Cusco, a capital do império inca

Se tem um lugar que une o passado e o presente do Peru é Cusco, a capital do império inca. A cidade e seu entorno preservam construções da última das civilizações pré-colombianas, que existiram antes da chegada dos espanhóis. No centro histórico, os traços deste passado se misturam às marcas deixadas pelos colonizadores.

A música alegre e os trajes coloridos são uma marca de Cusco. Uma das mais importantes cidades do Peru, ela está a 3,4 mil metros de altitude, no alto da cordilheira dos Andes. Para quem não está acostumado, como os brasileiros, respirar lá é difícil. Falta de ar, tontura e dor de cabeça são alguns sintomas da altitude. Qualquer mínimo esforço físico causará estafa. Por isso, é comum ver tanques de oxigênio em restaurantes e hotéis.
Os locais estão acostumados com o ar rarefeito - o organismo deles, contam, possui uma taxa maior de glóbulos vermelhos no sangue.  

Outro remédio faz parte da tradição cusquenha: as folhas de coca. Elas podem ser mascadas ou consumidas como um chá. Eu experimentei. O sabor é semelhante ao de um mate - ou mesmo de mato. E não há nenhum efeito alucinógeno. Fui alertado para evitar tomar o chá à noite, pois ele traria insônia. É energético, como o guaraná.
O Peru é um dos três maiores produtores de coca do mundo, junto da Colômbia e Bolívia. O efeito analgésico da planta foi descoberto pelos incas. Eles são o motivo que atraem tantas pessoas para cá todos os anos.

Cusco foi a capital do império inca e de onde o império se expandiu. Na praça principal, a Plaza de Armas, ainda é possível ver sobre a fonte uma estátua do grande governante inca - foram 14 ao longo do império (Manqo Qhapaq, Sinchi Roqa, Lloqe Yupanki, Qhapaq Yupanki, Mayta Qhapaq, Inka Roqa, Yawar Wakaq, Wiraqocha, Pachakuteq, Yanque Yupanki, Tupak Inka Yupanki, Waynaqhapaq, Wasqar e Atawallpa). 
Mas talvez nenhum outro lugar represente tanto a dominação espanhola do que essa região. Só na praça e num raio de 200 metros ao redor pode-se contar pelo menos sete igrejas católicas.



     
 


 

A cruz símbolo do cristianismo, as imagens de santos e patronos da igreja, as fachadas imponentes dos templos com suas torres altas representaram a chegada de uma nova fé. O convento dos dominicanos (o antigo Qorikancha), por exemplo, foi construído num lugar sagrado para os incas. Partes de antigos templos do sol, da lua, do trovão ainda podem ser vistas no muro do lado de fora e nos corredores ao redor do pátio.






 
 
  
Mas tradições do passado permaneceram. Há marcas por todo lado, como na bandeira de Cusco, que carrega o arco-íris do povo inca, um sinal da aliança com a natureza. Referências à cultura andina também podem ser vistas nas pinturas, esculturas, nos nomes das ruas. Uma rica herança que esta gente faz questão de preservar. Como a língua quéchua.
Levar o filho nas costas, como a jovem moradora, é comum por lá. Uma mulher carregava um outro filhotinho. O traje típico e o sorriso estampado rendiam fotos e gorjetas.



Nas ruas e vielas com calçamento de pedras, o passado histórico se mistura ao presente. Moradores se misturam a turistas na cidade com mais de 300 mil habitantes. Cusco fica numa espécie de vale, espremida pelas montanhas da cordilheira. O crescimento das últimas décadas levou muitas casas para os morros. “Cusco é uma cidade muito tranquila”, diz Walter Trigoso, que trabalha com turismo. Pergunto sobre a segurança. “Muito boa em Cusco, mas em outros departamentos não é como aqui”, fala.
Quase 500 anos após a chegada dos colonizadores, a estátua do Cristo redentor, sinal da dominação cristã, abraça a cidade. Iluminada pelo mesmo sol que era adorado pelos incas. Após muita luta, Cusco aprendeu a arte da convivência.

 




 
 


 



* Texto originalmente feito para o programa "Matéria de Capa" (TV Cultura, dom., 19h30)

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