Um vale sagrado e mágico

Um lugar mágico. É assim que muitos peruanos costumam se referir ao Vale Sagrado, o coração agrícola dos povos andinos. Uma região cercada pela beleza da cordilheira dos Andes. Lá, nos pequenos povoados, tradições seculares são mantidas como em nenhum outro lugar do país.
A primeira visão é arrebatadora. Uma planície cortada pelas águas amarronzadas do rio Vilcanota, cercada de montanhas verdejantes. Lá embaixo, plantações de milho e uma dança tipica numa escola do vilarejo. É o nosso cartão de visita do Vale Sagrado.


Fonte de vida do vale, o Vilcanota era chamado de Willkañuta, "casa do sol" na língua quechua, ou Willcamayu, "rio sagrado". Ele corre em direção ao Brasil, onde ganha o nome de Solimões e vai dar origem ao rio Amazonas até desaguar no oceano Atlântico perto da ilha de Marajó. O rio é fundamental para o vale. As condições climáticas fazem deste lugar um dos mais férteis do continente. Uma fonte de riqueza para os povos do passado e do presente. Dali sai um dos milhos de melhor qualidade do mundo, exportado para os Estados Unidos e Japão.
E a riqueza não brota só da terra, vem também da montanha. Há mais ou menos 20 milhões de anos toda a região ficava debaixo d´água, dentro do oceano. Quando a cordilheira se levantou, formaram-se bancos de sal como as salinas de Maras, que fica bem no coração do império inca.
Para descer até lá, é preciso enfrentar uma estrada de terra e cascalho à beira do penhasco. São cinco mil bancos de sal, explorados por duzentas famílias. A produção dura de abril a outubro e é medida em quintais. Um quintal equivale a 50 quilos. Cada poço rende por mês cerca de 80 sóis, a moeda do Peru.
A água desce da montanha já salgada por causa do clorato de sódio e quando cai nas poças ela vai se cristalizando, formando os cristais de sal. E acredite: a água desce muito salgada e quente! Dá para provar. É muito parecido com uma salmora como se conhece no Brasil, bem salgada!





      
Na planície cercada pelos picos nevados dos Andes, o silêncio só é quebrado pela passagem de algum veículo. O Vale Sagrado fica a 2,9 mil metros de altitude. Lá, a vida é rural. A estrada une os pequenos povoados, lugares simples, com casas de pedra, sem sinais de riqueza. Ao menos do ponto de vista financeiro. Porque a região é rica em cultura e beleza. Guarda tradições, conhecimentos e mistérios dos povos que passaram por lá séculos atrás.










O Peru atual é fruto de 24 civilizações que viveram na região por cinco mil anos. A história de cada uma está contada no museu Larco, em Lima. Só em cerâmica são 54 mil peças, uma das maiores coleções do mundo. Elas revelam um pouco do cotidiano dos antigos povos, que não deixaram escritos. No museu também estão peças usadas nas refeições, além de joias e adornos em ouro e prata. O brilho dourado não servia para ostentar riqueza. Era símbolo de conhecimento. Num objeto foi descoberta a múmia de um menino. Os antigos povos acreditavam na vida após a morte, por isso a representação de um homem adulto.






De volta ao Vale Sagrado, o museu Inkariy aposta num trabalho artístico para apresentar as mais conhecidas e influentes civilizações que formaram o Peru, como os mochas e paracas. Em cada sala, a encenação de um aspecto do cotidiano destes povos. “Este museu está mostrando através de um recorte cronológico oito das culturas mais importantes para o desenvolvimento do homem andino em geral. Por quê? Para entender porque o império inca foi tão importante e tão poderoso e pôde expandir para praticamente todo o continente. O desenvolvimento da religião, engenharia, organização sócio-político, astronomia, todos estes conhecimentos se juntam no império inca e se converte num grande império”, explica Edilberto Mérida, artista plástico e museógrafo.







Na busca pelas marcas deste império, chegamos a Moray. Os degraus circulares eram usados para experimentos agrícolas pelos incas.



Também passamos por Tambomachay, que serviu de posto de observação de um lado e área de descanso do outro devido à existência de fontes de água. Por isso, o local também funcionava com um templo, já que para os incas tudo que vinha da natureza era sagrado.





Dali seguimos para PukaPukara, outro posto de guarda e observação próximo, de onde se vê todo o vale e suas belezas. De um ponto de observação era possível ver o outro, o que garantia uma comunicação visual e a segurança da área.





Também visitamos Q'enqo, o templo da mãe terra. A grande pedra cercada por um pequeno muro possivelmente tinha algum significado especial. É possível que tivesse algum formato - os espanhóis destruíram vários símbolos de adoração dos incas. Do lado de trás há um caminho em zigue-zague entre as pedras. Em alguns pontos ele é tão estreito que passa só uma pessoa. O templo esconde também uma gruta com uma espécie de altar. O lugar era provavelmente usado em rituais.






Nosso trajeto termina em Saqsaywaman, um reservatório de água na época dos incas hoje tido como um lugar místico. Muitos acreditam que o lugar emana energia cósmica. O escorregador natural ao lado virou atração para os turistas.


E a poucos metros, no mesmo completo, uma grande muralha de pedras formando uma ampla praça. Dali dá para ver a cidade apenas dois quilômetros abaixo. Por isso, alguns estudiosos afirmam que a área serviu como uma fortaleza, mas a teoria mais aceita é que se tratava de um grande templo de adoração ao sol. Vinte mil homens trabalharam em sua construção, que durou cerca de 50 anos, entre os séculos 15 e 16.







 
* Texto originalmente feito para o programa "Matéria de Capa" (TV Cultura, dom., 19h30)

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