Uma bela cidade num belo país

De Montreal, o primeiro trecho da viagem nos levou até Quebéc, capital da província de mesmo nome. Um lugar com uma história marcante, que soube preservar seu passado nas fachadas e muros.
O nascer do sol colore a paisagem. A névoa esconde parte da cidade fundada em 1608. Na fachada do parlamento, estátuas fazem referências à história do país. Não só lá... Por ser a cidade mais antiga do país, Quebéc tem muitas marcas da colonização do Canadá. Os franceses construíram muitas bases militares nos séculos 17 e 18. Uma dessas bases serviu de ponto de partida para os ingleses fazerem a Citadela, a maior fortificação militar britânica na América do Norte. E ela é usada até hoje pela Guarda Canadense e serve de base também para a muralha que cerca todo o centro antigo de Quebéc. São 4,6 quilômetros de muro. Quebéc é a única cidade murada ainda preservada na América do Norte acima do México.





 

 

A tranquilidade das passadas do animal engana o visitante desavisado. A cidade é agitada. Nos meses de janeiro e fevereiro, por exemplo, sedia há 60 anos seu tradicional carnaval de inverno. Ele atrai pessoas de todo o mundo. Só este ano foram 700 mil visitantes em duas semanas, muitos brasileiros. "É um carnaval que dura 17 dias e é assim, no gelo. Eu não vi nenhuma mulata ainda, acho que nem voi ver...", disse o astrônomo Vinícius de Abreu Oliveira.
O rio Saint Laurent congelado é palco da Ice Canoe Race, uma corrida de canoas no gelo. É preciso enfrentar pequenos “icebergs”. Um verdadeiro desafio para atletas profissionais e amadores. 
Perto dali fica um verdadeiro espetáculo da natureza. A cachoeira de Montmorency, a apenas dez quilômetros da cidade de Quebéc. É a maior queda d´água da América do Norte, tem 83 metros de altura. Só pra se ter uma ideia, é 30 metros maior do que as cataratas do Niagara. É incrível: quando a gente observa e consegue ver as pessoas pequenininhas lá debaixo tem noção da altura. São como pontinhos na paisagem. As pessoas se divertem perto do encontro da cachoeira com o rio congelado. 
O pouco de água que resistiu ao frio parece cair mansamente. É só impressão. De cima dá para ter uma noção da força da água. Ela cai os mais de 80 metros até uma espécie de caverna aberta no gelo. A partir dali o rumo de toda essa água é desconhecido. De cima da ponte a vista da cachoeira e de toda a região do rio Montmorency é ainda mais incrível. Até onde a visão alcança, o que se vê é infinito branco, como um mar congelado. 
A turista francesa ficou admirada. "O que te impressiona aqui?", pergunto. “A grandeza. É tudo XL, é tudo muito maior do que na Europa”, responde Marie-Laure. "E até para você que vem de um lugar frio, o frio aqui é extremo?", quis saber. "É, realmente. É seco, então dizem que é agradável. Só que chega a ser -20, -25, -30, como na Europa o máximo é -10, comparando os dois aqui realmente é muito, muito mais frio”.
Os brasileiros também se impressionam. “Vim conhecer este lugar maravilhoso aqui, muito chamativo, muito interessante. A gente que vem lá da América do Sul, lá não tem a oportunidade de conhecer”, fala o arquiteto Fábio Romele.










E nós continuamos testando o transporte ferroviário do Canadá. Um sistema para dar inveja aos brasileiros. E, para os mais antigos, uma dose de saudosismo.
É noite em Quebéc. O trem se aproxima da pequena estação de Charny, na periferia. É possível comprar a passagem na hora, diretamente na máquina. Minutos depois nós embarcamos para uma viagem de 19 horas até Halifax, na Nova Escócia. A viagem exigiu uma noite a bordo. Ficamos nas cabines para duas pessoas, com cama e banheiro com chuveiro. 
Na promoção, a passagem para este setor custou pouco mais de 250 dólares, já com taxas. Metade do preço normal. Para a classe econômica, onde só há assentos, o custo era de 125 dólares. A cabine é meio apertada, assim como os corredores, mas de modo geral o trem é confortável. Dá para dormir tranquilamente.





Quando o dia nasce ainda faltam 12 horas de viagem. O café da manhã e o almoço ajudam a passar o tempo. No vagão bar dá para ler jornal, fazer trabalhos ou se distrair na Internet. Ou, se preferir, é só observar a paisagem pela janela. Por longos minutos um vazio branco, quebrado pelas árvores secas do rigoroso inverno canadense ou pelas florestas com vegetação típica das zonas temperadas. De vez em quando surge um vilarejo. Acredite: o tempo passa sem cansar.








 

Entre as atividades que os passageiros podem fazer no trem durante a viagem uma das principais é ficar o vagão de observação. É um vagão com janelas panorâmicas que permite que a gente possa observar toda a paisagem ao redor durante a viagem. E é uma paisagem espetacular.
Em alguns momentos, até lembra um cenário lunar, como brincou um dos funcionários da companhia ferroviária. A pesquisadora norte-americana Libby Dean ficou longas horas no vagão. “Parece que a viagem passa mais rápido”, diz. Ela morou 11 anos no Canadá, mas é a primeira vez que viaja pela Via Rail. A pesquisadora confessa que sempre quis viajar no vagão de observação. “É muito legal! (...) Eu prefiro o trem. Eu gosto da viagem, gosto de ver como a paisagem muda”.






Sim, muda... Passam pequenas cidades, passam pontes, passam florestas verdejantes e de árvores perenes, secas. Assim o trem vai rasgando o solo canadense. Só não passa o branco da neve, companheiro de viagem. E já perto do destino, somos presenteados com um belo por-do-sol.




* Texto original de reportagem escrita para o programa "Matéria de Capa" (TV Cultura, dom., 19h)

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