Uma cidade que está de mudança

A igreja de Kiruna é considerada a mais bonita da Suécia. Ela lembra uma grande cabana de madeira - nem parece um templo religioso. Bem ao lado, a torre completa o conjunto de uma arquitetura peculiar. O tom avermelhado contrasta com o branco da neve e completa a paisagem do entardecer.


 


Mas a igreja está ameaçada. E também as casas ao redor e, nas próximas décadas, a própria cidade. E o motivo está bem ali ao lado - a famosa mina. As escavações já atingiram 1.365 metros e avançam na direção da cidade. E já afetam a estrutura do subsolo. Como a cidade nasceu ao redor da mina, o centro histórico é o primeiro local ameaçado. É lá que fica a casa onde morou o geólogo Johan Olof Hjalmar Lundbohm. Ele foi o primeiro diretor da empresa de mineração e é o fundador de Kiruna.


A prefeitura foi informada do problema em 2004. Se nada fosse feito, Kiruna poderia desaparecer. De olho na preservação da sua história, a comunidade tomou uma decisão ousada: mudar a cidade de lugar. A maquete dá uma ideia do tamanho do desafio. Toda a área até a linha vermelha já está afetada - o que inclui a própria prefeitura, além de escolas, do hospital e de 2,5 mil apartamentos, onde vivem seis mil pessoas.
A diretora de informação do município, Marianne Nordmark, explica que o novo centro deve ficar cerca de três quilômetros a leste do atual. A primeira etapa da mudança deve começar este ano e se estender pelos próximos 25 anos. A nova prefeitura está prevista para abrir em 2017. “A lei de mineração sueca diz que a empresa que causar danos no solo tem que pagar por isso. Eu não sei quanto isto vai custar porque a transformação vai durar um longo tempo”, diz.

 
 

O trabalho exige cuidados que vão além da parte física. A responsável pelo patrimônio histórico e cultural de Kiruna, Clara Nyström, fala que não basta mudar um prédio de lugar. O bairro onde viviam os primeiros moradores é um bom exemplo. As casas, construídas no início do século 20, preservam não só a arquitetura, mas também o estilo de vida da época. A pintura colorida ajudava a dar um pouco de calor e vida durante o inverno e a distância entre as casas refletia uma preocupação com a saúde, já que era mais difícil uma doença se espalhar. “Não é só mover uma casa, é mover uma história. De como as pessoas viviam em Kiruna antes, isto é importante levar junto, todo o ambiente, esta é a ideia”, menciona Clara.



 
 

Apesar dos desafios e dos riscos envolvidos na mudança, os moradores veem a mina como motivo de orgulho. “Esta é uma cidade de mineração e a importância da mina é significativa. Sem a mina, a cidade não seria o que é hoje”, cita Mikael Forslund, líder de projeto da LKAB.

* Texto original de reportagem feita para o programa "Matéria de Capa" (TV Cultura, dom., 19h30)

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