaria que ficava numa área histórica da capital panamenha. La Rana Dorada, este é o nome do lugar, merece uma visita. 
Foi o que fiz. Durante dois dias rasguei elogios ao lugar, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, a fim de convencer os demais colegas de viagem a dar um pulinho lá. Para minha alegria, o encanto foi geral, pré e pós-visita.
A microcervejaria surgiu por iniciativa de um norte-americano que vislumbrou na Cidade do Panamá uma oportunidade de negócio. Tinha também, como ele mesmo define no vídeo postado no “Bate-Bola”, a ideia de criar uma cultura cervejeira no país. 
Em termos de tamanho, La Rana Dorada é pequena – como, aliás, cai bem às cervejarias artesanais, pois confere a elas um caráter caseiro que serve de contraponto à industrialização e massificação de outras marcas. Tem-se, assim, uma impressão de exclusividade e intimidade. Na capital, há duas unidades. A principal delas, e primogênita, fica em Casco Antiguo (ou Viejo), a área histórica da cidade. Trata-se de um bairro surgido em 1674, três anos após a destruição do antigo vilarejo pelas tropas do pirata galês Henry Morgan.
Casco Antiguo tem, portanto, muita história. O bairro que se conhece hoje é remanescente de um grande incêndio que destruiu praticamente 95% das construções do lugar, de madeira na época. Viveu durante décadas em completo abandono, até ser declarado patrimônio da humanidade pelas Unesco (órgão das Nações Unidas para a Educação e a Cultura), em 1997. Desde então, passa por um processo de revitalização, tocado em parte pela construtora brasileira Odebrecht.
Fiz questão de apresentar uma breve pincelada do bairro porque ele é parte essencial de La Rana Dorada. A cervejaria não teria o mesmo charme se estivesse em outro lugar, como a moderna avenida Balboa, por exemplo. À noite, em meio a luzes amareladas, a esquina onde fica o estabelecimento - praticamente na fronteira de Casco Antiguo com a cidade nova – é ponto obrigatório de parada aos amantes da arte da cerveja. A fachada é simples e combina bem com a arquitetura de estilo colonial da área. Mesas internas e externas lotadas garantem a animação. Gente bonita e alegre, festejando a vida.




Tão logo você chega, não se assuste com a aproximação de uma barca. Ela será trazida por um dos atenciosos garçons, que se encarregará de apresentar os quatro tipos de cerveja produzidos na casa, da mais fraca e clara à mais encorpada e escura. A barca amarela, com o nome do lugar e da cidade, embaixo da bandeira do Panamá, serve de degustação para escolha da bebida.
Quem conhece as cervejas norte-americanas tradicionais, porém não massificadas (ou seja, Budweiser excluída), como Samuel Adams ou Brooklyn (esta também uma microcervejaria fantástica no bairro de mesmo nome em Nova York), pode ter uma noção do sabor da Rana Dorada. 
Escolhemos os tipos intermediários, 2 e 3, para evitar a leveza um pouco demasiada e a força um tanto robusta dos extremos. A cerveja escolhida é servida em jarras, suficientes para uma rodada numa mesa de seis a oito pessoas.






Certamente, outras jarras virão. E mais outras. Sempre acompanhadas de brindes entusiasmados. O preço, em dólar (como tudo no Panamá), é convidativo para novas rodadas. A pizza como aperitivo é saborosa - fica a dica, coisa rara neste blog. Acrescente uma dose generosa de alegria, proporcionada por gente divertida, e o sotaque latino que se ouve na conversa animada com o guia Alex(ander Biggs) – “pá what?” – e o cardápio estará completo. E o roteiro idem.
Não se esqueça: numa esquina do bairro histórico da capital do Panamá vive uma certa rã dourada...